Logotipo Afya
Anúncio
Terapia Intensiva13 abril 2026

EUROBRAZIL 2026: Disfunção da Musculatura Respiratória: como detectar e manejar?

Disfunção diafragmática na UTI impacta desfechos. Veja como monitorar e ajustar ventilação para proteger pulmão e diafragma.
Por Cintia Johnston

Durante o II Congresso EUROBRAZIL, o Dr. Israel Silva Maia conduziu o bate papo com especialista com a expert Dra. Lise Psdiquilloud (Suiça). Saiba os principais tópicos abordados. 

disfunção da musculatura respiratória

Raciocínio Clínico 

A disfunção da musculatura respiratória é um determinante crítico de desfechos na UTI, frequentemente subdiagnosticada e multifatorial. O raciocínio clínico atual parte do reconhecimento de que tanto a fraqueza diafragmática quanto a disfunção global dos músculos respiratórios podem surgir precocemente, especialmente em pacientes sob ventilação mecânica invasiva. 

A avaliação deve ser ativa e multimodal, combinando: 

  • sinais clínicos (taquipneia, uso de musculatura acessória, respiração paradoxal),  
  • parâmetros ventilatórios (queda de volume corrente espontâneo, aumento de drive respiratório),  
  • e ferramentas objetivas como ultrassom diafragmático, pressão inspiratória máxima (PImáx) e índices derivados.  

O conceito central é o equilíbrio entre carga e capacidade muscular: a falha ocorre quando a carga imposta ao sistema respiratório excede a capacidade dos músculos em sustentá-la. Nesse contexto, tanto o excesso de suporte ventilatório (levando à atrofia diafragmática – ventilator-induced diaphragmatic dysfunction) quanto a carga excessiva (fadiga) são deletérios. 

O manejo exige uma abordagem dinâmica e individualizada: 

  • otimização do suporte ventilatório para evitar over- ou under-assistance,  
  • estratégias de ventilação assistida precoce,  
  • mobilização precoce e treinamento muscular respiratório,  
  • e integração com o manejo de sedação, nutrição e estado inflamatório.  

Assim, o foco não é apenas tratar a falência ventilatória, mas preservar e recuperar a função muscular respiratória como órgão vital na UTI. 

Principais vieses na prática da terapia intensiva 

Na terapia intensiva, a disfunção da musculatura respiratória é frequentemente influenciada por vieses que impactam o desmame ventilatório. Destaca-se o viés de foco pulmonar, com priorização da oxigenação em detrimento da função diafragmática, e o viés de normalidade, em que parâmetros ventilatórios aparentemente adequados mascaram esforço ou fadiga. A sobreassistência ventilatória contribui para atrofia muscular, enquanto a subassistência pode precipitar falha no desmame. A sedação excessiva dificulta a avaliação do drive respiratório, e o viés tecnológico leva à dependência de monitores, com pouca integração clínica. 

Além disso, o viés de confirmação e a inércia clínica retardam decisões como o início do desmame, enquanto a fragmentação do cuidado compromete a avaliação global do paciente. O uso isolado de variáveis, a falta de reavaliação dinâmica e a extrapolação de dados de adultos para pediatria/neonatologia também são limitações relevantes. Nesse contexto, o principal desafio é integrar avaliação clínica e fisiológica de forma contínua, centrada no equilíbrio entre carga e capacidade muscular. 

Limitações e Desafios 

Ausência de padrão-ouro para diagnóstico à beira leito  

Variabilidade na interpretação do ultrassom diafragmático  

Baixa disponibilidade de métodos objetivos em muitos centros  

Influência da sedação e do drive neural na avaliação funcional  

Dificuldade em diferenciar fraqueza muscular vs carga excessiva  

Falta de protocolos padronizados de monitoração  

Heterogeneidade dos pacientes críticos (sepse, SDRA, neurológicos)  

Tempo limitado e capacitação da equipe  

  Integração ainda limitada com estratégias de desmame ventilatório  

Escassez de evidência robusta para intervenções específicas 

Mensagens Práticas 

Sempre suspeite de disfunção muscular em pacientes com dificuldade de desmame  

Avalie o diafragma precocemente (idealmente nas primeiras 48–72h de VM)  

Evite ventilação excessivamente controlada por longos períodos  

Prefira modos assistidos quando clinicamente possível  

Monitore sinais de esforço respiratório excessivo  

Use o ultrassom como ferramenta complementar, não isolada  

Integre avaliação muscular ao protocolo de desmame  

Reduza sedação sempre que seguro  

Considere treinamento muscular respiratório em pacientes selecionados  

Otimize estado nutricional (impacto direto na força muscular)  

Reavalie diariamente o balanço carga vs capacidade  

Lembre-se: disfunção muscular é potencialmente reversível 

Autoria

Foto de Cintia Johnston

Cintia Johnston

Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Terapia Intensiva