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Terapia Intensiva13 agosto 2026

Sepse em cenários com poucos recursos: 10 passos para melhorar a assistência

Consenso internacional apresenta 10 estratégias para fortalecer a prevenção, reconhecimento e tratamento da sepse em cenários com recursos limitados.

A sepse permanece uma das principais causas de morte evitável no mundo. Estima-se que ocorram, aproximadamente, 49 milhões de casos por ano, sendo aproximadamente 85% registrados em países e regiões com recursos limitados. Nesses locais, dificuldades relacionadas ao acesso a diagnóstico, medicamentos, equipamentos, infraestrutura e profissionais capacitados comprometem o reconhecimento precoce e o tratamento oportuno da doença. 

Com o objetivo de oferecer recomendações práticas para diferentes níveis de atenção à saúde, a Society of Critical Care Medicine (SCCM) reuniu especialistas internacionais para elaborar o documento 10 Steps to Improve Sepsis Care in Low-Resource Settings. Diferentemente de uma diretriz tradicional, o trabalho apresenta um modelo de implementação baseado em consenso, adaptável às diferentes realidades assistenciais e alinhado ao conceito da Sepsis Chain of Survival. 

sepse com poucos recursos

Como o consenso foi elaborado 

O documento foi desenvolvido por uma força-tarefa multiprofissional composta por especialistas em terapia intensiva, emergência, infectologia, saúde pública, pediatria, medicina do adulto e ciência da implementação, representando diferentes contextos de recursos. 

 As recomendações foram construídas por meio de um processo estruturado que incluiu: revisão da literatura científica; pesquisa Delphi; conferência no formato Utstein; consulta a organizações internacionais e especialistas; período de consulta pública antes da aprovação final. 

O resultado foi um conjunto de 10 passos não sequenciais, que podem ser implementados de acordo com as necessidades e recursos locais. 

Quais são os 10 passos para melhorar o cuidado da sepse? 

As recomendações foram organizadas em quatro grandes domínios — preparar, prevenir, executar e melhorar — acrescidos de dois princípios transversais voltados à cultura organizacional e ao bem-estar de pacientes e profissionais. 

Os dez passos incluem: 

  • fortalecer governança, infraestrutura, insumos e equipamentos essenciais; 
  • capacitar continuamente profissionais de saúde, pacientes e cuidadores; 
  • ampliar estratégias de prevenção da sepse na comunidade e nos serviços de saúde; 
  • melhorar o reconhecimento precoce e estruturar sistemas de resposta rápida; 
  • implementar protocolos e bundles de tratamento adaptados ao contexto local; 
  • organizar programas estruturados de acompanhamento após a alta por sepse; 
  • desenvolver registros e sistemas de informação para monitorar indicadores; 
  • estabelecer programas permanentes de melhoria da qualidade; 
  • promover uma cultura de excelência, respeito e trabalho em equipe multi, inter e transprofissional, quando necessário; 
  • apoiar o bem-estar de pacientes, familiares e profissionais de saúde. 

Um aspecto importante destacado pelos autores é que essas recomendações não devem ser interpretadas como etapas sequenciais, mas como componentes complementares de um sistema integrado de assistência à sepse. 

Principais novidades do documento 

O consenso amplia a abordagem tradicional centrada apenas no atendimento inicial da sepse. Além do reconhecimento precoce e das intervenções nas primeiras horas, os especialistas enfatizam aspectos frequentemente negligenciados, como prevenção, educação permanente, melhoria contínua da qualidade, reabilitação e seguimento após a alta hospitalar. 

Outro diferencial é o incentivo ao uso de tecnologias acessíveis para apoiar a assistência, incluindo telemedicina, sistemas eletrônicos de apoio à decisão, aplicativos clínicos, monitoramento remoto e registros eletrônicos sempre que disponíveis. Essas ferramentas são apresentadas como estratégias para reduzir atrasos no diagnóstico, aumentar a adesão aos protocolos e facilitar o acompanhamento dos pacientes. 

Os autores também reforçam que indicadores de desempenho devem ser monitorados continuamente por meio de registros clínicos, auditorias e ciclos de melhoria da qualidade, permitindo identificar gargalos assistenciais e direcionar intervenções locais. 

Impacto para a prática clínica 

Embora elaborado para cenários com recursos limitados, o consenso traz recomendações aplicáveis a diferentes sistemas de saúde, incluindo hospitais brasileiros. A mensagem central é que melhorar os desfechos da sepse depende menos da incorporação de tecnologias complexas e mais da organização dos processos assistenciais. 

Entre as prioridades destacam-se o treinamento contínuo das equipes, a disponibilidade de insumos essenciais, protocolos adaptados à realidade local, reconhecimento precoce da sepse, administração oportuna das intervenções recomendadas e monitoramento sistemático dos resultados. O documento também amplia a visão do cuidado ao incorporar estratégias de reabilitação pós-sepse e suporte aos pacientes, familiares e profissionais envolvidos na assistência. 

Mensagem prática 

Este consenso propõe uma mudança de paradigma ao abordar a sepse como um processo contínuo de cuidado, desde a prevenção até a recuperação após a alta. Em vez de priorizar apenas as primeiras horas do tratamento, o documento recomenda fortalecer toda a cadeia assistencial por meio de educação, protocolos adaptados, melhoria da qualidade, sistemas de informação e acompanhamento longitudinal. Para serviços brasileiros, especialmente aqueles com limitações de recursos, as recomendações oferecem um roteiro prático para identificar fragilidades locais e implementar melhorias progressivas na assistência à sepse. 

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Conteudista fisioterapeuta intensivista na Afya. Doutora em Medicina Pediátrica na FAMED/PUCRS. Pós-doutora em Pneumologia na UNIFESP/EPM. Coordenadora Nacional da PG em Medicina Intensiva Pediátrica na AFYA.

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Referências bibliográficas

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