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Terapia Intensiva30 junho 2026

Manuseio de vias aéreas em pacientes agudos

Revisão prática sobre manejo das vias aéreas em pacientes agudos, com preparo, intubação, videolaringoscopia e sedação.
Por André Japiassú

O manuseio de vias aéreas é sempre a situação de maior risco e tensão no cuidado de pacientes agudos, seja na emergência, andar ou UTI. O talento médico reside na percepção da urgência e no treino e habilidade no procedimento. Inevitavelmente, esta situação deve ser liderada pelo indivíduo de maior experiência, com treinamento adequado e periódico. 

Este assunto reúne a semiologia da via aérea, o preparo do paciente, o procedimento de via aérea definitiva e os cuidados clínicos após o procedimento. É extenso, com muita literatura recente. Os autores desta revisão sintetizam evidências atuais para orientar a prática clínica na intubação traqueal de pacientes críticos, e conseguem reunir várias definições, dicas e tabelas ao longo das páginas, sem que se torne um texto longo demais. 

Estes são os pontos principais abordados no artigo

Epidemiologiae Riscos: a intubação traqueal é frequente em ambientes de cuidados agudos (pronto-socorro e UTI), é um procedimento de alto risco. O procedimento costuma ocorrer na UTI em 67% das vezes, emergência em 21% e no andar em cerca de 9%. É curioso que metade das vezes há apenas 1 médico no cenário do procedimento – seria adequado a presença de pelo menos 2 médicos para haver segurança em caso de falha na 1a tentativa (conceito importado da indústria da aviação). Anestesiologistas, intensivistas e emergencistas são os especialistas mais frequentes. 

A maioria dos casos tem insuficiência respiratória (52%), seguida por torpor/coma (30%) e choque (9%). As taxas de complicações graves (hipoxemia, hipotensão e parada cardíaca) são de alarmantes 30% a 40%. Intubação esofágica ocorre em 5% e o uso de videolaringoscopia só ocorreu em 17% das tentativas. 

Avaliaçãodas Vias Aéreas: Ferramentas clínicas tradicionais (como Mallampati, LEMON, MACOCHA) apresentam valor preditivo limitado para avaliar dificuldade para ventilação com máscara e bolsa. Os clínicos devem tratar todas as intubações emergenciais como potencialmente difíceis e ter planos de resgate preparados, mesmo que haja facilidade aparente. A dificuldade fisiológica refere-se a pacientes com alto risco de colapso cardiovascular ou hipoxemia grave durante o procedimento, exigindo otimização fisiológica prévia. Já a dificuldade de intubação está presente em pacientes com irradiação cervical prévia, grande circunferência cervical, síndrome de apneia obstrutiva do sono, presença de barba e língua de maior tamanho. Outros marcos anatômicos clássicos são a distância entre mento e osso hioide e abertura da boca (ambos menores que 3 dedos) e espaço entre hioide e cartilagem tiroide (menor que 2 dedos).  

O escore MACOCHA foi aplicado em UTI, e tem boa sensibilidade e excelente especificidade (como a maioria dos escores para vias aéreas). Ele aborda a classificação de visualização de orofaringe (Mallampati),  apneia do sono, movimentação cervical limitada, abertura oral pequena, coma, hipoxemia e “intubador” não sendo anestesiologista. 

O ultrassom pode servir para avaliar os marcos anatômicos antes do procedimento, além de confirmar a intubação com visualização de artefato passando pela traqueia ou esôfago de modo dinâmico. 

Preparação e Otimização: a pré-oxigenação com máscara não- reinalante, cateter de alto fluxo de oxigênio e a ventilação não invasiva (VNI) com pressão positiva são recomendadas para a pré-oxigenação. VNI se associa com redução na incidência de hipóxia durante a intubação em comparação com máscaras de não reinalação (NRB) ou cânulas nasais de alto fluxo. A administração profilática de fluidos ou vasopressores não é recomendada rotineiramente para todos, devendo ser reservada para pacientes com risco específico de hipotensão. 

A equipe para assistir o paciente para ser intubado deve ser de pelo menos 3 pessoas: o médico que fará o procedimento, outra pessoa para administrar medicações e buscar materiais e fisioterapeuta para auxiliar na ventilação na pré e pós procedimento. É legal também que usar checklist de via aérea reduz em 7,7% a chance de complicações.

Técnica e Equipamentos

A laringoscopia por vídeo é preferível à laringoscopia direta, pois aumenta a probabilidade de sucesso na primeira tentativa em cerca de 10%; 

Evidências recentes indicam que o uso de um bougie (introdutor flexível) pode estar associado a uma maior taxa de sucesso na primeira tentativa, embora as evidências ainda sejam divergentes; 

O estilete também é muito usado, e melhora o sucesso para intubação na 1a tentativa em ~ 8%; 

As lâminas de laringoscopia devem ser escolhidas de acordo com o tamanho do paciente – lâmina 3 é a mais usada e com melhor taxa de visualização de glote; já o tamanho 4 pode ser grande e dificultar o posicionamento na valécula; 

A capnografia (de preferência com onda) é o padrão-ouro para confirmar a intubação traqueal; o ultrassom point-of-care (POCUS) também é uma ferramenta robusta para confirmar a posição do tubo traqueal; a profundidade é melhor verificada com radiografia de tórax. 

Opções recentes: na sequência lenta de intubação, um sedativo é feito bem antes de outro sedativo hipnótico e/ou curare e reduz agitação e facilita pré-oxigenação; posicionamento em rampa (com travesseiros abaixo do pescoço e ombros) pode ser usado não só em obesos mas também não-obesos, mas não deve ser rotina porque eventualmente super inclina a flexura cervical e dificulta visualizar a glote. 

O conceito de intubação “acordada” conta com anestésico local, atropina para reduzir salivação e uso de broncoscópio flexível, sendo ideal para o cenário de emergência e paciente com alto risco na sedação e estômago “cheio”. 

Por fim, vale escolher o melhor momento para máscara laríngea e cricotireoidostomia, para situações de “não intuba e não ventila”. 

Farmacologia: Etomidato, cetamina e propofol são os agentes mais usados. A escolha deve ser adaptada às condições hemodinâmicas e clínicas de cada paciente. Os dois primeiros mantêm estabilidade hemodinâmica e o terceiro é melhor para ação antiepiléptica. Etomidato está associado à disfunção adrenal e a cetamina à hiper salivação. Em relação ao bloqueio neuromuscular, a succinilcolina e o rocurônio são amplamente utilizados, com efeitos semelhantes. Por fim a sedação pós-intubação é crucial garantir analgesia e sedação adequadas para evitar a “consciência com paralisia”, evitando, ao mesmo tempo, a sedação excessiva, que está associada a piores desfechos. 

Observação: há considerações sobre o envolvimento do paciente, na qual indivíduos que passaram pela experiência relataram angústia devido à falta de comunicação clara sobre o que esperar do procedimento e suas complicações, sugerindo que os clínicos devem melhorar a comunicação antes e depois da intubação. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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Referências bibliográficas

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