Durante o II Congresso EUROBRAZIL, o Dr Leandro Braz de Carvalho moderou a conferência da Dra. Marlies Ostermann (Inglaterra), sobre este tema tão caro. Vamos saber os pontos principais abordados?
Raciocínio Clínico
As doenças críticas infecciosas (especialmente sepse e SDRA) não devem mais ser interpretada como falência isolada de órgãos, mas sim como uma disfunção integrada de sistemas interdependentes.
O conceito de cross-talk descreve como alterações em um órgão desencadeiam respostas fisiopatológicas em outros, criando ciclos de amplificação de lesão:
🔹 1. Pulmão → Coração → Rim
- SDRA → hipóxia + aumento da pressão intratorácica
- ↑ pós-carga do ventrículo direito → disfunção ventricular
- ↓ débito cardíaco → hipoperfusão renal → LRA
🔹 2. Rim → Pulmão
- Lesão renal aguda → retenção hídrica
- Sobrecarga volêmica → edema pulmonar → piora da complacência
- ↑ necessidade de suporte ventilatório
🔹 3. Coração → Rim → Pulmão
- Disfunção miocárdica séptica → ↓ perfusão renal
- Ativação neuro-hormonal → retenção de sódio/água
- Congestão sistêmica → impacto pulmonar
Dra. Marlies abordou e enfatizou os seguintes aspectos:
- Monitoração integrada (não isolada)
- Hemodinâmica + ventilatória + renal devem ser interpretadas em conjunto
- Exemplo:
- PEEP alta → impacto no retorno venoso → avaliar rim
- Estratégias ventilatórias com impacto sistêmico
- Ventilação protetora não é apenas pulmonar
- Evitar:
- Driving pressure elevada
- Hipercapnia extrema (impacto hemodinâmico)
- Gestão de fluidos personalizada
- Nem liberal, nem restritiva “fixa”
- Baseada em:
- Congestão (eco, VExUS)
- Perfusão
- Integração com suporte renal
- Timing da diálise pode influenciar:
- Oxigenação
- Ventilação
- Hemodinâmica
- Fenotipagem do paciente crítico
- Nem todo paciente responde igual
- Perfis:
- Hiperinflamatório
- Congestivo
- Hipodinâmico
Limitações e Desafios
- Complexidade fisiopatológica não linear
- Interações entre órgãos são dinâmicas, bidirecionais e imprevisíveis
- Difícil estabelecer causalidade direta (quem iniciou a cascata?)
- Modelos simplificados muitas vezes não refletem a prática real
- Falta de biomarcadores integrativos validados
- Biomarcadores atuais são órgão-específicos (troponina, creatinina, PaO₂/FiO₂)
- Ausência de marcadores que reflitam interação sistêmica em tempo real
- Limitação na identificação precoce de falência multiorgânica
- Monitoração multimodal ainda fragmentada
- Dados ventilatórios, hemodinâmicos e renais não são integrados automaticamente
- Dependência de interpretação clínica manual
- Falta de plataformas com integração em tempo real e suporte à decisão
- Dependência elevada de expertise clínica
- Interpretação do cross-talk exige alto nível de conhecimento fisiológico
- Variabilidade entre profissionais e centros
- Risco de decisões inconsistentes
- Conflito entre intervenções terapêuticas
- Estratégias para um órgão podem prejudicar outro:
- PEEP alta → ↓ retorno venoso → piora renal
- Restrição hídrica → hipoperfusão renal
- Expansão volêmica → edema pulmonar
- Dificuldade em encontrar o equilíbrio ideal individualizado
- Gestão de fluidos: ausência de consenso universal
- Falta de definição clara de:
- “euvolemia ideal”
- momento ideal de remoção de fluidos
- Ferramentas como VExUS ainda não amplamente difundidas
Mensagens Práticas
Sempre pense em sistema, não em órgão isolado: Antes de qualquer intervenção, pergunte: “qual o impacto disso nos outros órgãos?”
Ajuste ventilatório com olhar hemodinâmico e renal
PEEP e driving pressure devem ser tituladas considerando:
- retorno venoso
- débito cardíaco
- perfusão renal
Evite tanto a sobrecarga quanto a hipovolemia: Use avaliação dinâmica (eco, VExUS, resposta a fluidos) para guiar:
- expansão
- remoção de fluidos
Monitore o ventrículo direito de forma ativa
VD é o elo crítico entre pulmão e rim — disfunção precoce muda conduta
Integre decisões: ventilação + hemodinâmica + função renal
Não ajuste ventilador, fluidos ou diálise de forma isolada — as melhores decisões são sempre multissistêmicas e dinâmicas
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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