Durante o II Congresso EuroBrazil, a sessão Meet the Experts em Ventilação Mecânica foi conduzida pelas renomadas especialistas Dra. Lise Piquilloud (Suíça) e Carmen Silvia Valente Barbas (Brasil).
Saiba os principais tópicos abordados.
Raciocínio Clínico
A abordagem moderna da Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) evoluiu de um modelo uniforme para uma estratégia baseada em fenótipos clínico-fisiológicos e de imagem. O raciocínio clínico atual parte do reconhecimento de que a mesma gravidade de hipoxemia pode corresponder a pulmões com comportamentos completamente distintos em termos de recrutabilidade, complacência e resposta ao tratamento.
A integração entre imagem (TC, ultrassom pulmonar e tomografia de impedância elétrica), mecânica respiratória (driving pressure, complacência) e resposta dinâmica às intervenções (PEEP, prona, ajuste do esforço inspiratório) permite identificar subgrupos de pacientes que se beneficiam de estratégias ventilatórias distintas. Nesse contexto, a imagem deixa de ser apenas diagnóstica e passa a ser ferramenta decisiva na individualização da ventilação.
A resposta ao tratamento torna-se um elemento central na definição fenotípica. Pacientes com maior potencial de recrutamento tendem a responder melhor a PEEP mais elevado e posição prona, enquanto outros apresentam risco maior de sobredistensão e impacto hemodinâmico adverso. Durante a transição para ventilação assistida, o controle do esforço inspiratório é fundamental para evitar lesão pulmonar autoinduzida (P-SILI).
Assim, o raciocínio clínico na SDRA deve ser dinâmico, integrando fenótipo estrutural (imagem), funcional (mecânica) e resposta terapêutica, com reavaliações contínuas à beira do leito.
Limitações e Desafios
A aplicação prática dos fenótipos ainda enfrenta limitações importantes. Muitos modelos fenotípicos possuem maior valor prognóstico do que utilidade terapêutica imediata. A disponibilidade limitada de ferramentas avançadas de imagem em tempo real, a dificuldade em diferenciar recrutamento de hiperinsuflação e a variabilidade na interpretação dos achados são desafios frequentes.
As decisões baseadas apenas em melhora da oxigenação podem ser enganosas, não refletindo necessariamente ventilação mais protetora. A integração entre dados fisiológicos e clínicos ainda depende fortemente da experiência da equipe, e a implementação de estratégias personalizadas pode ser limitada por recursos e treinamento.
Vises na Prática Clínica em UTI
- Viés de ancoragem
Tendência de manter a primeira impressão diagnóstica (ex: “SDRA grave = PEEP alto para todos”), sem reavaliar conforme evolução clínica e resposta ao tratamento. - Viés de confirmação
Buscar apenas dados que confirmem a estratégia adotada (ex: valorizar melhora da oxigenação e ignorar aumento de driving pressure ou impacto hemodinâmico). - Viés de simplificação excessiva
Reduzir decisões complexas a um único parâmetro (ex: usar apenas PaO2/FiO2 para guiar ventilação), desconsiderando mecânica pulmonar e imagem. - Viés de disponibilidade
Basear decisões em experiências recentes ou casos marcantes (ex: aplicar prona ou PEEP alto porque “funcionou no último paciente”), sem considerar variabilidade fenotípica. - Viés de intervenção (action bias)
Tendência a intervir mais do que o necessário (ex: aumentar PEEP ou sedação sem indicação clara), ao invés de uma abordagem fisiológica e individualizada.
Mensagens Práticas
- A PaO2/FiO2 isoladamente não define a melhor estratégia ventilatória.
- Sempre integrar imagem, mecânica pulmonar e resposta ao tratamento.
- Nem todo pulmão recrutável se beneficia de PEEP elevado — individualize.
- Melhora da oxigenação não garante menor lesão pulmonar.
- Utilize ferramentas bedside (US pulmonar, EIT) sempre que disponíveis.
- Prona deve ser considerada precocemente em fenótipos recrutáveis.
- Monitorar driving pressure é essencial para ventilação protetora.
- Avaliar continuamente o impacto hemodinâmico das estratégias ventilatórias.
- Na ventilação assistida, controlar esforço inspiratório para evitar P-SILI.
- Reavaliar frequentemente: o fenótipo pode mudar ao longo da evolução.
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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