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Terapia Intensiva14 fevereiro 2026

Retalho supramaleolar lateral no tratamento de lesões do membro inferior

Retalho supramaleolar lateral mostra eficácia e segurança na reconstrução de lesões traumáticas distais do membro inferior.
Por Hiago Bastos

As lesões traumáticas do membro inferior, especialmente nas regiões distais da perna, tornozelo e pé, representam um grande desafio para a cirurgia reconstrutiva, uma vez que frequentemente envolvem exposição óssea, tendínea e perda significativa de tecidos moles. Essas áreas apresentam limitada elasticidade cutânea e vascularização complexa, o que dificulta a escolha de técnicas reconstrutivas eficazes. Nesse contexto, o retalho supramaleolar lateral surge como uma alternativa relevante, segura e reprodutível para a cobertura dessas lesões, sobretudo quando a microcirurgia não está disponível ou indicada. 

Descrito inicialmente por Masquelet e Gilbert no final da década de 1980, o retalho supramaleolar lateral é um retalho fasciocutâneo baseado nos ramos perfurantes da artéria fibular, que se anastomosam com a artéria tibial anterior por meio da arcada arterial do tornozelo. Essa base anatômica permite sua elevação como um retalho pediculado de fluxo reverso, preservando vasos principais do membro e garantindo adequada viabilidade tecidual. O retalho é capaz de cobrir defeitos de até 8 × 6 cm, sendo indicado para lesões no dorso do pé, antepé, calcâneo, região lateral do pé, tornozelo e terço distal da perna. 

O estudo apresentado consiste em uma série de casos retrospectiva realizada no Serviço de Cirurgia Plástica do Instituto Doutor José Frota, em Fortaleza, Ceará, abrangendo o período de janeiro a junho de 2024. Foram incluídos 15 pacientes submetidos à reconstrução de lesões complexas do membro inferior com o uso do retalho supramaleolar lateral. Os critérios de inclusão contemplaram pacientes com perda de cobertura cutânea tratados nesse período, enquanto indivíduos hemodinamicamente instáveis ou não cooperativos foram excluídos. Por se tratar de um estudo retrospectivo, houve dispensa do termo de consentimento livre e esclarecido, com aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa. 

A amostra foi composta majoritariamente por homens (86,6%), com idades variando entre 7 e 50 anos, e média de 28,5 anos. Em todos os casos, a etiologia das lesões foi acidente motociclístico, reforçando o impacto desse tipo de trauma na saúde pública e na demanda por reconstruções complexas. As áreas mais acometidas foram o dorso do pé (46,6%), seguido pelo antepé (26,6%), calcâneo (13,3%), lateral do pé (13,3%), tornozelo (13,3%) e terço distal da perna (20%). Além disso, sete pacientes apresentavam exposição óssea e/ou tendínea, e seis possuíam fraturas associadas. 

Antes da reconstrução definitiva, todos os pacientes foram submetidos a desbridamentos cirúrgicos com o objetivo de obter feridas limpas, sem necrose ou secreções, sendo o número médio de desbridamentos de 1,93, variando de um a quatro procedimentos. A técnica cirúrgica empregada seguiu o método clássico descrito na literatura, utilizando a dissecção padrão do retalho fasciocutâneo supramaleolar lateral, respeitando seus limites anatômicos e a preservação do pedículo vascular. 

Os resultados demonstraram que o retalho foi eficaz em todos os casos, proporcionando cobertura estável das lesões. As complicações observadas foram mínimas, destacando-se quatro casos de epidermólise, os quais foram tratados com desbridamento cirúrgico ou químico associado a curativos, sem evolução para necrose parcial ou total do retalho. O seguimento médio de 15 meses revelou boa evolução clínica, com resultados estéticos e funcionais satisfatórios em todos os pacientes, permitindo retorno adequado às atividades diárias. 

Na discussão, os autores ressaltam que, embora os retalhos microcirúrgicos sejam frequentemente considerados padrão-ouro para defeitos distais do membro inferior, os retalhos locais pediculados, como o supramaleolar lateral, permanecem opções valiosas, especialmente em cenários com limitações estruturais ou ausência de equipe especializada em microcirurgia. Quando comparado ao retalho sural reverso, o retalho supramaleolar lateral apresenta vantagens como a possibilidade de realização com o paciente em decúbito dorsal e suprimento vascular anterógrado em defeitos proximais, embora apresente menor volume e maior risco de congestão venosa. 

Os autores concluem que o retalho supramaleolar lateral é uma técnica confiável, simples e segura para a reconstrução de lesões complexas do membro inferior, inclusive em pacientes pediátricos, nos quais ainda é subutilizado. Sua fácil reprodutibilidade, baixa taxa de complicações e bons resultados funcionais e estéticos o tornam uma alternativa eficaz para a cobertura de áreas com exposição óssea ou tendínea, consolidando seu papel na cirurgia reconstrutiva contemporânea. 

Autoria

Foto de Hiago Bastos

Hiago Bastos

Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI ⦁  Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos ⦁  Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium) ⦁  Especialista em ECMO pela ELSO ⦁ Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017 ⦁  Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA) ⦁  Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.

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