O linfoma anaplásico de células grandes associado a implante mamário (BIA-ALCL) é uma neoplasia rara de células T, descrita pela primeira vez em 1997, cujo reconhecimento tem aumentado significativamente nas últimas décadas. Embora ainda pouco documentada na literatura, especialmente no contexto brasileiro, a doença ganhou relevância clínica à medida que o número de casos relatados mundialmente cresceu, totalizando 1.380 registros até junho de 2024. Esse cenário reforça a importância de estudos que contribuam para o reconhecimento precoce, diagnóstico preciso e manejo adequado da condição, particularmente no âmbito da cirurgia plástica.
O artigo em questão apresenta um relato de caso conduzido no Instituto Nacional de Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, com o objetivo de detalhar o processo diagnóstico, o tratamento cirúrgico e o seguimento oncológico de uma paciente com BIA-ALCL, além de descrever a estratégia reconstrutiva adotada após a retirada dos implantes. Trata-se de um estudo observacional descritivo, baseado na análise de prontuário médico, exames de imagem, avaliação histopatológica e imunohistoquímica, bem como no acompanhamento clínico da paciente, com aprovação do Comitê de Ética da instituição.
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Dados do caso
O caso relatado envolve uma paciente de 45 anos, portadora do vírus HIV em tratamento antirretroviral regular, sem outras comorbidades relevantes, submetida à cirurgia de aumento mamário em 2014. Em agosto de 2021, a paciente apresentou aumento súbito e indolor da mama direita, motivando investigação diagnóstica. A punção aspirativa por agulha fina do seroma revelou células linfoides atípicas sugestivas de malignidade, o que levou à decisão conjunta entre as equipes de cirurgia plástica e mastologia pela explantação bilateral associada à capsulectomia total.
A ressonância magnética evidenciou extensa coleção intracapsular na mama direita, com espessamento capsular e sinais inflamatórios, classificada como BIRADS 4, sem possibilidade de exclusão diagnóstica do BIA-ALCL. O procedimento cirúrgico, realizado em maio de 2022, envolveu a retirada de implantes texturizados e remoção completa das cápsulas. A evolução pós-operatória foi satisfatória, sem intercorrências imediatas.
A análise histopatológica confirmou o diagnóstico de linfoma anaplásico de células grandes associado a implante mamário, caracterizado por células neoplásicas CD30 positivas e ALK negativas, dispostas ao longo da cápsula, sem formação de massa sólida ou infiltração capsular. Esses achados imunofenotípicos são fundamentais para a confirmação diagnóstica e estão em consonância com os critérios internacionais descritos na literatura. Exames de estadiamento, incluindo PET-CT, não demonstraram doença ativa ou disseminada, afastando a necessidade de terapias adjuvantes naquele momento.
O seguimento da paciente envolveu acompanhamento contínuo pelas equipes de oncologia, hematologia, mastologia e cirurgia plástica. No que se refere à reconstrução mamária, optou-se por lipoenxertias seriadas, respeitando o desejo da paciente de evitar novos implantes e cicatrizes extensas. As sessões de enxertia de gordura ocorreram em setembro de 2023 e dezembro de 2024, com resultados satisfatórios quanto ao volume mamário e à satisfação da paciente, sem sinais de recidiva da doença até o momento do relato.
Considerações
A discussão do artigo destaca que praticamente todos os casos de BIA-ALCL descritos estão associados ao uso de implantes texturizados, com tempo médio de aparecimento entre 8 e 9 anos após a cirurgia. A etiopatogênese ainda não é completamente esclarecida, mas hipóteses incluem resposta inflamatória crônica desencadeada por biofilme bacteriano ou atrito da superfície do implante, culminando em ativação imunológica persistente. Clinicamente, a manifestação mais comum é o seroma tardio, devendo qualquer acúmulo líquido inexplicado após um ano da cirurgia ser considerado suspeito.
O tratamento padrão consiste na retirada completa dos implantes e das cápsulas, conforme recomendações do National Comprehensive Cancer Network, sendo esse fator determinante para o bom prognóstico da doença. Casos diagnosticados precocemente, sem massa tumoral ou envolvimento linfonodal, apresentam elevada taxa de cura apenas com tratamento cirúrgico. O artigo reforça ainda que a reconstrução mamária é possível e segura quando criteriosamente indicada, considerando o estadiamento, a ressecção completa e as preferências da paciente.
Conclusão e mensagem prática
Portanto, que o BIA-ALCL, apesar de raro, representa uma entidade clínica de grande importância para a prática da cirurgia plástica. O relato contribui para a ampliação do conhecimento sobre a doença no contexto brasileiro, enfatizando a necessidade de vigilância clínica, diagnóstico precoce e abordagem multidisciplinar, fatores essenciais para garantir prognóstico favorável e adequada reabilitação estética e funcional das pacientes.
Autoria

Hiago Bastos
Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI ⦁ Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos ⦁ Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium) ⦁ Especialista em ECMO pela ELSO ⦁ Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017 ⦁ Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA) ⦁ Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.
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