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Terapia Intensiva28 maio 2026

Luso-Brasileiro 2026: Intensivista extra-muros - atuação do médico fora da UTI

Sessão do congresso abordou estratégias de cuidado crítico hospitalar integrado, equipes de resposta rápida, tomada de decisão fora da UTI e perspectivas futuras.
Por Cintia Johnston

Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, o Dr. Dimitri Gusmão Flóres moderou a sessão temática “Intensivista extra-muros”, reunindo especialistas brasileiros e portugueses para discutir a expansão da atuação do intensivista além dos limites físicos da UTI. A sessão abordou estratégias de cuidado crítico hospitalar integrado, equipes de resposta rápida, tomada de decisão fora da UTI e perspectivas futuras do cuidado crítico ampliado. Entre os palestrantes estiveram Dr. António Martins (Portugal), Dr. Paulo Mergulhão (Portugal), Dr. Zilfran Carneiro Teixeira (Brasil) e Dr. Ederlon Alves de Carvalho Rezende (Brasil). 

 

Raciocínio Clínico 

A medicina intensiva moderna ultrapassa progressivamente o conceito tradicional de cuidado restrito à UTI. O intensivista passa a atuar em enfermarias, emergências, unidades intermediárias e sistemas institucionais de deterioração clínica precoce, utilizando monitoração contínua, avaliação funcional e identificação antecipada de risco. O reconhecimento precoce da deterioração clínica, associado a respostas rápidas estruturadas, reduz mortalidade hospitalar, necessidade de internação tardia em UTI e ocorrência de parada cardiorrespiratória intra-hospitalar. 

A tomada de decisão extra-UTI exige equilíbrio entre limitação de recursos, gravidade clínica, prognóstico e comunicação efetiva entre equipes assistenciais. Protocolos institucionais, sistemas de alerta precoce e integração multiprofissional tornam-se fundamentais para garantir segurança e continuidade do cuidado crítico em diferentes ambientes hospitalares. 

 

Limitações e Desafios 

Os palestrantes destacaram importantes desafios relacionados à expansão do cuidado intensivo extra-UTI. Estudos recentes demonstram que a heterogeneidade estrutural entre hospitais influencia diretamente a capacidade de implementação de sistemas de resposta rápida e de monitorização clínica contínua. Instituições com recursos limitados frequentemente apresentam dificuldades relacionadas à disponibilidade de profissionais treinados, acesso reduzido a monitoração avançada, limitação de leitos intermediários e ausência de fluxos institucionais bem definidos para escalonamento assistencial. 

Outro desafio relevante refere-se à implementação sustentável das equipes de resposta rápida. Muitos serviços apresentam elevada rotatividade profissional, treinamento insuficiente, baixa padronização de condutas e dificuldade de funcionamento contínuo 24 horas por dia. Além disso, a integração entre enfermarias, emergência e UTI permanece frequentemente fragmentada, dificultando tomada de decisão compartilhada e continuidade do cuidado crítico. 

Os estudos também destacam que a identificação tardia da deterioração clínica continua sendo um dos principais fatores associados à mortalidade hospitalar evitável. Sobrecarga assistencial, falhas de monitoração, baixa adesão aos sistemas de alerta precoce e dependência excessiva de critérios subjetivos retardam intervenções críticas como suporte ventilatório, antibioticoterapia e transferência para unidades de maior complexidade. 

Outro ponto amplamente discutido foi a dificuldade de comunicação entre equipes multiprofissionais, especialmente durante transições de cuidado e definição de prioridades terapêuticas. A ausência de critérios objetivos para limitação terapêutica, elegibilidade para admissão em UTI e priorização de recursos pode gerar conflitos éticos, sofrimento moral e variabilidade assistencial importante entre profissionais e instituições. 

Nesse contexto, os autores reforçam que protocolos institucionais padronizados, treinamento multiprofissional contínuo, simulação realística e cultura de segurança representam pilares fundamentais para expansão segura do cuidado intensivo extra-muros. 

 

Principais vieses na prática clínica 

Os estudos recentes sobre sistemas de resposta rápida e cuidado intensivo extra-UTI demonstram que grande parte dos eventos adversos hospitalares está associada não apenas à gravidade clínica dos pacientes, mas também a vieses cognitivos, organizacionais e operacionais presentes no ambiente hospitalar. Em muitos casos, a deterioração clínica ocorre horas antes da intervenção efetiva, refletindo falhas no reconhecimento precoce, atraso no escalonamento terapêutico e dificuldade de integração entre equipes assistenciais. 

Os autores destacam que decisões excessivamente dependentes da percepção subjetiva dos profissionais podem gerar variabilidade importante na ativação do intensivista e na priorização de pacientes críticos. Além disso, sobrecarga assistencial, comunicação fragmentada e ausência de protocolos padronizados favorecem atrasos em intervenções potencialmente salvadoras, especialmente relacionadas ao suporte ventilatório, hemodinâmico e transferência para unidades de maior complexidade. 

Outro viés relevante refere-se à limitação inadequada ou tardia de recursos críticos, frequentemente influenciada por disponibilidade de leitos, fatores institucionais e dificuldade prognóstica. A combinação desses fatores aumenta o risco de deterioração evitável, eventos adversos e mortalidade hospitalar. Entre os principais vieses destacam-se: 

  • Reconhecimento tardio da deterioração clínica;
    • Dependência excessiva de critérios subjetivos para acionamento do intensivista;
    • Falhas de comunicação entre enfermaria, emergência e UTI;
    • Escalonamento tardio de suporte ventilatório e hemodinâmico;
    • Limitação inadequada de recursos críticos;
    • Ausência de protocolos institucionais padronizados;
    • Sobrecarga operacional das equipes hospitalares. 

 

Mensagens Práticas 

  • O cuidado crítico deve iniciar antes da admissão na UTI;  
  • Sistemas de alerta precoce reduzem eventos graves hospitalares;  
  • Equipes de resposta rápida necessitam treinamento contínuo;  
  • Comunicação estruturada melhora desfechos clínicos;  
  • Integração entre setores hospitalares reduz atrasos terapêuticos;  
  • A medicina intensiva extra-muros representa tendência irreversível dos sistemas modernos de saúde.  

 

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.

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Referências bibliográficas

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