Apesar dos avanços importantes em ventilação mecânica, monitorização à beira-leito e estratégias de suporte, a mortalidade da Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) permanece elevada. A recente atualização das definições de SDRA permitiu a identificação mais precoce e em um espectro mais amplo de pacientes, independentemente do tipo de suporte ventilatório em uso.
Esse alargamento do diagnóstico reforçou ainda mais a heterogeneidade da SDRA e a necessidade de estratégias de manejo individualizadas, baseadas em fenótipos fisiológicos (ventilatory ratio, complacência do sistema respiratório), radiológicos (focal ou não focal) e biológicos (hiperinflamatório vs. hipoinflamatório)
Suporte respiratório não invasivo
- Cateter nasal de alto fluxo (HFNO) é recomendado como estratégia inicial em SDRA leve, com melhor tolerabilidade e bons desfechos em insuficiência respiratória hipoxêmica.
- Ventilação não invasiva (VNI) pode ser considerada em SDRA leve a moderada, desde que haja monitorização rigorosa e critérios claros de falha, devido à alta taxa de insucesso e risco de atraso na intubação.
- O uso de VNI com capacete (helmet) apresenta resultados superiores à máscara facial em estudos selecionados, com menor taxa de intubação e mortalidade.
Ventilação mecânica invasiva
O foco do tratamento continua sendo a ventilação protetora pulmonar:
- Volume corrente alvo: 6 ml/kg de peso predito (intervalo aceitável 4–8 ml/kg)
- Pressão de platô: <30 cmH₂O (ou mais baixa, <26–28 cmH₂O, em pacientes com risco de disfunção de VD)
- Ênfase crescente na driving pressure (ΔP = Pplat – PEEP), com valores <16 cmH₂O associados a melhor prognóstico
- O conceito de machanical power é discutido como marcador geral de agressão mecânica e risco de VILI, mas ainda limitado por complexidade de cálculo e ausência de validação prospectiva para guiar terapia
PEEP erecrutabilidade
Não existe um PEEP “ideal” universal. O artigo reforça que:
- Estratégias baseadas apenas em oxigenação são insuficientes
- SDRA não focal e recrutável pode se beneficiar de PEEP mais elevado
- SDRA focal ou pouco recrutável pode sofrer dano por sobredistensão com PEEP alto
- Métodos para titulação de PEEP incluem: driving pressure, complacência, curvas pressão-volume, manometria esofágica e avaliação ecocardiográfica do VD
Pronação
A posição prona precoce (<36h) é reafirmada como padrão de cuidado em SDRA moderada a grave (PaO₂/FiO₂ <150), com sessões ≥12h/dia. A ausência de melhora imediata da oxigenação não é motivo para interromper a estratégia, desde que não haja instabilidade ou complicações.
Bloqueio neuromuscular
O uso rotineiro não é recomendado. Pode ser considerado:
- Em SDRA grave precoce com hipoxemia refratária
- Em pacientes com esforço respiratório excessivo ou assincronia importante
- Deve ser reavaliado em até 48h, balanceando benefícios versus riscos (fraqueza adquirida na UTI, necessidade de sedação profunda)
Corticoides e manejo de fluidos
- Corticoides: não recomendados rotineiramente em SDRA sem indicação específica; evidência ainda controversa, embora estudos recentes sugiram possível benefício em subgrupos.
- Estratégia conservadora de fluidos, após resolução do choque, está associada a mais dias livres de ventilação e menor tempo de UTI, especialmente em pacientes com disfunção de VD.
Manejar SDRA não é apenas aplicar protocolos fixos, mas sim integrar fisiologia, mecânica pulmonar, função do VD e resposta individual ao tratamento para personalização do cuidado como o caminho mais promissor para melhorar desfechos da doença.
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