O envelhecimento é heterogêneo. Pacientes com a mesma idade podem apresentar diferentes graus de fragilidade, funcionalidade, multimorbidade e capacidade de recuperação. Por isso, a idade cronológica, isoladamente, não deve determinar admissão na UTI, intensidade do suporte ou limitação terapêutica.
Apesar do aumento das internações de idosos em terapia intensiva, ainda há poucas evidências de alta qualidade para orientar seu manejo. Essa lacuna ocorre tanto pela exclusão desses pacientes dos ensaios clínicos quanto pela grande heterogeneidade da população
O QUE MUDA NA PRÁTICA?
| Aspecto | Implicação |
| Fragilidade e funcionalidade prévias | São mais informativas do que a idade isolada |
| Multimorbidade e polifarmácia | Aumentam o risco de iatrogenias |
| Maior risco de delirium e perda funcional | Exigem prevenção, mobilização e reabilitação precoces |
| Preferências individuais | Devem orientar os objetivos terapêuticos |
| Incerteza prognóstica | Justifica reavaliações frequentes e decisões compartilhadas |
O objetivo do tratamento não deve ser apenas a sobrevivência, mas também a preservação da independência, da cognição e da qualidade de vida.
O QUE DIZEM AS NOVAS RECOMENDAÇÕES?
Em 2026, a Society of Critical Care Medicine publicou diretrizes para pacientes com 65 anos ou mais na UTI. Nenhuma das questões avaliadas apresentou evidência suficiente para uma recomendação forte.
A principal recomendação foi incorporar modelos geriátricos de cuidado, com avaliação de fragilidade, cognição, funcionalidade, polifarmácia, risco de delirium e necessidade de reabilitação. Essa recomendação é condicional e baseada em evidências de certeza muito baixa
Delirium
A diretriz sugere não utilizar antipsicóticos rotineiramente para prevenir delirium. Para o tratamento do delirium já estabelecido, não foi possível formular uma recomendação.
A prevenção deve priorizar medidas não farmacológicas, como controle da dor, preservação do sono, mobilização precoce, reorientação, uso de óculos e aparelhos auditivos e redução de sedativos desnecessários.
Meta de pressão arterial
As evidências também foram insuficientes para recomendar uma meta de pressão arterial média específica para idosos com choque vasodilatador.
Assim, a meta deve ser individualizada conforme perfusão dos órgãos, hipertensão prévia, resposta ao vasopressor e risco de eventos adversos.
MENSAGEM FINAL
O paciente idoso na UTI deve ser avaliado além da idade cronológica. O intensivista deve considerar:
- Fragilidade e funcionalidade prévias;
- Cognição e risco de delirium;
- Multimorbidade e polifarmácia;
- Potencial de recuperação;
- Preferências e objetivos do paciente.
Diante da escassez de evidências, a melhor estratégia é combinar avaliação multidimensional, prevenção de complicações, decisões compartilhadas e reavaliações frequentes, buscando desfechos alinhados aos valores de cada paciente.
Autoria

Yuri Albuquerque
Editor médico na Afya. Doutor em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP), com residência em Medicina Intensiva pela Universidade de São Paulo (USP) e residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), além de estar concluindo a residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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