Durante o II Congresso EuroBrazil, o Dr. Rogério Passos conduziu o debate com a renomada Dra. Marlies Ostermann (Inglaterra), trazendo uma visão atualizada e provocativa sobre o real impacto do contraste iodado na lesão renal aguda (LRA).

Raciocínio Clínico
O conceito clássico de nefropatia induzida por contraste (CIN) vem sendo progressivamente questionado. Evidências recentes sugerem que, na maioria dos pacientes críticos, a associação entre contraste iodado e LRA é frequentemente confundida por fatores concomitantes, como sepse, hipoperfusão, uso de vasopressores e comorbidades pré-existentes.
O raciocínio clínico contemporâneo deve migrar de uma visão causal simplista para uma abordagem baseada em risco individual e contexto clínico. Estudos com grupos controle adequados demonstram que a incidência de LRA após contraste é semelhante à de pacientes não expostos, especialmente quando utilizados contrastes modernos de baixa osmolaridade.
Assim, a decisão não deve ser “evitar contraste”, mas sim avaliar risco-benefício, particularmente em cenários onde o exame é decisivo (ex: TEP, dissecção de aorta, abdome agudo). A omissão do exame pode gerar mais dano do que o potencial risco renal.
Limitações e Desafios
- Dificuldade em diferenciar causalidade vs. associação (viés de confusão)
- Alta prevalência de LRA multifatorial no paciente crítico
- Uso concomitante de nefrotóxicos (aminoglicosídeos, vancomicina, contraste repetido)
- Instabilidade hemodinâmica (principal driver de LRA)
- Falta de biomarcadores específicos para LRA induzida por contraste
- Superestimação do risco baseada em estudos antigos
- Prática defensiva levando à subutilização de exames essenciais
- Variabilidade na definição de LRA entre estudos
- Baixa adesão a estratégias de prevenção (hidratação adequada)
- Dificuldade em estratificação de risco individual em tempo real
Principais vieses na prática da UTI
- Viés de confusão (confounding bias)
Pacientes críticos frequentemente apresentam múltiplos fatores de risco para LRA (sepse, choque, drogas nefrotóxicas). O contraste é frequentemente apenas coincidente, não causal. - Viés de indicação (indication bias)
Pacientes mais graves têm maior probabilidade de receber contraste (ex: suspeita de TEP, sepse abdominal), o que superestima artificialmente o risco atribuído ao contraste. - Ausência de grupo controle adequado
Estudos antigos não comparavam pacientes expostos vs. não expostos com perfil semelhante, gerando associação espúria entre contraste e LRA. - Viés de detecção (surveillance bias)
Pacientes que recebem contraste têm creatinina monitorada com mais frequência, aumentando a chance de diagnóstico de LRA. - Definição heterogênea de LRA
Uso de diferentes critérios (RIFLE, AKIN, KDIGO) dificulta comparações e pode inflar ou subestimar incidência. - Viés temporal (temporal bias)
Elevação da creatinina após contraste pode ser atribuída ao contraste, quando na verdade reflete progressão da doença de base. - Viés de publicação
Estudos que demonstram associação positiva entre contraste e LRA foram historicamente mais publicados, reforçando um dogma não necessariamente verdadeiro. - Viés de prática defensiva
Medo de causar LRA leva à evitação do contraste, resultando em subdiagnóstico de condições graves (ex: TEP, dissecção de aorta). - Generalização inadequada (external validity bias)
Dados de pacientes estáveis (ambulatoriais ou cardiológicos) são extrapolados para pacientes críticos, o que não reflete a realidade da UTI. - Viés de intervenção concomitante
Medidas preventivas (hidratação, suspensão de nefrotóxicos) são aplicadas de forma variável, confundindo a avaliação do real impacto do contraste.
Mensagens Práticas
- A maioria dos casos de LRA pós-contraste NÃO é causada diretamente pelo contraste.
- Evitar contraste pode atrasar diagnósticos críticos e piorar desfechos.
- Avalie risco individual: DRC avançada, choque, hipovolemia.
- Otimize hemodinâmica antes do exame (perfusão renal é central).
- Hidratação adequada continua sendo a principal estratégia preventiva.
- Evite múltiplas exposições em curto intervalo, quando possível.
- Suspender nefrotóxicos, se viável, antes do contraste.
- Utilize contrastes de baixa osmolaridade (padrão atual).
- Monitorar creatinina isoladamente pode ser insuficiente – avalie contexto clínico.
- A decisão deve ser interdisciplinar (intensivista + radiologista + nefrologista).
OBS: Em 2026, o termo “nefropatia induzida por contraste” está sendo substituído por uma visão mais precisa: “LRA associada ao contraste”, reconhecendo a complexidade multifatorial do paciente crítico.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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