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Terapia Intensiva9 junho 2026

Insuficiência respiratória aguda em pacientes imunocomprometidos

Insuficiência respiratória em imunocomprometidos exige investigação etiológica ampla, suporte precoce na UTI e atenção a coinfecções.

Nos últimos 20 anos um manuseio de pacientes e mono comprometidos melhorou substancialmente. Foram vários avanços na área de hematologia, oncologia, transplante e doenças autoimunes, além do tratamento mais efetivo de HIV/AIDS. Enquanto a internação em UTI desses pacientes era praticamente proibida no século passado. Atualmente são pacientes que têm melhor prognóstico e sobrevivem a doenças graves, desde que haja suporte em tecido intensivo. O prognóstico destes pacientes era muito ruim há mais de 20 anos atrás, e, portanto, a internação em UTI era realizada apenas em casos mais leves de doença. Hoje em dia, pacientes e imunocomprometidos que têm algum quadro grave de doença são admitidos em UTI e apresentam boa chance de recuperação.  

A insuficiência respiratória aguda é a causa mais comum de internação em UTI desta população. A etiologia deste quadro pode ser complexa e multifacetada. Infecções, efeitos adversos de medicações, hemorragia alveolar, progressão da malignidade e outras condições não-infecciosas são diagnósticos diferenciais dos quadros respiratórios graves. Muitas vezes os pacientes precisam de ventilação mecânica, seja não-invasiva ou invasiva, e o prognóstico destes casos são ruins. Os dados de mortalidade foram gerados ainda na década de 90 e 2000, com desfechos desanimadores. Por isso, os autores decidiram atualizar os dados de prognóstico e falência respiratória em pacientes imunocomprometidos. 

Leia mais: Oxigenoterapia por alto fluxo ou padrão para insuficiência respiratória aguda

Nurse monitoring male patient receiving oxygen in hospital bed. Intensive care, respiratory support, treatment, recovery and patient care concept.

Métodos: 

Eles realizaram um estudo observacional de dados retrospectivos e em 26 países, contando com 103 unidades de tratamento intensivo. Os pacientes elegíveis foram adultos com PaO2 menor que 60 mmHg ou saturação de oxigênio menor que 90% em ar ambiente, frequência respiratória acima de 30/minuto, uso de musculatura respiratória acessória, dispneia em repouso e cianose. Os pacientes foram incluídos ser precisavam de oxigênio suplementar acima de 6L/min. Os pacientes foram classificados como imunocomprometidos com as seguintes doenças: neoplasia hematológica, neoplasia de órgão sólido, transplante de órgãos sólidos, doenças sistêmicas autoimunes, uso de corticoide por mais de 30 dias ou terapia em alta dose (mais que 1 mg/kg/dia) nos últimos 30 dias. Foram excluídos pacientes com HIV/AIDS.  

O estudo foi conduzido com revisão de prontuários entre Janeiro de 2017 e Dezembro de 2023, totalizando 7 anos de observação. Coletou-se dados de gravidade como escore SOFA e critérios de Sara de Berlim 2012. A avaliação diagnóstica da etiologia do quadro respiratório ficou de acordo com cada unidade. A avaliação poderia ser feita com broncoscopia ou culturas de amostra de secreção respiratória, além de exames sanguíneos como testes rápidos e culturas. Foram feitas também avaliações de imagem como ecocardiograma e tomografia. Testes rápidos de antígeno no sangue e na urina foram realizados se havia disponibilidade destes nos hospitais. Houve uma significativa variação desta investigação de acordo com o centro, sem haver um padrão determinado de rotina. O objetivo primário do estudo foi avaliar a mortalidade em 30 dias e identificar fatores relacionados a estes este desfecho. Secundariamente se pesquisou fatores de risco para intubação traqueal.  

Resultados:  

Foram incluídos 9.854 pacientes. A maior parte desses pacientes (70%) tinham indicação de tratamento completo sem nenhuma limitação; 4% tinham indicação de tratamento limitado; e outros 4% tinham ordem de não-intubação e 3% de não-reanimação; apenas 1% dos pacientes estavam plenamente em cuidados paliativos. 60% dos pacientes eram homens, com idade média de 64 anos. 

As causas de imunossupressão foram as seguintes: neoplasia hematológica (48%), neoplasia sólida (38%), colagenoses (18%) e transplante de órgãos sólidos (9%). O uso ativo de medicações imunossupressoras estava presente em 33% dos casos e 9% dos pacientes estavam recebendo imunoterapia. Os pacientes tinham em torno de 10 meses do diagnóstico inicial. Uma pequena parte tinha performance status ruim (17%), o que denota que a admissão em UTI foi provavelmente selecionada para pacientes de melhor prognóstico. O tempo de doença até a hospitalização era em torno de 2 a 3 dias. O escore SOFA foi de 7 pontos (mediana) e a relação de oxigenação PaO2/FiO2 na entrada foi de 198. Quase um terço dos pacientes tinha critério de SARA e 16% já tinha SARA grave no momento da admissão. 35% dos pacientes apresentaram neutropenia. Quase 20% dos pacientes estavam em fase de remissão da doença. Por outro lado, a doença que leva à imunossupressão estava sem controle em 18% dos pacientes.  

Entre os aspectos mais interessantes do estudo estava a descrição da etiologia da insuficiência respiratória. A maioria dos quadros era causada por infecções bacterianas (42%), com quase 30% dos casos com documentação microbiológica. As bactérias gram-negativas foram as mais foram isoladas, como E coli, Klebsiella e Pseudomonas. Em segundo lugar, a causa mais comum foi de infecções virais (20%): o estudo transcorreu durante a pandemia de Covid e, por isso esse vírus foi o mais isolado seguido de enterovírus, rinovírus, influenza, sincicial respiratório e parainfluenza. A seguir foram as infecções fúngicas (8%), sendo a mais comum por Pneumocystis seguido de Aspergillus sp. Edema agudo cardiogênico esteve presente em 7% dos pacientes e SARA associada a choque séptico de sítio não pulmonar em 7% também. Outras causas de quadro respiratório foram pneumonite aspirativa (3%), embolia pulmonar (2,5%) e toxicidade pulmonar mediada por drogas (2%); em 15% dos pacientes a causa da insuficiência respiratória não foi diagnosticada. Um detalhe curioso é que em 54% havia mais de uma causa possível para o quadro de insuficiência respiratória, ou seja, a etiologia do quadro respiratório agrega coinfecções ou doenças infecciosas associadas com não-infecciosas (exemplos: coinfecção vírus-bactéria ou pneumonite por medicamentos usados para imunossupressão). 

A mortalidade em 30 dias foi de 47%. A mortalidade da UTI foi 37% e em 90 dias foi de 55%. Os fatores de risco associados à mortalidade foram: idade, outras comorbidades fragilidade, tempo da hospitalização até a admissão na UTI, dados fisiológicos como frequência respiratória e redução da consciência e infecção fúngica. O fato de não identificar a causa da doença respiratória e por fim, fatores associados ao tratamento intensivo, como choque necessidade de terapia renal substitutiva também foram fatores de risco.E alguns fatores estavam associados à menor mortalidade como transplante, colagenoses, melhor troca gasosa no início do quadro, edema pulmonar cardiogênico e suporte respiratório inicial com cateter de alto fluxo de oxigênio. 

Em relação ao objetivo secundário, 56% dos pacientes necessitaram intubação traqueal.  

Entre os fatores protetores para esses desfecho destacam se comorbidades como leucemia mieloide aguda, melhor troca gasosa e edema pulmonar cardiogênico. O risco de intubação teve relação com a gravidade da hipoxemia. 

Em relação à modalidade de tratamento da insuficiência respiratória, 52% dos pacientes usando suporte com oxigênio tradicional, 1996 (19%) com cateter de alto fluxo, 921 (9%) com ventilação não invasiva e outros 2015 (20%) dos pacientes precisando de intubação e ventilação invasiva já na apresentação na UTI. Uma pequena parte destes pacientes usaram cateter de alto fluxo alternando com ventilação não invasiva (202 pacientes).  

Numa análise preliminar, o uso de cateter de alto fluxo de oxigênio esteve associado à menor mortalidade, porém quase 30% das revisões de prontuário tiveram falta de dados sobre o suporte respiratório. Portanto, quando os autores fizeram um tratamento de dados “missing”, o efeito da terapia com cateter de alto fluxo já não foi mais significativa para mortalidade, porém, a terapia com cateter de alto fluxo e ventilação não invasiva estiveram associadas à redução significativa de intubação 

Conclusões: 

  • A investigação da etiologia da insuficiência respiratória é extremamente importante e pode influenciar a mortalidade; 
  • A coexistência de 2 ou mais etiologias é comum e a investigação deve ser mais extensa nos pacientes imunocomprometidos em insuficiência respiratória aguda; 
  • Suporte respiratório com cateter de alto fluxo de oxigênio e ventilação não invasiva podem reduzir o risco de intubação, embora não sejam influentes para mortalidade; 
  • Os pacientes imunocomprometidos com insuficiência respiratória aguda não devem demorar para chegar na UTI, iniciar seu tratamento e a maior parte deles tem um prognóstico bom e doença em remissão.  

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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