A sepse permanece uma das principais causas de morte evitável no mundo. Estima-se que ocorram, aproximadamente, 49 milhões de casos por ano, sendo aproximadamente 85% registrados em países e regiões com recursos limitados. Nesses locais, dificuldades relacionadas ao acesso a diagnóstico, medicamentos, equipamentos, infraestrutura e profissionais capacitados comprometem o reconhecimento precoce e o tratamento oportuno da doença.
Com o objetivo de oferecer recomendações práticas para diferentes níveis de atenção à saúde, a Society of Critical Care Medicine (SCCM) reuniu especialistas internacionais para elaborar o documento “10 Steps to Improve Sepsis Care in Low-Resource Settings“. Diferentemente de uma diretriz tradicional, o trabalho apresenta um modelo de implementação baseado em consenso, adaptável às diferentes realidades assistenciais e alinhado ao conceito da Sepsis Chain of Survival.

Como o consenso foi elaborado
O documento foi desenvolvido por uma força-tarefa multiprofissional composta por especialistas em terapia intensiva, emergência, infectologia, saúde pública, pediatria, medicina do adulto e ciência da implementação, representando diferentes contextos de recursos.
As recomendações foram construídas por meio de um processo estruturado que incluiu: revisão da literatura científica; pesquisa Delphi; conferência no formato Utstein; consulta a organizações internacionais e especialistas; período de consulta pública antes da aprovação final.
O resultado foi um conjunto de 10 passos não sequenciais, que podem ser implementados de acordo com as necessidades e recursos locais.
Quais são os 10 passos para melhorar o cuidado da sepse?
As recomendações foram organizadas em quatro grandes domínios — preparar, prevenir, executar e melhorar — acrescidos de dois princípios transversais voltados à cultura organizacional e ao bem-estar de pacientes e profissionais.
Os dez passos incluem:
- fortalecer governança, infraestrutura, insumos e equipamentos essenciais;
- capacitar continuamente profissionais de saúde, pacientes e cuidadores;
- ampliar estratégias de prevenção da sepse na comunidade e nos serviços de saúde;
- melhorar o reconhecimento precoce e estruturar sistemas de resposta rápida;
- implementar protocolos e bundles de tratamento adaptados ao contexto local;
- organizar programas estruturados de acompanhamento após a alta por sepse;
- desenvolver registros e sistemas de informação para monitorar indicadores;
- estabelecer programas permanentes de melhoria da qualidade;
- promover uma cultura de excelência, respeito e trabalho em equipe multi, inter e transprofissional, quando necessário;
- apoiar o bem-estar de pacientes, familiares e profissionais de saúde.
Um aspecto importante destacado pelos autores é que essas recomendações não devem ser interpretadas como etapas sequenciais, mas como componentes complementares de um sistema integrado de assistência à sepse.
Principais novidades do documento
O consenso amplia a abordagem tradicional centrada apenas no atendimento inicial da sepse. Além do reconhecimento precoce e das intervenções nas primeiras horas, os especialistas enfatizam aspectos frequentemente negligenciados, como prevenção, educação permanente, melhoria contínua da qualidade, reabilitação e seguimento após a alta hospitalar.
Outro diferencial é o incentivo ao uso de tecnologias acessíveis para apoiar a assistência, incluindo telemedicina, sistemas eletrônicos de apoio à decisão, aplicativos clínicos, monitoramento remoto e registros eletrônicos sempre que disponíveis. Essas ferramentas são apresentadas como estratégias para reduzir atrasos no diagnóstico, aumentar a adesão aos protocolos e facilitar o acompanhamento dos pacientes.
Os autores também reforçam que indicadores de desempenho devem ser monitorados continuamente por meio de registros clínicos, auditorias e ciclos de melhoria da qualidade, permitindo identificar gargalos assistenciais e direcionar intervenções locais.
Impacto para a prática clínica
Embora elaborado para cenários com recursos limitados, o consenso traz recomendações aplicáveis a diferentes sistemas de saúde, incluindo hospitais brasileiros. A mensagem central é que melhorar os desfechos da sepse depende menos da incorporação de tecnologias complexas e mais da organização dos processos assistenciais.
Entre as prioridades destacam-se o treinamento contínuo das equipes, a disponibilidade de insumos essenciais, protocolos adaptados à realidade local, reconhecimento precoce da sepse, administração oportuna das intervenções recomendadas e monitoramento sistemático dos resultados. O documento também amplia a visão do cuidado ao incorporar estratégias de reabilitação pós-sepse e suporte aos pacientes, familiares e profissionais envolvidos na assistência.
Mensagem prática
Este consenso propõe uma mudança de paradigma ao abordar a sepse como um processo contínuo de cuidado, desde a prevenção até a recuperação após a alta. Em vez de priorizar apenas as primeiras horas do tratamento, o documento recomenda fortalecer toda a cadeia assistencial por meio de educação, protocolos adaptados, melhoria da qualidade, sistemas de informação e acompanhamento longitudinal. Para serviços brasileiros, especialmente aqueles com limitações de recursos, as recomendações oferecem um roteiro prático para identificar fragilidades locais e implementar melhorias progressivas na assistência à sepse.
Autoria

Cintia Johnston
Conteudista fisioterapeuta intensivista na Afya. Doutora em Medicina Pediátrica na FAMED/PUCRS. Pós-doutora em Pneumologia na UNIFESP/EPM. Coordenadora Nacional da PG em Medicina Intensiva Pediátrica na AFYA.
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