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Terapia Intensiva11 abril 2026

EUROBRAZIL 2026: O valor do cateter de artéria pulmonar na TI contemporânea

O uso do cateter de artéria pulmonar (CAP) deixou de ser uma estratégia rotineira e indiscriminada para assumir um papel mais seletivo, centrado em pacientes complexos.
Por Cintia Johnston

Durante o II Congresso EuroBrazil, o Dr. Cristiano Franke conduziu o bate papo com o ilustre Dr. Daniel De Backer (Alemanha) sobre o uso do cateter de artéria pulmonar, que passa a ser direcionado a pacientes complexos. Saiba os principais tópicos abordados. 

 

Raciocínio Clínico 

O uso do cateter de artéria pulmonar (CAP) deixou de ser uma estratégia rotineira e indiscriminada para assumir um papel mais seletivo, centrado em pacientes complexos, nos quais a monitorização avançada realmente modifica decisões terapêuticas. Na terapia intensiva contemporânea, seu valor está menos em “colocar o cateter” e mais em responder perguntas clínicas específicas: qual é o débito cardíaco real, há disfunção predominante de ventrículo direito, existe hipertensão pulmonar relevante, o choque é predominantemente cardiogênico, vasoplégico ou misto, e qual é o impacto da congestão pulmonar e sistêmica sobre a perfusão? O CAP volta a ganhar espaço justamente quando a ecocardiografia isolada, a pressão venosa central ou os marcadores clínicos não conseguem explicar adequadamente a fisiopatologia do choque. 

Na prática, o CAP pode ser particularmente útil em choque cardiogênico, choque misto, insuficiência ventricular direita, hipertensão pulmonar, casos com discrepância entre sinais clínicos e dados ecocardiográficos, e em situações em que é necessário integrar oferta de oxigênio, consumo, enchimento ventricular e resistência vascular em tempo quase contínuo. Revisões recentes e documentos contemporâneos reforçam que a monitorização hemodinâmica deve ser personalizada segundo a fase do choque e a pergunta clínica em aberto, e não aplicada como protocolo universal. 

O ponto central dessa conferência é que o CAP não “voltou” como ferramenta para todos, mas foi reposicionado como instrumento de alta precisão em cenários selecionados. Em especial no choque cardiogênico, evidências observacionais e revisões sistemáticas recentes sugerem associação entre uso guiado por CAP e melhor estratificação hemodinâmica, além de possível benefício em desfechos em subgrupos, sobretudo quando o dispositivo é inserido precocemente e interpretado por equipes experientes. 

 

Limitações e Desafios 

As principais limitações permanecem relevantes: invasividade, risco de complicações mecânicas e arrítmicas, necessidade de expertise para inserção e interpretação, possibilidade de erro de leitura, além do risco de decisões equivocadas quando números isolados são analisados fora do contexto fisiológico. Outro desafio importante é que o CAP mede variáveis, mas não substitui o raciocínio clínico integrado; portanto, seu benefício depende da capacidade da equipe de transformar dados hemodinâmicos em condutas coerentes. 

 

Mensagens práticas 

  • Utilize o CAP apenas quando houver incerteza hemodinâmica relevante ou falha das ferramentas menos invasivas em esclarecer o quadro.  
  • Sempre defina uma pergunta clínica clara antes da inserção (ex: tipo de choque? disfunção de VD? necessidade de inotrópico vs vasopressor?).  
  • Interprete os dados de forma integrada: pressões (PAP, PCP), fluxo (débito cardíaco) e perfusão (SvO₂, lactato).  
  • Evite decisões baseadas em valores isolados (ex: PCP isolada não define volemia nem congestão de forma confiável).  
  • Utilize o CAP para fenotipar o choque (cardiogênico, distributivo, obstrutivo ou misto) e guiar terapias direcionadas.  
  • Em suspeita de disfunção de ventrículo direito, valorize: PAP elevada, baixo débito cardíaco e aumento da PVC relativa.  
  • Use a SvO₂ como marcador global de equilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio, mas sempre correlacione com o contexto clínico.  
  • Reavalie continuamente a necessidade do CAP e retire precocemente quando não houver mais impacto na conduta.  
  • Associe o CAP a outros métodos (especialmente ecocardiografia) para uma avaliação multimodal mais precisa.  
  • O benefício do CAP depende diretamente da expertise da equipe na interpretação dos dados — investir em treinamento é fundamental. 

 

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.

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