Logotipo Afya
Anúncio
Terapia Intensiva24 julho 2026

Subfenótipos cardiovasculares na Sepse

Estudo identifica quatro subfenótipos cardiovasculares na sepse e sugere potencial para individualizar fluidos, vasopressores e inotrópicos.
Por André Japiassú

A disfunção cardiovascular é comum nos pacientes com sepse. O tratamento padrão nas primeiras horas da sepse consiste em antibióticos e reposição de líquidos de modo uniforme para todos, mas há receio (justificado, diga-se de passagem) de infundir 1 a 2 litros de salina em pacientes, por exemplo, com insuficiência cardíaca. A principal causa de morte nesses pacientes é o choque refratário; é sabido também que o choque se manifesta por apresentações diferentes. Por outro lado, muitos pacientes com disfunção cardiovascular realizam ecocardiograma e este exame mostra diferentes padrões associados à sepse, entre eles um padrão hiperdinâmico, depressão do miocárdio, disfunção diastólica e falência do ventrículo direito com manutenção de funcionalidade do ventrículo esquerdo.  

Métodos: 

É um estudo retrospectivo de centro único (Birmingham, Reino Unido). Os autores deste estudo procuraram padrões de disfunção cardiovascular que fossem comuns, e tentaram agrupar com sinais, sintomas e aspectos de imagem para tentar definir diferentes fenótipos na sepse. Os pacientes realizaram ecocardiograma transtorácico nos primeiros 7 dias após apresentar o diagnóstico de sepse.  

Os autores excluíram pacientes que já tinham disfunção cardíaca prévia ou disfunção valvular, assim como admissão anterior em CTI cardíaco, infecção por Covid-19 e dificuldade de visualização de janela no ecocardiograma. Todos os exames em pacientes compatíveis foram realizados por médicos certificados pela sociedade britânica de ecocardiografia.  

O objetivo principal do estudo foi classificar os pacientes por subfenótipos cardiovasculares. Os autores agruparam aspectos de demografia, parâmetros clínicos cardiovasculares, mortalidade em 90 dias e aspectos da imagem com ecocardiograma. A ecocardiografia pode ter sido realizada de maneira mais precoce, ou seja, nos 3 primeiros dias ou mais tardia entre o 4o e 7o dia. Foram coletados dados de função sistólica do ventrículo esquerdo, que podia estar deprimido, normal ou hiperdinâmico: abaixo de 55%, entre 55 e 70% ou maior que 70%, respectivamente. Também houve avaliação da comparação entre áreas do ventrículo esquerdo em relação ao ventrículo direito (VE:VD) e integral de tempo velocidade (VTi) no trato de saída do ventrículo esquerdo. A resistência vascular sistêmica foi calculada pela diferença entre pressão arterial média e pressão venosa central, dividida pelo débito cardíaco e multiplicada pela constante de 80. Os autores também coletaram dados sobre os vasopressores e inotrópicos usados. Eles tentaram associar o balanço hídrico do paciente e a administração de líquidos venosos e o prognóstico. Todos os pacientes receberam o tratamento preconizado pela Surviving Sepsis Campaign no protocolo de sepse. 

Resultados: 

Os autores avaliaram uma coorte de derivação (n=995, 2016-2019) e uma coorte de validação (n=804, 2020-2021): 18% tinham choque séptico, 62% ventilação mecânica e a mortalidade em 90 dias foi 32%. Entre as 10 variáveis analisadas e clinicamente importantes, os autores fizeram uma separação de 4 subfenótipos de disfunção cardiovascular: 

  • Classe 1 (predominante): Caracterizada por função cardiovascular majoritariamente normal; 
  • Classe 2: Apresenta alto índice cardíaco e fração de ejeção (FE) hiperdinâmica, frequentemente associada a vasoplegia; 
  • Classe 3: Definida por dilatação do ventrículo direito (VD) e disfunção sistólica do VD, mas com FE do ventrículo esquerdo (VE) geralmente normal; 
  • Classe 4: Caracterizada por baixo débito cardíaco e FE do VE deprimida (miocardiopatia séptica). 

O estudo identificou este modelo de 4 classes, reproduzido consistentemente em ambas as coortes. Comparando as variáveis clínicas, as classes 2, 3 e 4 tinham uma maior incidência de choque séptico, disfunções orgânicas e necessidade de vasopressor; a classe 2 tinha uma maior incidência de hepatopatia e infecções da vias biliares. A classe 3 tinha uma prevalência maior de infecção respiratória e comorbidades, incluindo DPOC, e a classe 4 tinha uma maior incidência de cardiopatia isquêmica com maior taxa de administração de inotrópicos. 

A associação com a mortalidade variou conforme as estratégias de administração de fluidos e agentes vasoativos, sugerindo que esses subfenótipos podem representar “traços tratáveis” para a personalização do manuseio do choque, algo que não se captura por definições simples. Em relação à classe 1, o odds ratio para mortalidade da classe 2 foi 2.8, da classe 3 foi 3.1 e da classe 4 foi 4.2. A análise também mostrou que os doentes do tipo 2 tinham mortalidade elevada quando se usava inotrópico, que pareceu claro porque esses pacientes tinham um aspecto de ecocardiograma hiperdinâmico. Por outro lado, os pacientes da classe 4 que usavam inotrópicos tinham mortalidade menor do que aqueles que não usavam. Não houve diferença em relação ao subfenótipos e a mortalidade se o ecocardiograma foi realizado precoce ou tardiamente. 

Na validação dos dados com 804 pacientes, a mortalidade foi de 33% e a prevalência foi bastante semelhante entre as classes: 56%, 22%, 12% e 10%, respectivamente; assim como houve um aumento progressivo da mortalidade da classe 1 até a 4. 

Esses dados podem demonstrar que subfenótipos diferentes podem divergir na resposta ao tratamento de vasopressores e inotrópicos, assim como limitar a administração de líquidos no início do tratamento, embora o balanço hídrico não tenha sido associado como mortalidade nas classes 3 e 4. A expectativa é que sinais/sintomas, o cálculo da resistência vascular e a visualização de ecocardiograma muito alterado possam influenciar a decisão de fazer ou não líquidos e aminas vasoativas. 

Limitações: 

O estudo foi retrospectivo e de único centro e, portanto, ainda não está claro se os subfenótipos identificados foram causa de mortalidade ou meramente se correlacionaram com a gravidade da doença extra-cardíaca. Dados de relação entre ventrículo esquerdo e direito também podem ter menor acurácia nas situações de hipovolemia, dado que os autores não puderam avaliar de maneira retrospectiva e confiável.  

Outro aspecto é que a taxa de disfunção cardiovascular pode ter sido superestimada, porque há maior probabilidade de realização de ecocardiograma nos pacientes com maior suspeita de disfunção cardíaca; somente um estudo prospectivo que analise todos os pacientes com sepse poderia esclarecer essa dúvida e confirmar ou não a prevalência de cada subfenótipo na população séptica. 

E não há certeza se existe variação de aspectos de ecocardiografia ao longo dos dias na primeira semana, já que neste estudo só foi analisado o primeiro exame realizado no paciente. Na primeira semana é provável que exames seriados possam demonstrar subfenótipos diferentes no mesmo caso.  

Mensagens para o dia-a-dia: 

Todos os subfenótipos puderam ser identificados com precisão utilizando modelos simplificados de apenas três variáveis, facilitando a aplicação prática à beira do leito; 

Há possibilidade de personalização do tratamento de acordo com subfenótipos da disfunção cardiovascular na sepse. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Terapia Intensiva