A sepse permanece como um importante problema global de saúde, com carga desproporcional em cenários com recursos limitados (low-resource settings – LRS). O consenso destaca que aproximadamente 80% dos casos ocorrem nesses ambientes, onde dificuldades de acesso, reconhecimento tardio, escassez de profissionais treinados, limitação diagnóstica e indisponibilidade de leitos de terapia intensiva comprometem o cuidado.¹
LRS não significa necessariamente país de baixa renda: inclui qualquer ambiente com acesso insuficiente a profissionais, infraestrutura, exames, medicamentos ou equipamentos. Tornando o documento potencialmente aplicável também a emergências, enfermarias e hospitais brasileiros com restrição de recursos.¹
O objetivo foi identificar lacunas e estratégias para prevenção e manejo da sepse em LRS, complementando diretrizes internacionais quando sua implementação integral não é possível.
Como o consenso sobre sepse foi construído?
A revisão estruturada nas bases MEDLINE e Embase, incluindo estudos humanos (janeiro de 2000 e julho de 2024), identificou 8.865 estudos, dos quais 155 foram incluídos; estudos em neonatologia foram excluídos. ¹ Aplicado na sequência, o método Delphi internacional e multiprofessional, 13 especialistas participaram das rodadas de votação. Ao final, 58 de 62 afirmações (94%) alcançaram consenso e estabilidade, originando 24 declarações de prática clínica. ¹ O documento amplia consensos prévios focados em adultos e, passa a abranger adultos e pediatria, ao longo de todo o continuum assistencial, da prevenção ao acompanhamento após a alta.¹˒²
O que o consenso recomenda na prática?
Na prevenção, recomenda-se ampliar educação comunitária, vacinação, saneamento e programas de prevenção de infecções relacionadas à assistência. ¹ No reconhecimento precoce, quando exames avançados não estão disponíveis, recomenda-se valorizar sinais clínicos como alteração do estado mental, enchimento capilar prolongado, redução da diurese, frequência respiratoria (FR), frequência cardíaca (FC) e outros marcadores de perfusão. Em crianças, sinais de perigo do Integrated Management of Childhood Illness podem auxiliar a triagem.¹
Quando não dispõe de suporte orgânico ou controle adequado do foco, recomenda-se transferência precoce para unidade de maior complexidade. Antes do transporte, devem ser garantidos suporte respiratório inicial, acesso venoso, antimicrobiano, ressuscitação apropriada e acompanhamento por profissional capacitado.¹
Na ressuscitação volêmica, recomenda-se evitar grandes volumes indiscriminados e reavaliar responsividade a fluidos e risco de sobrecarga, especialmente quando ventilação mecânica não está disponível. Em pediatria, houve maior mortalidade associada a bolus em crianças africanas com infecção grave.⁴
Quando indicados, vasopressores podem ser administrados por acesso periférico se o acesso central não estiver disponível. Epinefrina pode ser considerada alternativa quando norepinefrina ou vasopressina não estiverem acessíveis.¹ Culturas são desejáveis, mas sua indisponibilidade não deve atrasar antimicrobianos quando a sepse é provável. O controle do foco também deve ser precoce; se não puder ser realizado localmente, recomenda-se organizar transferência.¹
Cuidado intensivo além da UTI
Uma das propostas centrais é o conceito de Critical Care Without Walls: a ausência de leito de UTI não elimina a necessidade de cuidado intensivo. Recomenda-se que emergências e enfermarias disponham, minimamente, de: profissionais treinados, protocolos de escalonamento, medicamentos essenciais, monitoração de temperatura, FC, FR, pressão arterial, SpO₂, estado neurológico e débito urinário.¹ A Piora do estado mental, aumento da necessidade de oxigênio, instabilidade hemodinâmica ou necessidade de ventilação mecânica devem motivar escalonamento do cuidado.
Da fase aguda ao cuidado após a sepse
O consenso inclui mobilização precoce, reabilitação e planejamento de alta. Recomenda-se identificar pacientes de maior risco, estruturar seguimento e fortalecer, quando possível, programas comunitários de reabilitação e participação familiar.¹
Limitações e força metodológica do consenso
O estudo apresenta boa consistência metodológica: revisão em duas bases, ausência de restrição de idioma, votação anônima, oito rodadas Delphi, critério prévio de consenso e uso das recomendações ACCORD.¹ Entretanto, consenso não equivale a comprovação de eficácia; o conceito de LRS engloba realidades muito heterogêneas. As 24 declarações são expert clinical practice statements, e não recomendações formais graduadas.
Mensagem prática: o que muda para o médico?
Para quem atua em pronto atendimento, enfermaria ou terapia intensiva, o principal recado é que protocolos de sepse devem ser adaptados à capacidade real do serviço. Recomenda-se reconhecer deterioração precocemente, não atrasar antimicrobianos, usar fluidos de forma cautelosa, iniciar vasopressores quando indicados, organizar controle do foco e definir critérios objetivos de transferência. O consenso é útil para estruturar cuidados essenciais mesmo quando não há disponibilidade imediata de UTI. Seu maior impacto está na organização de protocolos locais, treinamento das equipes e definição de recursos mínimos.
OBS: Este artigo foi elaborado com auxílio de IA e revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria

Cintia Johnston
Conteudista fisioterapeuta intensivista na Afya. Doutora em Medicina Pediátrica na FAMED/PUCRS. Pós-doutora em Pneumologia na UNIFESP/EPM. Coordenadora Nacional da PG em Medicina Intensiva Pediátrica na AFYA.
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