Você recebe um paciente em choque séptico. Após volume inicial, a pressão melhora, o lactato segue elevado, mas a perfusão periférica normalizou.
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Esse cenário, frequente na prática, resume a principal mudança trazida pelas diretrizes ESICM: o manejo do choque deixa de ser guiado por metas isoladas e passa a ser orientado pela perfusão tecidual real.
Choque além da pressão arterial
A definição atual enfatiza falência circulatória com inadequada oferta e/ou utilização de oxigênio pelos tecidos. Na prática, isso rompe com a lógica tradicional de tratar pressão arterial como principal alvo.
Pacientes podem manter PAM adequada e ainda apresentar hipoperfusão significativa, especialmente em contextos de disfunção microcirculatória. O inverso também ocorre, reforçando que pressão não é sinônimo de perfusão.
Perfusão periférica versus lactato: o conflito clínico real
O tempo de enchimento capilar (TEC) retorna como ferramenta central de monitorização seriada, refletindo alterações de perfusão em tempo quase imediato.
O estudo ANDROMEDA-SHOCK ilustra bem essa mudança. Pacientes guiados por perfusão periférica apresentaram tendência a menor mortalidade em 28 dias (34,9% vs 43,4%), além de menor exposição a fluidos e intervenções.
O lactato, por outro lado, apresenta cinética mais lenta e sofre influência de múltiplos fatores não diretamente relacionados à perfusão.
Na prática, isso exige mudança de postura:[Quebra da Disposição de Texto]lactato elevado isolado não define hipoperfusão ativa, e sua persistência não deve levar automaticamente à intensificação da ressuscitação se a perfusão periférica estiver adequada.
Responsividade a fluidos: a pergunta que define a conduta
Após a ressuscitação inicial, apenas cerca de metade dos pacientes permanece responsiva a fluidos.
Isso muda completamente a lógica de decisão. A questão deixa de ser “o paciente está hipotenso?” e passa a ser “o débito cardíaco ainda pode aumentar com volume?”.
Se a resposta for negativa, a expansão volêmica deixa de ser terapêutica e passa a ser potencialmente deletéria.
O limite da ressuscitação: fluido também causa dano
A sobrecarga hídrica associa-se a piores desfechos, incluindo maior tempo de ventilação mecânica e disfunção orgânica.
Sinais de congestão — como piora da oxigenação, aumento de pressões de enchimento e congestão venosa — indicam que o limite fisiológico foi atingido, mesmo na presença de instabilidade hemodinâmica.
Esse é um dos pontos mais críticos na prática: reconhecer quando parar.
Ecocardiografia e débito cardíaco: definir o fenótipo do choque
A ecocardiografia à beira-leito se consolida como ferramenta essencial na avaliação inicial.
A identificação do mecanismo predominante — vasoplegia, disfunção ventricular esquerda, falência de ventrículo direito ou estado hiperdinâmico — direciona diretamente a terapia.
A monitorização do débito cardíaco, quando utilizada, deve servir à interpretação fisiológica e não à busca de valores isolados.
Pressão arterial: alvo dentro do contexto clínico
A meta inicial de PAM entre 65 e 70 mmHg permanece como referência, mas deve ser individualizada.
Pacientes com hipertensão crônica ou sinais persistentes de hipoperfusão podem necessitar de alvos mais elevados, reforçando que a pressão arterial é meio, não fim.
Algoritmo clínico implícito no manejo
Após a ressuscitação inicial, o paciente deve ser reavaliado quanto à perfusão. A presença de hipoperfusão direciona a avaliação de responsividade a fluidos. Se houver potencial de resposta, a expansão é realizada com cautela e reavaliação contínua. Na ausência de responsividade, a estratégia deve migrar para suporte vasopressor ou inotrópico, guiado pela avaliação hemodinâmica e ecocardiográfica.
O lactato é acompanhado como marcador complementar. Sua persistência isolada não justifica escalada terapêutica se a perfusão estiver adequada. Por outro lado, sinais clínicos de hipoperfusão devem prevalecer sobre parâmetros laboratoriais.
Esse ciclo de intervenção e reavaliação contínua caracteriza o modelo atual de manejo do choque.
Implicações práticas
As diretrizes ESICM 2025 consolidam uma mudança de paradigma: o manejo do choque deixa de ser baseado em metas fixas e passa a ser guiado por fisiologia.
Na prática, isso implica abandonar a expansão volêmica indiscriminada, interpretar o lactato com cautela e valorizar marcadores clínicos de perfusão como guias centrais da ressuscitação.
Autoria

Daniela Cristina Cardoso Lima Estrella
Possui graduação em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (2019). Tem experiência na área de Medicina, com ênfase em Clínica Médica, Dermatologia Sanitária e Cirúrgica e Medicina de Emergência.
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