Biomarcadores podem ser úteis em definir casos e no gerenciamento de antibióticos. Exemplos: procalcitonina, proteína C reativa, pré-sepsina e neutrófilos CD 64. A performance diagnóstica dos scores parece ser pior também em países pobres do que países ricos, com redução de cerca de 10% na acurácia. Vários autores têm estudado modelos de machine learning com inteligência artificial para reunir diversos dados do prontuário do paciente e melhorar a performance dos scores de triagem. Esta estratégia pode elevar a área sob a curva ROC acima de 0,90. O problema desses modelos é que não há ainda validação externa e cada modelo foi aplicado em hospital ou sistema diferentes, o que de certa maneira inviabiliza a aplicação em larga escala.
Os biomarcadores tem uma acurácia diagnóstica boa e alguns deles se elevam no sangue de maneira precoce após a exposição a bactérias ou fungos. O problema é que em determinadas infecções que causam sepse como fungos e parasitas e algumas dessas substâncias também podem elevar, como a proteína C reativa e procalcitonina, e isso desfavorece a definição de casos. A conclusão dos autores é que o futuro parece ser uma triagem de sinais vitais e sinais clínicos, aliado a valores de medidas de biomarcadores e sequenciamento e suporte à decisão clínica baseada em aperfeiçoamento de modelos por inteligência artificial. A questão é se isso seria aplicado de maneira global ou se teria que ser aplicado a nível local, gerando uma limitação importante para países de menor renda.
Testes moleculares rápidos também são bastante promissores como pcr para vírus, bactérias e fungos presentes no sangue. A sensibilidade destes giram em torno de 50 a 60% e a intervenção pode mudar o esquema antimicrobiano em dois a cada três pacientes. Isso poderia evitar o uso indiscriminado de antibióticos e reduzir custos também. No entanto, as evidências provenientes desses testes moleculares são de centros únicos e de países ricos.
Em relação ao manuseio da sepse, o pacote de uma hora (que inclui a administração de antibiótico, a coleta de cultura e de sangue e lactato e a administração de cristaloides 30 ml por quilo, além da avaliação do uso de vasopressor) é a base dos protocolos de sepse. As taxas de aderência aos pacotes variam em torno de 50%, mesmo em países ricos. O controle do foco também é parte importante, principalmente nas sepses de origem abdominal urológica ou de pele e partes moles.
Os hospitais com sistemas eletrônicos de prontuário e sistemas de alerta de CFC têm tempos mais curtos até a administração de antibiótico, que são em torno de 50 minutos e isto está associado a menor taxa de progressão para choque séptico. No entanto, os sistemas eletrônicos também podem gerar alarmes falsos positivos e fadiga de alertas. A infraestrutura do setor de emergência, a carga de trabalho aumentada, os gargalos para realizar exames laboratoriais e a disponibilidade de antibióticos e vasopressores podem também influenciar o impacto global da sepse. Em áreas rurais ou distantes dos centros de referência, pode haver atraso no transporte, incertezas do diagnóstico e espera prolongada do referenciamento. Estes aspectos são críticos principalmente em países de menor renda.
Administração de antibiótico em 1 hora é o processo mais importante do protocolo de sepse; para cada hora de atraso na administração do antimicrobiano a aumento de 6% de mortalidade. A escolha correta do antimicrobiano também é fundamental para o sucesso do tratamento; recomendações de acordo com o provável sítio de infecção devem estar prontas para consulta do médico no momento da prescrição. Estes 2 tópicos são quase sempre debatidos separadamente, no entanto, o atraso na administração de antibiótico causa menos impacto na mortalidade do que a escolha errada do primeiro esquema antibiótico. Por outro lado, o descalonamento de antibióticos é possível em quase dois terços dos casos de sepse, sem alterar a evolução da disfunção orgânica e da mortalidade e também pode reduzir o tempo de permanência. Existem dados que a intervenção de gerenciamento de antibióticos aliada ao protocolo de sepse pode reduzir em torno de 20% o uso de carbapenêmico e produzir um pequeno mas significativo impacto de 4% na redução de mortalidade.
O suporte a disfunções orgânicas como o uso de noradrenalina, como vasopressor principal, a estratégia protetora de ventilação mecânica e a terapia de substituição renal são extremamente importantes para controlar a mortalidade do choque séptico. Países mais pobres podem ter dificuldade de acesso a este suporte de disfunção orgânica E isto influencia também na maior mortalidade nestes países.
Os autores compararam as diretrizes de sobrevivência à sepse (SSC), a diretriz britânica (NICE) e as diretrizes da OMS. Há significativa congruência entre os princípios de reconhecimento precoce, administração rápida de antibióticos e a reposição de fluidos. Mas existe divergência nos aspectos de implementação de protocolos e liberdade operacional, principalmente nas definições de casos e nas diferenças de manuseio de casos em crianças e paciente grávidas.
Existem consequências físicas como fadiga crônica e fraqueza muscular, além de sequelas cognitivas, como disfunção de memória e execução e sequelas psicológicas como ansiedade, depressão e desordem de estresse, pós traumático. Cerca de 25%, dois sobreviventes de CFC morrem dentro de um ano após o primeiro episódio. Isso tudo causa uma maior taxa de readmissões, além de impactos econômicos e sociais, especialmente nos países mais pobres.
Para superar as desigualdades globais, os autores propõem um paradigma baseado em cinco pilares sistêmicos:
Reconhecimento: Depende da integração de sistemas (força de trabalho e triagem) e não apenas de ferramentas isoladas.
Diagnóstico: O valor real de tecnologias avançadas é condicionado pela prontidão da infraestrutura local.
Processos: A eficiência do fluxo de trabalho operacional é mais determinante para o cuidado oportuno do que o protocolo teórico.
Gerenciamento de antibióticos: A eficácia do controle antimicrobiano depende de ciclos institucionais de feedback e monitoramento.
Capacidade do Sistema: A sobrevivência máxima é, em última análise, limitada por fatores estruturais, como acesso a UTIs, fornecimento de oxigênio e a qualidade do cuidado materno-neonatal.
Mensagens para o dia-a-dia:
A sepse é uma condição essencialmente sistêmica, cujas soluções exigem a harmonização de práticas baseadas em evidências com a resiliência dos sistemas de saúde locais;
Ferramentas de reconhecimento tradicionais, como qSOFA e SIRS, apresentam desempenho variável dependendo do contexto clínico e do cenário de recursos. Embora biomarcadores (ex: PCT, CD64) e tecnologias emergentes (IA, sequenciamento metagenômico/mNGS) melhorem a detecção, sua adoção é limitada por custos e infraestrutura;
Parece haver dois “mundos” no diagnóstico e tratamento da Sepse: o mundo rico, onde há desenvolvimento e redução da carga de doença e mortalidade, e outro mundo pobre, onde as estatísticas parecem estar congeladas há 30 anos.
Autoria

André Japiassú
Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.
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