A neoplasia gástrica é uma das principais causas de morte por câncer no mundo, com cerca de 1.033.701 casos diagnosticados anualmente. As lesões costumam estar localizadas no antro, fundo, corpo e/ou incisura angular do estômago.
Entre os fatores de risco, a infecção crônica por Helicobacter pylori é o principal fator associado ao câncer gástrico tipo intestinal, respondendo por pelo menos 80% da carga global dessa neoplasia.
Esse tipo de câncer, quando não cárdico, costuma seguir a cascata de Pelayo-Correa, que envolve a progressão de mucosa normal para gastrite não atrófica, gastrite atrófica, metaplasia intestinal, displasia e neoplasia gástrica.
Nesse contexto, a identificação de lesões pré-neoplásicas, como a metaplasia intestinal gástrica, orienta estratégias de rastreamento e vigilância endoscópica.

Recomendações da AGA para manejo de metaplasia intestinal gástrica
Pesquisa e erradicação de H. pylori
Em pacientes com metaplasia intestinal gástrica, a American Gastroenterological Association recomenda pesquisar H. pylori e, quando a bactéria estiver presente, realizar sua erradicação. A confirmação da erradicação após o tratamento também deve ser feita.
A erradicação do H. pylori em pacientes com ou sem metaplasia intestinal reduz o risco relativo de neoplasia gástrica em cerca de 32%.
Para aprofundar a abordagem diagnóstica e terapêutica, leia também: Infecção por Helicobacter pylori: revisão 2026 do manejo atual. O conteúdo revisa erros comuns no diagnóstico e tratamento, resistência antibiótica, esquemas terapêuticos e confirmação de erradicação.
De maneira geral, em pacientes com metaplasia intestinal gástrica, a AGA sugere não realizar vigilância endoscópica periódica. A vigilância pode ser considerada em indivíduos com alto risco para neoplasia gástrica, sendo recomendada decisão compartilhada com o paciente
A vigilância endoscópica pode ser considerada em pacientes com fatores associados a maior risco de neoplasia gástrica, como:
- metaplasia gástrica incompleta: RR 3,3;
- metaplasia gástrica extensa: RR 2,1;
- história familiar de neoplasia gástrica: RR 4,5;
- residência ou imigração de regiões de alto risco para neoplasia gástrica;
- pertencimento a minorias étnicas e raciais com maior risco.
Intervalo de vigilância endoscópica, quando indicada
Quando a vigilância endoscópica é indicada, pode-se considerar repetir a endoscopia com biópsias de antro, corpo e áreas suspeitas a cada 3 a 5 anos.
O risco acumulado de desenvolvimento de neoplasia gástrica em pacientes com metaplasia intestinal é estimado em:
- 3 anos: 0,4%;
- 5 anos: 1,1%;
- 10 anos: 1,6%.
Esses dados reforçam a necessidade de individualizar a vigilância, evitando tanto subrastreamento em pacientes de alto risco quanto excesso de exames em pacientes de baixo risco.
Quando repetir endoscopia em curto intervalo?
A AGA sugere não repetir a endoscopia em curto intervalo apenas para estratificação de risco na maioria dos pacientes com metaplasia intestinal gástrica.
No entanto, uma nova endoscopia em até 1 ano pode ser considerada quando houver:
- suspeita de exame inicial incompleto;
- exame de má qualidade;
- anormalidades visualmente detectáveis não estudadas;
- necessidade de mapear melhor a extensão da metaplasia;
- necessidade de definir o subtipo, completo ou incompleto;
- necessidade de excluir neoplasia prevalente em paciente de alto risco
O que dizem outras diretrizes sobre metaplasia intestinal gástrica?
American Society of Gastrointestinal Endoscopy
A American Society of Gastrointestinal Endoscopy indica vigilância endoscópica para pacientes com metaplasia intestinal gástrica e risco aumentado de neoplasia gástrica, especialmente quando há história familiar ou maior risco relacionado ao background étnico.
O intervalo de vigilância deve ser individualizado. A ASGE também sugere que a vigilância pode ser suspensa após duas endoscopias sem displasia e recomenda a erradicação do H. pylori.
European Society of Gastrointestinal Endoscopy
A European Society of Gastrointestinal Endoscopy recomenda considerar a erradicação de H. pylori em pacientes com metaplasia intestinal gástrica.
A diretriz europeia sugere vigilância endoscópica a cada 3 anos em pacientes com maior risco, incluindo aqueles com:
- metaplasia intestinal incompleta;
- metaplasia extensa;
- história familiar de neoplasia gástrica;
- gastrite por H. pylori persistente;
Além disso, recomenda realizar endoscopia digestiva alta a cada três anos em pacientes com gastrite atrófica acentuada, metaplasia extensa de antro e corpo ou OLGA classificação III/IV. Na presença desses achados e história familiar de neoplasia gástrica, sugere reduzir o intervalo entre endoscopias para 1-2 anos.
Consenso Brasileiro sobre infecção por H. pylori
O IV Consenso Brasileiro sobre infecção por H. pylori recomenda que o estadiamento de lesões pré-neoplásicas seja feito com pelo menos quatro biópsias endoscópicas:
- duas do antro;
- duas do corpo.
O sistema OLGA deve ser usado para o estadiamento histológico da gastrite.
Pacientes classificados como OLGA III ou IV devem ser submetidos a seguimento endoscópico a cada 2 anos. O consenso também recomenda erradicar o H. pylori.
Conclusão
O manejo da metaplasia intestinal gástrica deve começar pela pesquisa e erradicação do H. pylori, ponto comum entre as principais diretrizes.
A indicação de vigilância endoscópica, por outro lado, deve ser individualizada. Fatores como metaplasia extensa ou incompleta, história familiar de neoplasia gástrica, origem em regiões de alto risco, qualidade da endoscopia inicial e estadiamento histológico ajudam a definir quais pacientes podem se beneficiar de seguimento.
Referências bibliográficas:
- Gupta S, Li, D, El Serag, HB, et al. American Gastroenterological Association Institute guidelines for management of gastric intestinal metaplasia. Gastroenterol. 2020 (ahead of print). doi.org/10.1053/j.gastro.2019.12.003
- Pimentel-Nunes P, Libanio D, Marcos-Pinto R, et al. Management of epithelial precancerous conditions and lesions in the stomach (MAPS II): European Society of Gastrointestinal Endoscopy (ESGE), European Helicobacter and Microbiota Study Group (EHMSG), European Society of Pathology (ESP), and Sociedade Portuguesa de Endoscopia Digestiva (SPED) guideline update 2019. Endoscopy 2019;51:365–388.
- Evans JA, Chandrasekhara V, Chathadi KV, et al. Therole of endoscopy in the management of premalignant and malignant conditions of the stomach. Gastrointest Endosc 2015;82:1–8.
- Coelho LGV, et al. IV Consenso Brasileiro sobre a infecção por Helicobacter pylori. Arq Gastroenterol. 2018; 55(2):97-121.
*Este conteúdo foi atualizado em: 15/05/2026 pela equipe editorial do Portal Afya.
Autoria

Guilherme Grossi Cançado
Editor médico da Afya ⦁ Pós-Doutorado em Hepatologia Avançada e Doenças Autoimunes do Trato Gastrointestinal pela Universidade de Toronto, Canadá ⦁ Doutorado em saúde do adulto com ênfase em Hepatologia pela UFMG ⦁ Mestrado em saúde do adulto com ênfase em Gastroenterologia pela UFMG ⦁ Residência em Clínica Médica e Gastroenterologia pelo HC-UFMG ⦁ Chefe da Gastrohepatologia do Hospital da Polícia Militar de Minas Gerais ⦁ Preceptor de hepatologia e clínica médica do HC-UFMG ⦁ Membro da AASLD, ALEH, SBH, GEDIIB ⦁ Coordenador de Jovens Investigadores da ALEH ⦁ Professor convidado da UFMG
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