Durante o Congresso Luso-Brasileiro de Medicina Intensiva 2026, o Dr. Dimitri Gusmão Flóres moderou a sessão temática “Intensivista extra-muros”, reunindo especialistas brasileiros e portugueses para discutir a expansão da atuação do intensivista além dos limites físicos da UTI. A sessão abordou estratégias de cuidado crítico hospitalar integrado, equipes de resposta rápida, tomada de decisão fora da UTI e perspectivas futuras do cuidado crítico ampliado. Entre os palestrantes estiveram Dr. António Martins (Portugal), Dr. Paulo Mergulhão (Portugal), Dr. Zilfran Carneiro Teixeira (Brasil) e Dr. Ederlon Alves de Carvalho Rezende (Brasil).
Raciocínio Clínico
A medicina intensiva moderna ultrapassa progressivamente o conceito tradicional de cuidado restrito à UTI. O intensivista passa a atuar em enfermarias, emergências, unidades intermediárias e sistemas institucionais de deterioração clínica precoce, utilizando monitoração contínua, avaliação funcional e identificação antecipada de risco. O reconhecimento precoce da deterioração clínica, associado a respostas rápidas estruturadas, reduz mortalidade hospitalar, necessidade de internação tardia em UTI e ocorrência de parada cardiorrespiratória intra-hospitalar.
A tomada de decisão extra-UTI exige equilíbrio entre limitação de recursos, gravidade clínica, prognóstico e comunicação efetiva entre equipes assistenciais. Protocolos institucionais, sistemas de alerta precoce e integração multiprofissional tornam-se fundamentais para garantir segurança e continuidade do cuidado crítico em diferentes ambientes hospitalares.
Limitações e Desafios
Os palestrantes destacaram importantes desafios relacionados à expansão do cuidado intensivo extra-UTI. Estudos recentes demonstram que a heterogeneidade estrutural entre hospitais influencia diretamente a capacidade de implementação de sistemas de resposta rápida e de monitorização clínica contínua. Instituições com recursos limitados frequentemente apresentam dificuldades relacionadas à disponibilidade de profissionais treinados, acesso reduzido a monitoração avançada, limitação de leitos intermediários e ausência de fluxos institucionais bem definidos para escalonamento assistencial.
Outro desafio relevante refere-se à implementação sustentável das equipes de resposta rápida. Muitos serviços apresentam elevada rotatividade profissional, treinamento insuficiente, baixa padronização de condutas e dificuldade de funcionamento contínuo 24 horas por dia. Além disso, a integração entre enfermarias, emergência e UTI permanece frequentemente fragmentada, dificultando tomada de decisão compartilhada e continuidade do cuidado crítico.
Os estudos também destacam que a identificação tardia da deterioração clínica continua sendo um dos principais fatores associados à mortalidade hospitalar evitável. Sobrecarga assistencial, falhas de monitoração, baixa adesão aos sistemas de alerta precoce e dependência excessiva de critérios subjetivos retardam intervenções críticas como suporte ventilatório, antibioticoterapia e transferência para unidades de maior complexidade.
Outro ponto amplamente discutido foi a dificuldade de comunicação entre equipes multiprofissionais, especialmente durante transições de cuidado e definição de prioridades terapêuticas. A ausência de critérios objetivos para limitação terapêutica, elegibilidade para admissão em UTI e priorização de recursos pode gerar conflitos éticos, sofrimento moral e variabilidade assistencial importante entre profissionais e instituições.
Nesse contexto, os autores reforçam que protocolos institucionais padronizados, treinamento multiprofissional contínuo, simulação realística e cultura de segurança representam pilares fundamentais para expansão segura do cuidado intensivo extra-muros.
Principais vieses na prática clínica
Os estudos recentes sobre sistemas de resposta rápida e cuidado intensivo extra-UTI demonstram que grande parte dos eventos adversos hospitalares está associada não apenas à gravidade clínica dos pacientes, mas também a vieses cognitivos, organizacionais e operacionais presentes no ambiente hospitalar. Em muitos casos, a deterioração clínica ocorre horas antes da intervenção efetiva, refletindo falhas no reconhecimento precoce, atraso no escalonamento terapêutico e dificuldade de integração entre equipes assistenciais.
Os autores destacam que decisões excessivamente dependentes da percepção subjetiva dos profissionais podem gerar variabilidade importante na ativação do intensivista e na priorização de pacientes críticos. Além disso, sobrecarga assistencial, comunicação fragmentada e ausência de protocolos padronizados favorecem atrasos em intervenções potencialmente salvadoras, especialmente relacionadas ao suporte ventilatório, hemodinâmico e transferência para unidades de maior complexidade.
Outro viés relevante refere-se à limitação inadequada ou tardia de recursos críticos, frequentemente influenciada por disponibilidade de leitos, fatores institucionais e dificuldade prognóstica. A combinação desses fatores aumenta o risco de deterioração evitável, eventos adversos e mortalidade hospitalar. Entre os principais vieses destacam-se:
- Reconhecimento tardio da deterioração clínica;
• Dependência excessiva de critérios subjetivos para acionamento do intensivista;
• Falhas de comunicação entre enfermaria, emergência e UTI;
• Escalonamento tardio de suporte ventilatório e hemodinâmico;
• Limitação inadequada de recursos críticos;
• Ausência de protocolos institucionais padronizados;
• Sobrecarga operacional das equipes hospitalares.
Mensagens Práticas
- O cuidado crítico deve iniciar antes da admissão na UTI;
- Sistemas de alerta precoce reduzem eventos graves hospitalares;
- Equipes de resposta rápida necessitam treinamento contínuo;
- Comunicação estruturada melhora desfechos clínicos;
- Integração entre setores hospitalares reduz atrasos terapêuticos;
- A medicina intensiva extra-muros representa tendência irreversível dos sistemas modernos de saúde.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.