Durante o II Congresso EuroBrazil, os Drs. Ciro Leite Mendes (Brasil) e João Galantier (Brasil) conduziram a sessão temática com especialistas internacionais e nacionais de grande relevância: Jean-Louis Teboul (França), Alexandre Biasi Cavalcanti (Brasil), Ludhmila Abrahão Hajjar (Brasil), Filomena Regina Barbosa Gomes Galas (Brasil) e Marlies Ostermann (Inglaterra). A sessão abordou de forma integrada o manejo hemodinâmico no choque, com foco em individualização terapêutica e uso racional de intervenções.

Raciocínio Clínico
O manejo contemporâneo do choque, especialmente o séptico, evoluiu de uma abordagem protocolar rígida para uma estratégia dinâmica, guiada por fisiologia. O ponto central deixa de ser “quanto fluido administrar” e passa a ser “quem realmente se beneficia de fluido”.
A avaliação da responsividade volêmica, destacada por Teboul, reforça que apenas uma parcela dos pacientes responde a volume, tornando essencial o uso de testes dinâmicos (elevação passiva de pernas, variação de pressão de pulso, testes de oclusão expiratório). A administração indiscriminada de fluidos pode agravar congestão, disfunção orgânica e mortalidade.
Na sequência, Cavalcanti enfatiza a ressuscitação personalizada, integrando macro e microcirculação, tempo de doença e heterogeneidade da sepse. A estratégia deve ser adaptativa, considerando fenótipo hemodinâmico e resposta ao tratamento.
Hajjar reforça que vasopressores devem ser iniciados precocemente quando há hipotensão refratária, com a noradrenalina como primeira escolha, evitando atraso que perpetua hipoperfusão. Já Galas destaca que o uso de inotrópicos deve ser guiado por evidência de disfunção miocárdica e baixo débito, e não apenas por pressão arterial.
Por fim, Ostermann traz um ponto crítico frequentemente negligenciado: o descalonamento. Após a fase de ressuscitação, o excesso de fluido deve ser ativamente removido, com estratégias como diuréticos ou ultrafiltração, visando restaurar o equilíbrio hídrico e reduzir sobrecarga.
Limitações e Desafios
A aplicação prática desses conceitos enfrenta limitações importantes na UTI. A avaliação da responsividade volêmica pode ser dificultada por arritmias, ventilação espontânea ou baixa disponibilidade de monitorização avançada. Além disso, muitos testes dinâmicos exigem treinamento e interpretação adequada.
A heterogeneidade da sepse representa um grande desafio, pois pacientes com o mesmo diagnóstico podem apresentar perfis hemodinâmicos completamente distintos. Isso limita a aplicação de protocolos universais.
Outro ponto crítico é o risco de sobrecarga hídrica acumulada, frequentemente subestimado nas primeiras 24–48 horas. A transição entre ressuscitação e descalonamento nem sempre é clara, levando à manutenção desnecessária de fluidos.
O uso de vasopressores e inotrópicos também pode ser enviesado por metas simplistas (como pressão arterial isolada), sem integração com perfusão tecidual. Além disso, a decisão entre diuréticos e ultrafiltração ainda carece de critérios bem definidos em muitos cenários clínicos.
Principais vieses na prática clínica em UTI
- Viés de sobrecarga de fluidos (fluid bias)
Tendência a administrar volume excessivo na fase inicial, sem reavaliação dinâmica, levando a congestão e piora de desfechos. - Viés de parâmetros estáticos
Uso inadequado de variáveis como PVC ou PAM isoladamente para guiar conduta, ignorando baixa acurácia para prever responsividade. - Viés de pressão arterial (“MAP-centered bias”)
Foco excessivo na PAM como objetivo final, sem considerar perfusão tecidual (lactato, TEC, diurese, microcirculação). - Viés de protocolo rígido
Aplicação indiscriminada de bundles de sepse sem individualização conforme fenótipo hemodinâmico e fase da doença. - Viés de atraso terapêutico
Retardo no início de vasopressores por tentativa excessiva de expansão volêmica. - Viés de confirmação
Interpretação seletiva de dados para confirmar hipótese inicial (ex: continuar fluidos apesar de ausência de resposta). - Viés de inércia clínica (therapeutic inertia)
Dificuldade em mudar estratégia, especialmente para iniciar descalonamento de fluidos. - Viés da monitoração limitada
Dependência de ferramentas disponíveis no serviço, com subutilização de métodos dinâmicos por falta de treinamento ou recursos. - Viés de generalização da evidência
Aplicação de dados de estudos populacionais em pacientes com perfis muito distintos (ex: sepse heterogênea). - Viés de “normalização fisiológica”
Busca por normalizar todos os parâmetros (PAM, débito, lactato), mesmo quando isso não se traduz em benefício clínico. - Viés da fase da doença
Não reconhecer as diferentes fases do choque (ressuscitação, otimização, estabilização, descalonamento), mantendo condutas inadequadas em cada fase. - Viés tecnológico
Supervalorização de monitorização avançada sem integração com o exame clínico.
Síntese: O maior erro não está na escolha da intervenção (fluido, vasopressor ou inotrópico), mas na falta de integração fisiológica e temporal das decisões.
Mensagens Práticas
- Nem todo paciente com choque precisa de fluido — avalie responsividade antes de expandir.
- Prefira testes dinâmicos em vez de parâmetros estáticos (PVC isolada tem baixa utilidade).
- A elevação passiva de pernas é um teste simples, reversível e altamente útil à beira-leito.
- Inicie vasopressores precocemente em hipotensão persistente — não espere “completar volume”.
- Noradrenalina é o vasopressor de primeira linha no choque séptico.
- Pressão arterial adequada não significa perfusão adequada — avalie lactato, tempo de enchimento capilar e diurese.
- Use inotrópicos apenas quando houver evidência de baixo débito ou disfunção cardíaca.
- Evite sobrecarga hídrica cumulativa — reavalie continuamente o balanço hídrico.
- Após estabilização, pense ativamente em remover fluido (fase de descalonamento).
- Diuréticos são primeira linha na maioria dos casos; ultrafiltração é opção em falência renal ou refratariedade.
- Integre macrocirculação e microcirculação no raciocínio clínico.
- O tratamento do choque deve ser dinâmico, individualizado e reavaliado continuamente.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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