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Terapia Intensiva11 abril 2026

EUROBRAZIL 2026: Interação coração-rins-pulmões - o que precisa saber?

Durante o congresso, a Dra. Marlies Ostermann (Inglaterra) falou sobre este tema tão caro. Vamos saber os pontos principais abordados? 
Por Cintia Johnston

Durante o II Congresso EUROBRAZIL, o Dr Leandro Braz de Carvalho moderou a conferência da Dra. Marlies Ostermann (Inglaterra), sobre este tema tão caro. Vamos saber os pontos principais abordados? 

 

Raciocínio Clínico 

As doenças críticas infecciosas (especialmente sepse e SDRA) não devem mais ser interpretada como falência isolada de órgãos, mas sim como uma disfunção integrada de sistemas interdependentes. 

O conceito de cross-talk descreve como alterações em um órgão desencadeiam respostas fisiopatológicas em outros, criando ciclos de amplificação de lesão: 

🔹 1. Pulmão → Coração → Rim 

  • SDRA → hipóxia + aumento da pressão intratorácica  
  • ↑ pós-carga do ventrículo direito → disfunção ventricular  
  • ↓ débito cardíaco → hipoperfusão renal → LRA  

🔹 2. Rim → Pulmão 

  • Lesão renal aguda → retenção hídrica  
  • Sobrecarga volêmica → edema pulmonar → piora da complacência  
  • ↑ necessidade de suporte ventilatório  

🔹 3. Coração → Rim → Pulmão 

  • Disfunção miocárdica séptica → ↓ perfusão renal  
  • Ativação neuro-hormonal → retenção de sódio/água  
  • Congestão sistêmica → impacto pulmonar 

 

Dra. Marlies abordou e enfatizou os seguintes aspectos: 

 

  1. Monitoração integrada (não isolada)
  • Hemodinâmica + ventilatória + renal devem ser interpretadas em conjunto  
  • Exemplo:  
  • PEEP alta → impacto no retorno venoso → avaliar rim  
  1. Estratégias ventilatórias com impacto sistêmico
  • Ventilação protetora não é apenas pulmonar  
  • Evitar:  
  • Driving pressure elevada  
  • Hipercapnia extrema (impacto hemodinâmico)  
  1. Gestão de fluidos personalizada
  • Nem liberal, nem restritiva “fixa”  
  • Baseada em:  
  • Congestão (eco, VExUS)  
  • Perfusão  
  1. Integração com suporte renal
  • Timing da diálise pode influenciar:  
  • Oxigenação  
  • Ventilação  
  • Hemodinâmica  
  1. Fenotipagem do paciente crítico
  • Nem todo paciente responde igual  
  • Perfis:  
  • Hiperinflamatório  
  • Congestivo  
  • Hipodinâmico 

 

Limitações e Desafios 

  1. Complexidade fisiopatológica não linear
  • Interações entre órgãos são dinâmicas, bidirecionais e imprevisíveis  
  • Difícil estabelecer causalidade direta (quem iniciou a cascata?)  
  • Modelos simplificados muitas vezes não refletem a prática real  

 

  1. Falta de biomarcadores integrativos validados
  • Biomarcadores atuais são órgão-específicos (troponina, creatinina, PaO₂/FiO₂)  
  • Ausência de marcadores que reflitam interação sistêmica em tempo real  
  • Limitação na identificação precoce de falência multiorgânica  

 

  1. Monitoração multimodal ainda fragmentada
  • Dados ventilatórios, hemodinâmicos e renais não são integrados automaticamente  
  • Dependência de interpretação clínica manual  
  • Falta de plataformas com integração em tempo real e suporte à decisão  

 

  1. Dependência elevada de expertise clínica
  • Interpretação do cross-talk exige alto nível de conhecimento fisiológico  
  • Variabilidade entre profissionais e centros  
  • Risco de decisões inconsistentes  

 

  1. Conflito entre intervenções terapêuticas
  • Estratégias para um órgão podem prejudicar outro:  
  • PEEP alta → ↓ retorno venoso → piora renal  
  • Restrição hídrica → hipoperfusão renal  
  • Expansão volêmica → edema pulmonar  
  • Dificuldade em encontrar o equilíbrio ideal individualizado  

 

  1. Gestão de fluidos: ausência de consenso universal
  • Falta de definição clara de:  
  • “euvolemia ideal”  
  • momento ideal de remoção de fluidos  
  • Ferramentas como VExUS ainda não amplamente difundidas 

 

 

Mensagens Práticas 

 Sempre pense em sistema, não em órgão isolado: Antes de qualquer intervenção, pergunte: “qual o impacto disso nos outros órgãos?” 

 Ajuste ventilatório com olhar hemodinâmico e renal
PEEP e driving pressure devem ser tituladas considerando: 

  • retorno venoso  
  • débito cardíaco  
  • perfusão renal  

 Evite tanto a sobrecarga quanto a hipovolemia: Use avaliação dinâmica (eco, VExUS, resposta a fluidos) para guiar: 

  • expansão  
  • remoção de fluidos  

 Monitore o ventrículo direito de forma ativa
VD é o elo crítico entre pulmão e rim — disfunção precoce muda conduta 

 Integre decisões: ventilação + hemodinâmica + função renal 

Não ajuste ventilador, fluidos ou diálise de forma isolada — as melhores decisões são sempre multissistêmicas e dinâmicas 

 

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.

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Referências bibliográficas

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