O período gestacional é marcado por intensas alterações metabólicas e fisiológicas, dentre as quais o ganho de peso gestacional (GPG) se destaca como um fator determinante para a saúde materno-fetal. A crescente prevalência de sobrepeso e obesidade entre mulheres em idade reprodutiva tem ampliado a preocupação com complicações associadas à gestação, especialmente o diabetes mellitus gestacional (DMG). Nesse contexto, o estudo conduzido por Chagas et al. (2026) analisa a associação entre o índice de massa corporal (IMC) pré-gestacional, o ganho de peso durante a gravidez — segundo a nova curva adotada pelo Ministério da Saúde brasileiro — e o risco de desenvolvimento de DMG, oferecendo evidências relevantes para a prática clínica e para a saúde pública.

Métodos
Trata-se de um estudo transversal realizado com 104 gestantes atendidas em São Luís (MA), sendo 52 diagnosticadas com DMG e 52 sem a doença, pareadas por idade, cor da pele autorreferida, hipertensão prévia e histórico familiar de diabetes tipo 2. O diagnóstico do DMG seguiu os critérios da Organização Mundial da Saúde, com aplicação do teste oral de tolerância à glicose de 75 g entre 24 e 32 semanas. As análises estatísticas incluíram testes de associação para variáveis categóricas e contínuas, além de dois modelos de regressão logística multivariada — um com IMC e GPG como variáveis contínuas e outro com classificações categóricas — ajustados por idade, renda, escolaridade, cor da pele e histórico familiar de diabetes.
Resultados
Os resultados revelaram que gestantes com DMG praticavam menos atividade física antes e durante a gravidez, evidenciando a influência do estilo de vida no risco metabólico. Embora o sobrepeso pré-gestacional tenha sido mais frequente entre mulheres com DMG (53,9% versus 30,8%), e a obesidade mais prevalente entre as sem DMG (40,4% versus 26,9%), essa diferença não atingiu significância estatística. Em contrapartida, o ganho de peso gestacional excessivo mostrou forte associação com o DMG. Mesmo apresentando mediana de ganho de peso menor (4,5 kg versus 8,0 kg), 84,6% das mulheres com DMG ultrapassaram os valores recomendados para sua idade gestacional segundo a nova curva brasileira.
A regressão logística evidenciou que cada quilograma adicional ganho durante a gestação aumentou em 28% a chance de desenvolvimento de DMG após ajuste para variáveis de confusão (aOR 1,28; IC95%: 1,12–1,47; p < 0,001). Esse achado reforça a relevância do monitoramento do ganho ponderal como estratégia preventiva. Entretanto, os autores alertam que o modelo não ajustou completamente as categorias de IMC pré-gestacional, reconhecido fator independente de risco, o que impõe cautela na interpretação dos resultados.
A discussão enfatiza que tanto o excesso de peso antes da gravidez quanto o ganho ponderal excessivo durante a gestação estão amplamente associados a desfechos adversos, como hipertensão gestacional, macrossomia fetal, parto cesáreo e hemorragias pós-parto. Ademais, a literatura internacional corrobora a relação entre sedentarismo e maior risco de DMG, reforçando que intervenções baseadas em atividade física regular podem contribuir para melhor controle glicêmico e prevenção de complicações.
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Considerações
Importante destacar que este é o primeiro estudo a aplicar a nova curva brasileira de ganho de peso gestacional — desenvolvida a partir do Consórcio Brasileiro de Nutrição Materno-Infantil (CONMAI) e oficializada pelo Ministério da Saúde em 2022 — na investigação da associação com DMG. Tal inovação fortalece a adequação das recomendações às características populacionais nacionais, reduzindo dependência de parâmetros internacionais como os do Institute of Medicine.
Apesar das contribuições, o estudo apresenta limitações, como o tamanho amostral reduzido, ausência de avaliação detalhada do consumo alimentar, uso de peso pré-gestacional autorreferido e limitação metodológica no ajuste estatístico do IMC. Ainda assim, seus achados sustentam a tese de que o ganho de peso excessivo constitui fator de risco significativo para o DMG, destacando a necessidade de vigilância nutricional rigorosa no pré-natal.
Conclusão e mensagem prática
Dessa forma, conclui-se que a adoção da nova curva brasileira representa avanço importante na prática obstétrica, mas sua aplicação deve vir acompanhada de estratégias integradas de promoção da atividade física, educação nutricional e monitoramento contínuo do ganho ponderal, a fim de reduzir a incidência de diabetes gestacional e suas repercussões materno-fetais.
Autoria

Hiago Bastos
Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI ⦁ Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos ⦁ Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium) ⦁ Especialista em ECMO pela ELSO ⦁ Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017 ⦁ Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA) ⦁ Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.
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