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Terapia Intensiva2 abril 2026

Oxigenoterapia por alto fluxo ou padrão para insuficiência respiratória aguda

Alto fluxo ou oxigênio padrão na insuficiência respiratória? Veja evidências recentes e impacto na intubação.
Por André Japiassú

A insuficiência respiratória aguda é uma das causas mais comuns de internação em UTI. Ela se origina de problemas respiratórios agudos ou crônicos ou edema pulmonar de origem cardiogênica. A administração de oxigênio é uma das terapias de primeira linha. Ele é geralmente oferecido por cateter nasal ou máscara, contendo ou não reinalação de ar. O principal objetivo no primeiro momento é evitar a intubação traqueal, mesmo que seja necessário a ventilação mecânica de forma não invasiva. Existem evidências da metade da década passada que ofertar oxigênio com fluxo alto pode reduzir a chance de intubação e até a mortalidade. Esta forma de oxigenoterapia foi muito utilizada na pandemia de covid-19. No entanto, esta terapia foi testada quando associada à ventilação não invasiva e, portanto, a sua eficácia não foi comparada isoladamente contra o uso standard de oxigênio. 

 Os autores conduziram um estudo clínico randomizado e controlado de forma aberta em 42 UTIs francesas. O estudo se iniciou em abril de 2021 até dezembro de 2024. No período do ano de 2021 eles incluíram pacientes com covid-19. Após esse período, foram incluídos apenas pacientes com insuficiência respiratória aguda com os seguintes critérios.  

– Frequência respiratória acima de 25 por minuto; 

– Infiltrados pulmonares no raio-x de tórax; 

– Relação PaO2/FiO2 menor que 200 com o uso de oxigenoterapia na taxa de 10 litros por minuto. 

Os critérios de exclusão foram a presença de pneumopatia crônica com o uso de oxigênio ou suporte ventilatório domiciliar, edema pulmonar cardiogênico, instabilidade hemodinâmica ou o uso de vasopressores, nível de consciência alterado, necessidade de intubação emergencial e ordem de não-intubação, principalmente em pacientes em cuidados paliativos. A presença de infecção por Covid-19 também foi critério de exclusão após 2021. Eles realizaram um subestudo com os pacientes de Covid-19, no qual a incidência de intubação traqueal foi reduzida com o uso de oxigênio em alto fluxo.  

O uso de oxigenoterapia de alto fluxo foi fornecida através de umidificador aquecido e prong nasal apropriado. O fluxo de ar inicial era de 50 litros por minuto e a fração de oxigênio inspirada foi titulada para manter a saturação de oxigênio entre 92 a 96%. Esta terapia foi mantida por pelo menos 48 horas. Após este período o paciente era avaliado e o alto fluxo era trocado por oxigênio terapia standard, se o paciente conseguisse manter saturação de oxigênio acima de 92% com FiO2 abaixo de 40%.  

No grupo controle a oxigenoterapia standard era realizada através de máscara sem reinalação de ar com fluxo de oxigênio de 10 litros por minuto ou maior, para manter saturação entre 92 e 96%. 

Os desfechos de interesse do estudo foram a mortalidade por qualquer causa em até 28 dias, e secundariamente a intubação traqueal neste mesmo período, além do número de dias livres de ventilação mecânica, eventos adversos graves e tempo de permanência na UTI e no hospital. Parâmetros de avaliação respiratória foram obtidos no intervalo de 1 e 6 horas após o tratamento de oxigenoterapia inicial. Os critérios de falência respiratória com necessidade de intubação foram definidos a seguir: 

– Frequência respiratória acima de 40 por minuto; 

– Fadiga respiratória plena; 

– pH menor que 7,35; 

– Saturação de oxigênio menor que 92%, apesar de suporte de oxigênio no máximo; 

– Relação PaO2/FiO2 menor do que 100.  

Resultados: 

Foram incluídos 1110 pacientes no estudo divididos entre 556 para alto fluxo e 554 para fluxo padrão. Foram 324 pacientes incluídos com Covid-19 e eles foram divididos de maneira igual entre os dois grupos, controle e de intervenção.  

O fluxograma de inclusão de pacientes mostrou que cerca de 28% dos pacientes foram excluídos do estudo por conta de outras doenças diferentes de insuficiência respiratória aguda a seguir, mas 40% dos pacientes não preenchem critérios de oxigenação ou respiratórias para o estudo, além de ordem de não intubação. Foram 32% de pacientes elegíveis para o estudo. Mas somente 7% dos 14.431 pacientes iniciais foram incluídos e randomizados. 

A principal causa de falha de inclusão neste último grupo foi a decisão clínica de ser iniciar ventilação não invasiva ou oxigênio de alto fluxo antes da randomização. O grupo com oxigênio de alto fluxo teve discreta diferença de menor frequência respiratória e maior pontuação no escore de dispneia. A taxa de pacientes imunocomprometidos foi de 22%, igualmente divididos entre os dois grupos. A principal causa de insuficiência respiratória aguda foi pneumonia. A média da frequência respiratória foi de 31 por minuto e a relação PF 132 com 17% dos pacientes com esta taxa menor do que 100. Em relação às intervenções, a taxa de fluxo de oxigênio foi de 52 litros por minuto e FiO2 67% no grupo com O2 em Alto fluxo. Os pacientes com O2 padrão tinham taxa média de 12 litros por minuto. A mediana de tempo de terapia com oxigênio foi de 4 dias naqueles pacientes que não precisaram de intubação traqueal. A ventilação não invasiva foi aplicada em apenas 37 pacientes (3%), sendo discretamente mais usada no grupo com O2 padrão. 

A mortalidade em 28 dias foi idêntica nos dois grupos (14,6%). A taxa de intubação traqueal foi menor no grupo com alto fluxo – 42% versus 48%, com diferença significativa de – 6%. A média de dias livres de ventilação mecânica também foi semelhante nos dois grupos 28 versus 26 dias. Após 1 hora de início do tratamento, a frequência respiratória foi de 26 por minuto com O2 em alto fluxo e 29 por minuto com O2 standard. O escore de dispneia foi maior no grupo com alto fluxo (25 versus 20), mas houve melhora importante na percepção da dispneia em 49% dos pacientes com alto fluxo, enquanto foi apenas de 34% no grupo O2 padrão.  

Em relação aos eventos adversos 14 pacientes apresentaram pneumotórax, ocorrendo mais frequentemente no grupo com alto fluxo, e 5 pacientes apresentaram parada cardíaca (eventos considerados raros no grupo inteiro do estudo). 

Mensagens para o dia-a-dia: 

Os autores concluíram que o uso de O2 alto fluxo parece ter reduzido a incidência de intubação traqueal e melhorou rapidamente sintomas de dispneia, a frequência respiratória e valores de CO2, mas a mortalidade em 28 dias não se alterou significativamente. 

Os médicos devem balancear a incerteza do efeito sobre a mortalidade e as considerações práticas para incluir pacientes em terapia de O2 em alto fluxo, como conforto, risco de intubação e recursos locais. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.

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