A hipertensão arterial sistêmica é uma condição muito frequente nas enfermarias e UTIs de qualquer hospital de média ou alta complexidade. No entanto, ao contrário do manejo ambulatorial já sustentado por décadas de ensaios clínicos robustos e diretrizes consolidadas, a conduta na hipertensão assintomática no ambiente hospitalar permanece um dos terrenos mais mal definidos da medicina interna e da terapia intensiva.
Um artigo publicado no New England Journal of Medicine em novembro de 2025, realizou uma revisão sobre duas posições opostas entre especialistas: a conduta expectante (“watchful waiting”) versus o início de anti-hipertensivos orais durante a internação. Para o intensivista, a relevância é clara: pacientes internados com pressão elevada e sem sintomas de lesão aguda de órgão-alvo são encontrados diariamente, e a tomada de decisão tende a ser guiada mais por hábito do que por evidência.
A ausência de ensaios clínicos randomizados sobre o tema é o ponto de maior vulnerabilidade de toda a discussão. Uma revisão sistemática de diretrizes clínicas publicada em 2024 (Wilson et al.) identificou uma grande heterogeneidade nas recomendações existentes, com múltiplos guidelines reconhecendo explicitamente a insuficiência das evidências disponíveis para embasar condutas definitivas.
Resultados
Os dados observacionais disponíveis indicam para um sinal de alerta importante: o tratamento intra-hospitalar da hipertensão assintomática, especialmente quando conduzido por via intravenosa ou de forma agressiva nas primeiras 48 horas, associa-se a maior incidência de eventos adversos como lesão renal aguda, injúria miocárdica e até morte, em comparação com a conduta expectante. O estudo de Anderson et al. (2023) possuiu os achados mais robustos entre os citados e gerou desconforto com a prática habitual de “normalizar” a pressão do paciente internado.
Outro estudo de 2021 reforça o mesmo sinal: pacientes tratados tiveram taxas mais altas de injúria miocárdica e renal aguda do que os não tratados. Além disso, a intensificação do esquema anti-hipertensivo na alta hospitalar se associou a maior taxa de reinternação em 30 dias, sugerindo que o tratamento iniciado fora do contexto ambulatorial adequado pode criar mais problemas do que resolve.
Do lado pró-tratamento, os argumentos são principalmente epidemiológicos e oportunísticos: o controle pressórico inadequado na população geral permanece alarmante (apenas 21% com pressão controlada, segundo dados do CDC de 2024), e a internação de um paciente sem seguimento ambulatorial pode ser a única janela de acesso ao sistema de saúde em meses ou anos.
Para o intensivista, este artigo deve produzir pelo menos três reflexões:
A primeira é sobre o risco de medicalização excessiva: a pressão por “normalizar parâmetros” durante a internação, frequentemente alimentada por protocolos de enfermagem que notificam automaticamente valores acima de determinados limiares, pode estar gerando intervenções desnecessárias e potencialmente prejudiciais.
A segunda é sobre a diferenciação entre urgência hipertensiva, emergência hipertensiva e hipertensão assintomática.
Por último, é importante garantir que o paciente saia do hospital com diagnóstico documentado, orientação sobre hipertensão e encaminhamento ambulatorial e essa conduta é superior à prescrição de um anti-hipertensivo oral sem seguimento garantido. Nesse sentido, reforça-se a importância de fluxos estruturados de alta hospitalar.
Conclusão
Pacientes com hipertensão sintomática, com disfunção orgânica em evolução, submetidos a procedimentos cirúrgicos de alto risco cardiovascular, ou com condições específicas como pré-eclâmpsia, dissecção aórtica ou hemorragia intracraniana têm indicações bem estabelecidas de tratamento imediato. Já naqueles assintomáticos, a observação criteriosa, o monitoramento seriado e o planejamento de seguimento ambulatorial, sem intervenção farmacológica imediata é a opção mais acertada.
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