O escore SOFA 2 foi recentemente lançado como uma atualização da sua primeira versão, publicada em 1996. Nesta nova versão, algumas pontuações foram revisadas, com limiares diferentes principalmente nos sistemas respiratório, cardiovascular e renal.
Um exemplo é a relação PaO₂/FiO₂: agora, pontua-se 1 ponto quando o valor é menor que 300, enquanto o limiar anterior era 400. Originalmente, o SOFA foi desenvolvido para acompanhar o grau de disfunção orgânica em pacientes graves. Posteriormente, passou a ser explorado também como ferramenta de discriminação de mortalidade e, em 2016, foi incorporado à definição de sepse, considerando aumento de 2 pontos ou mais.
O objetivo deste estudo foi avaliar, em bases de dados chinesas e norte-americana, se a nova versão do escore SOFA é capaz de predizer sepse e mortalidade hospitalar em pacientes com suspeita de infecção internados em UTI.

Métodos
Os autores analisaram dados de uma coorte multicêntrica envolvendo três universidades chinesas — Pequim, Guizhou e Zunyi — e utilizaram também a base norte-americana MIMIC-IV, da Universidade de Boston.
As bases chinesas incluíram pacientes internados entre 2013 e 2024, enquanto a MIMIC-IV contemplou pacientes entre 2008 e 2019. Foram incluídos adultos com mais de 18 anos, internados em UTI, com suspeita de infecção.
A suspeita de infecção foi definida como coleta de hemocultura e início de antimicrobianos nos dois dias anteriores ou posteriores à coleta. Essa definição ampla é uma limitação importante, pois pode variar conforme o registro em prontuário.
Os autores compararam o desempenho do SOFA 1 e do SOFA 2, dividindo os pacientes em quatro grupos: SOFA 1 e 2 negativos; SOFA 1 e 2 positivos; SOFA 1 positivo e SOFA 2 negativo; e SOFA 1 negativo e SOFA 2 positivo.
Resultados
A coorte chinesa incluiu 24.510 pacientes, enquanto a MIMIC-IV incluiu 15.563 pacientes com suspeita de infecção internados em UTI.
Na coorte chinesa, a sepse esteve presente em 84% dos pacientes pelo SOFA 1 e em 80% pelo SOFA 2. A maior parte dos pacientes apresentou critérios de sepse nas duas versões do escore, cerca de 74%.
Houve divergência entre as versões em 15% dos casos. O SOFA 1 definiu sepse com maior frequência do que o SOFA 2: 10% versus 5%.
Os pacientes com SOFA 2 positivo eram mais jovens, mais frequentemente do sexo masculino e apresentavam maior taxa de pneumonia, infecções gastrointestinais e neurológicas. O tempo de internação e a mortalidade foram maiores nos grupos com SOFA 1 e 2 positivos e com SOFA 1 negativo e SOFA 2 positivo, indicando que a positividade no SOFA 2 marcou maior gravidade.
Predição de mortalidade
O SOFA 2 apresentou melhor desempenho para prever mortalidade hospitalar. A AUROC foi de 0,746 para o SOFA 2, em comparação com 0,679 para o SOFA 1.
Essa superioridade ocorreu principalmente pela revisão da pontuação dos sistemas respiratório, cardiovascular e renal. A diferença se manteve em subgrupos, incluindo pacientes em ventilação mecânica e aqueles com dados completos de troca gasosa.
De modo geral, a pontuação do SOFA 2 foi cerca de 2 pontos menor do que a do SOFA 1. Ainda assim, os pacientes com SOFA 2 positivo apresentaram maior risco de morte.
Entre os pacientes com SOFA 1 negativo e SOFA 2 positivo, a mortalidade hospitalar foi de 10,6%, enquanto entre aqueles com SOFA 1 positivo e SOFA 2 negativo foi de 3,3%.
Mensagens para o dia a dia
A segunda versão do escore SOFA identificou um subgrupo de maior risco entre pacientes com suspeita de infecção internados em UTI.
O SOFA 2 apresentou melhor performance para mortalidade hospitalar do que a versão original, tanto na coorte chinesa quanto na validação externa norte-americana.
Embora o SOFA 1 possa superestimar a presença de disfunção orgânica, o SOFA 2 parece ser mais específico para identificar pacientes com sepse e maior risco de morte.
Autoria

André Japiassú
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.