Logotipo Afya
Anúncio
Terapia Intensiva28 maio 2026

Luso-Brasileiro 2026: Tomadas de decisão em catástrofes e crises

Apresentação durante o congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026 discutiu os desafios contemporâneos da medicina intensiva frente a cenários extremos.
Por Cintia Johnston

Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, o Dr. Leandro Braz de Carvalho (Brasil) moderou a conferência ministrada pelo renomado Dr. Rui Moreno (Portugal), referência internacional em prognóstico, organização de sistemas críticos e gestão de crises em terapia intensiva.

A apresentação discutiu os desafios contemporâneos da medicina intensiva frente a cenários extremos, incluindo pandemias, desastres naturais, colapso de sistemas hospitalares, conflitos e eventos de múltiplas vítimas, enfatizando tomada de decisão sob pressão, limitação de recursos e priorização ética do cuidado intensivo. 

 

Raciocínio Clínico 

A assistência em situações extremas exige raciocínio clínico rápido, dinâmico e baseado em priorização contínua de risco-benefício. O intensivista deve integrar gravidade clínica, probabilidade de reversibilidade, disponibilidade de recursos e impacto coletivo das decisões. Protocolos rígidos podem tornar-se insuficientes em cenários de catástrofe, sendo necessária adaptação operacional em tempo real. Estratégias de triagem, monitoração simplificada, comunicação efetiva e liderança multiprofissional tornam-se determinantes para manutenção da segurança assistencial. 

 

Limitações e Desafios 

Os estudos recentes sobre resposta intensiva a catástrofes e crises sanitárias demonstram que os principais desafios vão além da escassez de aparelhos de ventilação mecânica (AVM) ou leitos, envolvendo também fragilidade organizacional, sofrimento das equipes e falhas sistêmicas. A limitação de recursos humanos qualificados permanece um dos fatores mais críticos, especialmente em cenários de aumento abrupto da demanda assistencial, nos quais profissionais não intensivistas frequentemente precisam atuar em áreas críticas com treinamento reduzido. 

A sobrecarga cognitiva e emocional das equipes multiprofissionais em ambientes de alta pressão, favorecendo fadiga decisional, burnout, perda de aderência a protocolos e aumento do risco de eventos adversos. Além disso, ambientes caóticos dificultam a comunicação estruturada entre equipes multiprofissionais, comprometendo processos fundamentais como handoff, definição de prioridades terapêuticas e segurança do paciente. 

Outro ponto amplamente discutido refere-se às limitações estruturais hospitalares, incluindo insuficiência de monitoração avançada, indisponibilidade de equipamentos, falhas logísticas, restrição de oxigênio medicinal e dificuldade de expansão rápida de leitos críticos. Em países de baixa e média renda, essas limitações tornam-se ainda mais evidentes. 

Os autores também destacam o sofrimento moral relacionado às decisões de limitação terapêutica e priorização de recursos escassos, sobretudo durante situações de triagem crítica. A ausência de protocolos adaptados à realidade local e de treinamento prévio para cenários extremos contribui para heterogeneidade assistencial, conflitos éticos e pior desempenho operacional. 

Nesse contexto, preparação institucional contínua, simulação realística, liderança clínica estruturada e protocolos flexíveis baseados em recursos disponíveis tornam-se componentes essenciais para aumento da resiliência dos sistemas de terapia intensiva. 

Entre os principais desafios destacam-se: 

  • escassez de recursos humanos e ventilatórios; 
  • sobrecarga cognitiva das equipes; 
  • dificuldade de comunicação em ambientes caóticos; 
  • limitações estruturais hospitalares; 
  • sofrimento moral relacionado às decisões de limitação terapêutica; 
  • ausência de protocolos adaptados à realidade local. 

 

Principais vieses na prática da UTI 

Os artigos recentes sobre medicina intensiva em situações extremas demonstram que a tomada de decisão em cenários de crise está sujeita a múltiplos vieses cognitivos, emocionais e organizacionais. A supertriagem ou subtriagem de pacientes graves representa um dos principais desafios operacionais, podendo resultar tanto em ocupação inadequada de recursos críticos quanto em atraso terapêutico para pacientes potencialmente recuperáveis. Em contextos de alta demanda, decisões clínicas frequentemente sofrem influência de pressão emocional, exaustão física e percepção subjetiva de gravidade, aumentando o risco de inconsistência assistencial. 

Outro viés importante refere-se à manutenção de terapias potencialmente fúteis em cenários de escassez, especialmente diante da dificuldade de comunicação sobre prognóstico e limitação terapêutica com familiares e equipes. Estudos demonstram que o sofrimento moral dos profissionais se intensifica quando há desalinhamento entre disponibilidade de recursos, expectativa familiar e possibilidade real de reversibilidade clínica. 

As falhas de comunicação interequipes também foram descritas como causa frequente de eventos adversos em cenários de crise, particularmente durante transferências internas, priorização de leitos e mudanças rápidas de conduta. A ausência de linguagem padronizada e de liderança claramente definida agrava o problema. 

Além disso, os autores alertam para o excesso de dependência tecnológica em ambientes instáveis. A indisponibilidade de equipamentos, falhas de monitoração ou limitações logísticas podem comprometer decisões excessivamente baseadas em tecnologia, reforçando a necessidade de valorização contínua do exame clínico, da avaliação funcional e do raciocínio fisiopatológico à beira-leito. Principais vieses: 

  • Supertriagem ou subtriagem de pacientes graves; 
  • Decisões influenciadas por pressão emocional; 
  • Manutenção de terapias fúteis em cenários de escassez; 
  • Falhas de comunicação interequipes; 
  • Excesso de dependência tecnológica em cenários instáveis. 

 

Mensagens Práticas 

  • Protocolos de desastre devem ser treinados previamente; 
  • Liderança clara reduz mortalidade operacional; 
  • Comunicação estruturada é intervenção terapêutica; 
  • Decisões éticas devem ser compartilhadas; 
  • Flexibilidade operacional salva mais vidas em cenários críticos. 

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Terapia Intensiva