Durante o II Congresso EUROBRAZIL, o Dr. Israel Silva Maia conduziu o bate papo com especialista com a expert Dra. Lise Psdiquilloud (Suiça). Saiba os principais tópicos abordados.

Raciocínio Clínico
A disfunção da musculatura respiratória é um determinante crítico de desfechos na UTI, frequentemente subdiagnosticada e multifatorial. O raciocínio clínico atual parte do reconhecimento de que tanto a fraqueza diafragmática quanto a disfunção global dos músculos respiratórios podem surgir precocemente, especialmente em pacientes sob ventilação mecânica invasiva.
A avaliação deve ser ativa e multimodal, combinando:
- sinais clínicos (taquipneia, uso de musculatura acessória, respiração paradoxal),
- parâmetros ventilatórios (queda de volume corrente espontâneo, aumento de drive respiratório),
- e ferramentas objetivas como ultrassom diafragmático, pressão inspiratória máxima (PImáx) e índices derivados.
O conceito central é o equilíbrio entre carga e capacidade muscular: a falha ocorre quando a carga imposta ao sistema respiratório excede a capacidade dos músculos em sustentá-la. Nesse contexto, tanto o excesso de suporte ventilatório (levando à atrofia diafragmática – ventilator-induced diaphragmatic dysfunction) quanto a carga excessiva (fadiga) são deletérios.
O manejo exige uma abordagem dinâmica e individualizada:
- otimização do suporte ventilatório para evitar over- ou under-assistance,
- estratégias de ventilação assistida precoce,
- mobilização precoce e treinamento muscular respiratório,
- e integração com o manejo de sedação, nutrição e estado inflamatório.
Assim, o foco não é apenas tratar a falência ventilatória, mas preservar e recuperar a função muscular respiratória como órgão vital na UTI.
Principais vieses na prática da terapia intensiva
Na terapia intensiva, a disfunção da musculatura respiratória é frequentemente influenciada por vieses que impactam o desmame ventilatório. Destaca-se o viés de foco pulmonar, com priorização da oxigenação em detrimento da função diafragmática, e o viés de normalidade, em que parâmetros ventilatórios aparentemente adequados mascaram esforço ou fadiga. A sobreassistência ventilatória contribui para atrofia muscular, enquanto a subassistência pode precipitar falha no desmame. A sedação excessiva dificulta a avaliação do drive respiratório, e o viés tecnológico leva à dependência de monitores, com pouca integração clínica.
Além disso, o viés de confirmação e a inércia clínica retardam decisões como o início do desmame, enquanto a fragmentação do cuidado compromete a avaliação global do paciente. O uso isolado de variáveis, a falta de reavaliação dinâmica e a extrapolação de dados de adultos para pediatria/neonatologia também são limitações relevantes. Nesse contexto, o principal desafio é integrar avaliação clínica e fisiológica de forma contínua, centrada no equilíbrio entre carga e capacidade muscular.
Limitações e Desafios
Ausência de padrão-ouro para diagnóstico à beira leito
Variabilidade na interpretação do ultrassom diafragmático
Baixa disponibilidade de métodos objetivos em muitos centros
Influência da sedação e do drive neural na avaliação funcional
Dificuldade em diferenciar fraqueza muscular vs carga excessiva
Falta de protocolos padronizados de monitoração
Heterogeneidade dos pacientes críticos (sepse, SDRA, neurológicos)
Tempo limitado e capacitação da equipe
Integração ainda limitada com estratégias de desmame ventilatório
Escassez de evidência robusta para intervenções específicas
Mensagens Práticas
Sempre suspeite de disfunção muscular em pacientes com dificuldade de desmame
Avalie o diafragma precocemente (idealmente nas primeiras 48–72h de VM)
Evite ventilação excessivamente controlada por longos períodos
Prefira modos assistidos quando clinicamente possível
Monitore sinais de esforço respiratório excessivo
Use o ultrassom como ferramenta complementar, não isolada
Integre avaliação muscular ao protocolo de desmame
Reduza sedação sempre que seguro
Considere treinamento muscular respiratório em pacientes selecionados
Otimize estado nutricional (impacto direto na força muscular)
Reavalie diariamente o balanço carga vs capacidade
Lembre-se: disfunção muscular é potencialmente reversível
Autoria
Cintia Johnston
Fisioterapeuta Intensivista, PhD; Pós-doutora em Pneumologia, UNIFESP/EPM; Coordenadora da Pos-graduacao em Medicina Intensiva PedNEO- Afya.
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