O conceito de leito de UTI surgiu com a necessidade de cuidados intensivos de pacientes graves que necessitam monitorização e tratamento com suporte às disfunções orgânicas. São pacientes que devem ficar numa unidade fechada e ter cuidados de profissionais de saúde de maneira frequente. Por isso mesmo, a necessidade de que os leitos de UTI sejam visíveis e monitorados 24 horas por dia e 7 dias por semana. A estrutura da UTI pode influenciar desfechos, como tempo de permanência, eventos adversos e até a mortalidade.
A legislação brasileira teve um conjunto de normas publicado em 2002, chamado RDC 50. Ela foi um marco para o funcionamento das UTIs existentes e a montagem de requerimentos para as UTIs que foram construídas após a resolução.
Neste artigo de opinião, os autores, entre eles Patrícia Melo, que foi presidente da AMIB, demonstram o que há de acerto e erros, e avanços para o futuro de uma nova RDC. Eles compararam a resolução brasileira com documentos estrangeiros: americanos, europeus, australianos e indianos, que foram lançados nas últimas 2 décadas.
Eles dividiram a discussão entre os tópicos:
- Visibilidade do paciente;
- Workspace à beira do leito;
- Iluminação;
- Layout do leito de UTI;
- Comodidades de repouso e verdes.
Todos esses tópicos podem influenciar o bem-estar e a satisfação de pacientes e famílias, assim como os profissionais de saúde que atuam dentro da UTI. O design da UTI pode influenciar o desempenho da equipe de saúde e o alívio de estresse e burnout dos profissionais de saúde que nela atuam.

Resultados:
Visibilidade
As diretrizes mais recentes são americanas e apontam que os médicos intensivistas devem estar aptos a ver a face do paciente, monitores e alarmes da beira do leito, de dentro da estação de trabalho da UTI. As recomendações europeias apontam que as UTIs deveriam ter portas espelhadas e janelas grandes e largas para melhor visualização do paciente. A resolução brasileira aponta que a visualização deve ser feita através de monitorização na central de monitorização. A recomendação brasileira dá a entender que ter uma central de monitorização do paciente ligado aos monitores de todos os leitos seria suficiente para manter o controle de descompensação clínica dos pacientes.
Atualmente muitas UTIs, principalmente privadas, têm adotado um conceito de hospitalização como hotel, ou seja, leitos isolados que podem ser no formato de corredor de quartos e que os monitores estejam ligados a essa central de monitorização. No entanto, os profissionais de UTI intensivistas têm uma melhor percepção de segurança quando eles visualizam o paciente ativamente e diretamente, e isso também parece reduzir o estresse dos staffs, reduzir o número de quedas e possivelmente a mortalidade (?).
Por outro lado, o design da do leito de UTI que garante maior privacidade do paciente também é bem visto, principalmente para pacientes que não estão graves e necessitam apenas de monitorização durante a sua estadia; portanto, há prós e contras em termos de leitos abertos versus leitos privativos.
O tamanho do leito
O leito de UTI deve ter um tamanho que seja suficiente para que o profissional intensivistas circule ao seu redor e que contenha também todo maquinário, seja de monitores, ventiladores, máquinas de hemodiálise e vestuário, armários, etc. O tamanho mínimo da resolução brasileira é de 10 metros quadrados e isso contrasta com o requerimento mínimo de 14 metros quadrados para outras recomendações, como a indiana e de 18 a 25 metros quadrados para recomendações australianas, europeias e americanas. O tamanho pode ser menor quando você tem um leito aberto – 14 a 15 metros quadrados – ou um leito privativo fechado de 20 a 25 metros quadrados.
Atualmente no Brasil é frequente que se encontre camas que estão encostadas na parede e circuito e cabos de força das diversas máquinas ao redor do paciente, que impedem que o intensivista vá para trás da cabeceira, por exemplo, para realizar uma intubação traqueal ou uma punção de vasos. Isto sem falar na acomodação de familiares que acompanham os pacientes, principalmente nos leitos privativos fechados que naturalmente teriam um espaço maior de descanso para familiares iluminação.
Iluminação
O design da iluminação em cada leito ainda é precário, sendo que a luz mais forte geralmente fica acima do paciente e pode incomodá-lo. As cores que são muito claras e brancas também podem afetar o ciclo circadiano e os ciclos sono-vigília, deixando o paciente sem noção de dia e noite e aumentando a chance de delirium e a qualidade do sono.
Os leitos de UTI deveriam ter, pelo menos parcialmente, acesso à luz natural durante o dia. Isso também está associado com menor grau de estresse do paciente e dos profissionais de saúde, assim como menor o uso de analgesia e melhora da qualidade de sono. Uma iluminação mais natural também está associada a maior satisfação de trabalho, menores níveis de estresse e melhor comunicação dos profissionais de saúde.
Áreas de repouso e exposição à natureza
A presença de áreas de “descompressão”, com repouso e partes verdes, está associada à ativação dos pacientes e dos profissionais de saúde. Também existem trabalhos que profissionais de enfermagem que conseguem descansar por pelo menos 15 minutos numa área mais verde e com luz natural apresentam menos exaustão emocional e despersonalização no período de 6 semanas.
No entanto, este tópico não é abordado nas diretrizes europeias, nem na resolução brasileira. Este assunto entra apenas como sugestão na Diretriz americana que é a mais recente.
Leitos de UTI fechados ou abertos
Finalmente, o layout da UTI deveria ser misto com leitos fechados, privativos e leitos abertos? Os pacientes mais graves e que necessitam visualização direta deveriam ficar nos leitos abertos, mais próximos à estação de trabalho dos profissionais intensivistas; e os leitos privativos deveriam ter uma relação paciente enfermagem menor para que o acesso a esse paciente fosse mais frequente.
Implicações econômicas
Ainda é complicado saber se os desfechos são otimizados de acordo com a arquitetura da UTI, principalmente aqueles ligados à segurança do paciente e à mortalidade. Outro ponto a ser analisado é a performance o bem-estar da equipe de saúde; e por fim, os custos hospitalares que podem ser aumentados inicialmente com as mudanças arquitetônicas, mas depois podem ser ignorados ao longo do tempo, principalmente com aumento da satisfação de paciente, familiares, menor absenteísmo da equipe de saúde e menor tempo de permanência e eventos adversos de pacientes graves.
Conclusões:
- Existem requerimentos mínimos para UTIs no Brasil, que foram importantes para estabelecer um padrão, mas por outro lado necessitam atualização;
- A visibilidade, o tamanho e a tipologia dos leitos, iluminação e áreas verdes e de repouso são tópicos a serem desenvolvidos num futuro breve.
Autoria

André Japiassú
Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).
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