Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, o Dr. Joel Isidoro Costa (Brasil) moderou a conferência ministrada pelo Dr. Paulo Mergulhão (Portugal), abordando um dos temas emergentes da terapia intensiva moderna: sustentabilidade ambiental nas unidades de terapia intensiva. A apresentação discutiu o impacto ecológico das UTIs, os desafios da descarbonização hospitalar e estratégias práticas para redução da pegada ambiental sem comprometimento da segurança assistencial.
Raciocínio Clínico
As UTIs estão entre os setores hospitalares de maior consumo energético e produção de resíduos, devido à elevada utilização de dispositivos descartáveis, gases medicinais, ventilação mecânica, monitoração contínua, climatização ambiental e cadeia logística complexa. Estudos recentes demonstram que a assistência intensiva possui importante contribuição para emissão de gases de efeito estufa, elevado consumo hídrico e geração de resíduos hospitalares potencialmente evitáveis. Estima-se que a terapia intensiva apresente uma das maiores pegadas de carbono dentro do ambiente hospitalar, especialmente relacionada ao uso de oxigênio, ar comprimido, sistemas de ventilação, materiais de uso único, hemodiálise, exames laboratoriais seriados e transporte de insumos.
Nesse contexto, o conceito de “UTI Verde” propõe integrar sustentabilidade ambiental à segurança do paciente, eficiência operacional e qualidade assistencial. Os palestrantes enfatizaram que sustentabilidade não significa redução indiscriminada de recursos, mas sim utilização racional e baseada em valor clínico. Estratégias sustentáveis envolvem otimização de processos assistenciais, redução de desperdícios, racionalização de exames complementares, uso criterioso de antimicrobianos e incorporação de práticas de economia circular sempre que possível.
Os estudos apresentados demonstram que intervenções relativamente simples — como revisão de protocolos laboratoriais, redução de abertura desnecessária de materiais estéreis, adequação do consumo de gases medicinais e melhorias logísticas — podem reduzir significativamente custos e impacto ambiental sem comprometer desfechos clínicos.
Outro ponto amplamente discutido foi a necessidade de mudança cultural dentro da medicina intensiva. O intensivista moderno passa a exercer também papel relevante na gestão ambiental hospitalar, na liderança de processos sustentáveis e na conscientização multiprofissional sobre uso responsável de recursos críticos. Sustentabilidade em UTI deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a integrar diretamente os conceitos de qualidade, segurança, eficiência e responsabilidade social em saúde.
Limitações e Desafios
Os palestrantes destacaram que a implementação de estratégias sustentáveis em terapia intensiva enfrenta múltiplos desafios estruturais, culturais e organizacionais. Muitos hospitais ainda apresentam baixa integração entre gestão ambiental e assistência clínica, dificultando a criação de políticas institucionais sustentáveis aplicáveis à rotina da UTI.
Outro desafio importante refere-se à dependência histórica de materiais descartáveis, frequentemente associados à percepção de maior segurança assistencial. Além disso, limitações logísticas, custos iniciais de adaptação, ausência de indicadores ambientais padronizados e pouca formação dos profissionais sobre sustentabilidade em saúde dificultam mudanças práticas consistentes.
Os estudos recentes também demonstram que parte significativa do desperdício hospitalar está relacionada a exames desnecessários, consumo excessivo de materiais, uso inadequado de antibióticos e manutenção prolongada de terapias sem benefício clínico claro. A ausência de protocolos de racionalização e cultura institucional voltada à sustentabilidade contribui para elevado impacto ambiental das UTIs modernas.
Principais vieses na prática clínica
Os especialistas ressaltaram que diversos vieses culturais, operacionais e organizacionais dificultam a implementação efetiva da sustentabilidade na terapia intensiva. Os estudos recentes demonstram que muitas decisões assistenciais ainda são tomadas sem consideração do impacto ambiental associado ao consumo de recursos hospitalares, geração de resíduos e emissão de carbono relacionada ao cuidado intensivo.
Entre os principais vieses observados está o uso excessivo de materiais descartáveis sem avaliação crítica de custo-benefício ambiental e assistencial. Em muitos cenários, a percepção de maior segurança relacionada aos itens de uso único não é sustentada por evidências robustas, contribuindo para aumento expressivo da produção de resíduos hospitalares. Outro ponto frequentemente discutido refere-se à solicitação rotineira de exames laboratoriais e de imagem sem impacto clínico relevante, aumentando consumo energético, produção de resíduos e custos assistenciais sem benefício comprovado ao paciente.
Autores de estudos recentes também destacam baixa valorização do impacto ambiental das condutas médicas na formação dos profissionais de saúde, resultando em pouca incorporação da sustentabilidade às decisões clínicas diárias. Consumo inadequado de gases medicinais, ventilação mecânica sem otimização de parâmetros e desperdício energético representam importantes fontes de emissão de carbono dentro das UTIs.
Outro viés relevante envolve a prescrição excessiva de antimicrobianos e terapias prolongadas sem revisão sistemática de indicação, aumentando resistência microbiana, custos e impacto ambiental indireto. Resistência institucional à mudança de processos, ausência de liderança voltada à sustentabilidade e falta de indicadores ambientais específicos para terapia intensiva também limitam avanços estruturados nessa área.
Entre os principais vieses destacam-se:
- Uso excessivo de materiais descartáveis sem avaliação crítica;
• Solicitação rotineira de exames sem impacto clínico relevante;
• Baixa valorização do impacto ambiental das condutas médicas;
• Consumo inadequado de gases medicinais e energia;
• Prescrição excessiva de antimicrobianos;
• Resistência institucional à mudança de processos;
• Ausência de indicadores ambientais aplicados à UTI.
Mensagens Práticas
O palestrante reforça que sustentabilidade e qualidade assistencial não são conceitos opostos, mas complementares. A incorporação de práticas ambientalmente responsáveis pode reduzir desperdícios, otimizar recursos e melhorar eficiência operacional sem comprometer segurança do paciente. Entre as principais mensagens destacam-se:
- Sustentabilidade deve integrar a cultura da UTI moderna;
• Redução de desperdícios melhora eficiência assistencial;
• Protocolos baseados em valor reduzem impacto ambiental;
• Uso racional de exames e antimicrobianos é estratégia sustentável;
• Indicadores ambientais devem fazer parte da gestão intensiva;
• Educação multiprofissional é fundamental para transformação cultural.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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