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Terapia Intensiva19 maio 2026

Desenvolvimento de protocolo para equipes multidisciplinares de acesso vascular

Consenso propõe protocolo para acesso vascular difícil com uso da escala A-DIVA e equipes multidisciplinares.

A trajetória de um paciente internado geralmente envolve a necessidade de acesso vascular. São cerca de 90% das hospitalizações que vão precisar de alguma medicação venosa. E 26% destes pacientes podem experimentar várias tentativas de acesso vascular, seja periférico ou profundo. As várias tentativas frustradas de acesso vascular implica em mais complicações, aumentos dos custos e queda na satisfação do paciente. Alguns estudos apontam que são de 2 a 8 tentativas de punção venosa antes da inserção correta de um acesso venoso periférico em cerca de 20% de pacientes adultos hospitalizados. 

Em Portugal, a sociedade de enfermagem fez uma reunião de consenso em 2016 para tentar estabelecer um consenso para o acesso vascular. A taxa de mais de 4 tentativas de cateterização venosa periférica, sendo 2 delas pelo mesmo profissional de saúde, foi apontada como um limite razoável, e a insistência no acesso pelo mesmo profissional pode causar dor e demora no tratamento que pode até limitar acessos vasculares futuros naquele mesmo local. Nesta mesma época foi sugerida a criação de times de acesso vascular com o objetivo de melhorar a taxa de sucesso, reduzir complicações e aumentar a satisfação do paciente e dos profissionais de saúde. 

equipe multidisciplinar de acesso vascular

Métodos: 

O estudo seguiu duas etapas principais: 

  • Fase Qualitativa: Realizou-se uma análise de conteúdo com 20 profissionais (18 enfermeiros e 2 médicos) para identificar a necessidade de um protocolo estruturado, incluindo critérios de seleção de dispositivos e de ativação da equipe. 
  • Fase Quantitativa (Delphi): Um painel de 20 especialistas em acesso vascular guiado por ultrassom validou as intervenções propostas, alcançando 100% de consenso. 

A escala **A-DIVA** (*Adult Difficult Intravenous Access*) é uma ferramenta clínica utilizada para prever a probabilidade de **acesso venoso periférico difícil em pacientes adultos**. Ela pontua cinco fatores de risco específicos durante a avaliação inicial. 

Escala A-DIVA: 

  1. Palpabilidadeda veia: A veia alvo não é palpável (1 ponto) 
  2. Visibilidadeda veia: A veia alvo não é visível (1 ponto) 
  3. Histórico deacessodifícil: O paciente tem um histórico conhecido ou relatado de acessos venosos difíceis (1 ponto) 
  4. Diâmetroda veia: O diâmetro da veia alvo é menor que 2 milímetros (1 ponto) 
  5. Indicaçãoclínica de urgência: O acesso é necessário para uma situação de emergência ou urgência médica (1 ponto) 

Classificação de Risco (Pontuação Total) 

0 a 1 ponto: Baixo Risco – alta taxa de sucesso na primeira tentativa. Procedimento padrão. 

2 a 3 pontos: Médio Risco – risco moderado de falha. Considerar a escolha criteriosa do profissional ou uso de calor local para vasodilatação. 

4 a 5 pontos: Alto Risco – probabilidade de insucesso na punção às cegas. Recomenda-se fortemente o uso de ultrassonografia ou a chamada de um profissional especialista em acessos vasculares desde a primeira tentativa. 

Protocolo e Fluxograma de Ação: 

O protocolo validado culminou em fluxograma de decisão clínica: 

  • Avaliação de AVD: Utilização da escala Modified A-DIVA para identificar precocemente pacientes com risco de acesso difícil. 
  • Critérios de Ativação: Estabeleceu-se o limite máximo de duas tentativas de punção pelo enfermeiro responsável antes da solicitação da EMAV. 
  • Seleção de Dispositivos: Baseada nas características do paciente, preferências, duração da terapia e características da perfusão (osmolaridade e pH). 
  • Acesso Periférico (PVC ou Midline): Para terapias < 1 semana (PVC) ou entre 1 e 4 semanas (Midline), com osmolaridade < 600 mOsm/L e pH entre 5-9. 
  • Acesso Central (PICC ou CVC): Indicado para terapias > 4 semanas, ou soluções com características vesicantes/irritantes, pH < 5 ou > 9 e osmolaridade > 600 mOsm/L. 

O estudo tem duas fases, sendo a primeira de aspecto qualitativo, no qual fez-se um painel de profissionais com 18 enfermeiros e 2 médicos que responderam questionários estruturados, e a segunda fase que serviu para a validar as intervenções baseadas no protocolo segundo consenso para um time de acesso vascular multidisciplinar. Esses profissionais que participaram do estudo tiveram treinamento de acesso vascular guiado por ultrassom e tinham experiência profissional na inserção e manutenção destes dispositivos, especialmente PICC e midline.  

A fase qualitativa tinha três objetivos: benefícios da implementação do time de acesso vascular, critérios para ativação deste time e as ações de protocolo a serem cumpridas.  

Primeiramente, os benefícios claros era de menor quantidade de funções e de complicações, aumento da satisfação do paciente e redução do tempo de permanência. O segundo objetivo era a classificação dos pacientes, segundo um escore de risco de acesso venoso difícil. E o terceiro objetivo estabelecimento de uma uma taxa máxima de tentativas de punção e aplicação de uma escala A-DIVA, assim como as características e duração do tratamento e preferências e características dos pacientes também. 

Os profissionais de saúde concordaram que cada profissional deveria tentar no máximo 2 vezes o acesso venoso periférico. E isto seria um critério para chamar o time de acesso vascular. O estudo tem um algoritmo interessante para a decisão de escolha de qual tipo de acesso vascular vai ser usado em cada paciente.

As características da perfusão e preferência do paciente, características dos pacientes e características dos cateteres, influenciam se o acesso vascular vai ser periférico ou central. Medicamentos com pH entre 5 e 9, menor osmolaridade e nutrição periférica de baixa osmolaridade são passíveis de serem fundidos em acessos periféricos. Do contrário, será necessário o acesso profundo.  

Drogas, vasoativas e sedativos também são preferencialmente infundidos em acessos profundos, principalmente se a infusão vai durar mais de 4 a 6 horas.  

O passo seguinte é aplicar a escala A-DIVA: se a escala é de 0 a 1 ponto, deve se proceder ao cateter venoso periférico, principalmente se a medicação que vai entrar pela veia vai ter uma duração de menos de 1 semana. Se o paciente tem a escala A-DIVA maior igual a 2 pontos, é interessante chamar o time de acesso vascular. Se a duração da terapêutica for menor que 1 semana ainda, o acesso venoso periférico pode ser guiado por ultrassom. Mas a duração do tratamento é de 1 a 4 semanas, uma boa opção é midline. E ae a duração do terapia passa de 1 mês, a melhor opção passa a ser o cateter venoso central de inserção periférica (PICC).  

O protocolo final ficou descrito da seguinte maneira:  

  1. A criação do time de acesso vascular é interessante para melhorar a taxa de complicações e a satisfação de pacientes e profissionais de saúde: 
  1. Uso da escala A-DIVA modificada para detecção precoce de um acesso difícil: 
  1. Número máximo de tentativas de duas punções venosa periféricas antes da ativação do time de acesso vascular; 
  1. Seleção do acesso vascular segundo características dos pacientes, preferências, duração de tratamento e tipo de medicação a ser aplicada.  

Conclusões: 

  • A implementação de equipes multidisciplinares de acesso vascular (EMAV) é recomendada para padronizar a inserção, gestão e monitorização de dispositivos vasculares. 
  • A prática atual frequentemente enfrenta falhas na inserção de cateteres venosos periféricos, especialmente em pacientes com acesso venoso difícil (AVD), resultando em dor, aumento de custos, complicações e uso excessivo de tentativas de punção. 
  • O protocolo apresentado contribui para a padronização do cuidado, preservação do capital venoso e eficiência de recursos. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.

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Referências bibliográficas

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