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Terapia Intensiva18 março 2026

ISICEM 2026: Highlights do 2º dia - alerta para o perigo das decisões precoces

Confira o resumo do segundo dia do evento, que trouxe sessões de discussão bastante relevantes para os especialistas.
Por Yuri Albuquerque

Confira quais foram as sessões de maior destaque durante o segundo dia do congresso ISICEM 2026, que acontece em Bruxelas, Bélgica, até o dia 20 de março. A maioria destacou a importância do tempo correto das intervenções em terapia intensiva.

Neuroprognóstico pós-PCR –  Menos atalhos e mais estratégia multimodal 

O segundo dia do ISICEM 2026 trouxe uma das sessões mais relevantes do congresso: Após parada cardiorrespiratória” (After Cardiac Arrest) , moderada por Giuseppe Citerio e Alexander Zarbock, reunindo especialistas internacionais para discutir fisiopatologia, prognóstico neurológico, biomarcadores e manejo pós-PCR. 

A sessão percorreu desde os mecanismos iniciais de lesão cerebral até as decisões mais complexas à beira-leito, reforçando uma mudança clara de paradigma: o neuroprognóstico não pode mais ser baseado em sinais isolados, mas em uma estratégia multimodal e cuidadosamente temporizada. 

 

Fisiopatologia pós-PCR: Lesão Dinâmica e Sem Alvo Único 

 Na apresentação “O que acontece com o cérebro logo após a ressuscitação” (What happens to the brain just after resuscitation), Dr. Mypinder Sekhon destacou que a lesão cerebral pós-PCR é um processo dinâmico e multifatorial. 

 

Após o retorno da circulação espontânea, ocorre uma cascata complexa que inclui: 

  • lesão mitocondrial precoce 
  • sobrecarga intracelular de cálcio 
  • excitotoxicidade 
  • disfunção microvascular 
  • inflamação sistêmica e cerebral 

 

Além disso, há interação contínua entre hipóxia tecidual e resposta inflamatória, perpetuando a lesão ao longo do tempo. 

 

O ponto-chave foi direto: 

  • Não existe um único alvo terapêutico 
  • O manejo deve ser individualizado 

 Em um cenário com múltiplos mecanismos simultâneos, estratégias simplistas tendem a falhar. 

 

Como Avaliar o Prognóstico Neurológico após PCR? 

Na aula  “Neuroprognóstico precoce” (Early neuroprognostication), Dr. Jan Belohlavek abordou um dos principais problemas da prática clínica: avaliar prognóstico cedo demais. 

 

As discussões do congresso reforçaram o que as diretrizes mais recentes já estabelecem: o neuroprognóstico deve ser feito de forma multimodal, idealmente a partir de 72 horas após o retorno da circulação espontânea (ROSC) e sempre após excluir confundidores, como sedação residual, bloqueio neuromuscular, hipotermia, hipotensão, sepse e distúrbios metabólicos. 

O objetivo não é prever mortalidade global, mas responder a uma pergunta mais específica:
👉 qual é a extensão da lesão cerebral e qual a chance de recuperação neurológica? 

 

Exame clínico: Ainda Central, mas Nunca Isolado 

Em pacientes ainda inconscientes após 72 horas: 

  • Ausência bilateral do reflexo pupilar à luz 
  • Ausência bilateral do reflexo corneano 

São achados fortemente associados a mau prognóstico. 

No entanto, a recomendação atual é clara: Nenhum desses sinais deve ser usado isoladamente. Eles devem sempre ser interpretados em conjunto com EEG, potencial evocado somatosensorial, biomarcadores e imagem. 

 

Neurofisiologia: o EEG como Peça-Chave 

Entre os métodos disponíveis, o EEG ocupa papel central. 

Achados associados a mau prognóstico incluem: 

  • padrão suprimido 
  • burst-suppression 
  • ausência de reatividade 

Por outro lado, são considerados sinais favoráveis: 

  • EEG contínuo e de voltagem normal nas primeiras 72 horas 

O Potencial Evocado Somatossensorial também mantém papel importante: 

  • Ausência bilateral da onda N20 a partir de 24 horas é um dos marcadores mais robustos de lesão cerebral grave. 

 

Biomarcadores: Números Ajudam, Mas não Decidem Sozinhos 

Na apresentação “Biomarcadores podem ajudar a prever o desfecho?” (Biomarkers can help to predict outcome), Dr. Markus Skrifvars destacou o papel dos biomarcadores no contexto pós-PCR. 

O enolase neuronio especifica (ENS)continua sendo o biomarcador mais utilizado na prática. 

Valores de referência: 

  • > 60 µg/L em 48 e/ou 72 horas → sugere mau prognóstico 
  • ≤ 17 µg/L em até 72 horas → sugere bom prognóstico 

Apesar disso, há limitações importantes: 

  • hemólise pode elevar falsamente o valor 
  • menor confiabilidade em ECMO e TRS 
  • necessidade de interpretação seriada 

O congresso também destacou o neurofilamento leve (NFL) como marcador emergente, com acurácia muito superior, mas ainda sem padronização suficiente para uso universal. 

Mensagem prática: Biomarcadores ajudam, mas nunca devem ser usados isoladamente 

 

Neuroimagem: complementar e contextual 

A imagem deve ser integrada ao restante da avaliação: 

  • TC pode identificar edema cerebral precoce 
  • RM (2–7 dias) é mais sensível para lesão hipóxico-isquêmica 

Achados de lesão difusa e extensa reforçam prognóstico desfavorável, enquanto ausência de alterações significativas pode indicar maior chance de recuperação. 

 

Status Mioclônico: Fim de um Marcador Isolado de Mau Prognóstico 

 

Um dos pontos mais impactantes do dia foi a revisão do papel do status mioclônico pós-PCR. Na aula Quando (não) tratar o estado epiléptico e a mioclonia pós-anóxica” (When (not) to treat post-anoxic status epilepticus and myoclonus), Dra. Pia De Stefano revisou um dos maiores paradigmas da área. 

Tradicionalmente considerado marcador de mau prognóstico, hoje sabemos que essa associação é inconsistente. 

Os dados apresentados mostram que: 

  • Definições de mioclonia são heterogêneas 
  • Pacientes com mioclonia podem evoluir com bom desfecho 
  • O fator determinante não é a mioclonia em si, mas o padrão do EEG 

Pacientes com: 

  • EEG preservado ou reativo → maior chance de bom desfecho 
  • EEG suprimido ou altamente maligno → pior prognóstico 

Além disso: 

  • Presença de status epilepticus isoladamente não define prognóstico 
  • Tratamento pode ser benéfico em subgrupos 

Mensagem-chave: Mioclonia isoladamente não deve mais ser usada como critério de mau prognóstico 

 

Sedação pós-PCR: um dos maiores confundidores 

Na apresentação “Sedação e cérebro: devemos titular?” (Sedation and the brain: should we titrate?), Dra. Theresa Olavseengen discutiu o impacto da sedação na avaliação neurológica. 

A sedação foi destacada como um dos principais fatores que podem distorcer a avaliação neurológica. 

Pontos principais: 

  • Influencia exame clínico e EEG 
  • Pode retardar despertar 
  • Pode simular lesão neurológica grave 

Além disso, há grande heterogeneidade entre centros quanto a: 

  • Profundidade de sedação 
  • Tempo de manutenção 
  • Estratégia de retirada 

As diretrizes recomendam: 

  • Uso de sedativos de curta ação 
  • Interrupções diárias da sedação, sempre que possível 

Antes de qualquer prognóstico, é obrigatório excluir efeito de sedação 

 

Mensagem final 

O segundo dia do ISICEM 2026 reforçou uma transformação importante na terapia intensiva.   

  • A primeira é que o neuroprognóstico pós-PCR não pode mais ser baseado em atalhos ou sinais isolados.  
  • A segunda é que o cérebro deve ser avaliado como um sistema complexo, exigindo integração de múltiplas ferramentas. 
  • A terceira é que o tempo importa, tanto para evitar decisões precoces quanto para permitir avaliação adequada. 

E talvez a mensagem mais importante: 

O maior erro não é prever errado. É prever cedo demais, com pouca informação 

 

Autoria

Foto de Yuri Albuquerque

Yuri Albuquerque

Doutorando em Ciências Médicas pela Universidade de São Paulo (USP) • Residência em Medicina Intensiva pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) • Residência em Clínica Médica ano complementar (R3) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) • Residência em Clínica Médica pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) • Médico intensivista rotina do hospital Samaritano Paulista • Título de Especialista em ECMO pela Extracorporeal Life Support Organization (ELSO) • Título de Especialista em Medicina Intensiva pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB)

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