O artigo apresenta um relato de caso clínico que evidencia um risco pouco discutido, porém relevante, no contexto da cirurgia plástica: a ocorrência de queimaduras após abdominoplastia em pacientes com alterações sensoriais pós-operatórias.
A abdominoplastia é um procedimento amplamente realizado, indicado para correção de flacidez cutânea, diástase muscular e remodelamento corporal. Apesar de sua segurança global, complicações neurológicas, especialmente relacionadas à lesão de nervos cutâneos, podem ocorrer e resultar em alterações significativas da sensibilidade abdominal.

Caso clínico de queimadura tardia após lipoabdominoplastia
O caso descrito refere-se a uma paciente de 34 anos que apresentou queimadura grave na região infraumbilical dois anos após a realização de lipoabdominoplastia.
A lesão foi provocada pelo uso de bolsa de água quente para alívio de dor menstrual, sendo agravada pela ausência de percepção térmica local decorrente de lesão nervosa pós-cirúrgica.
A paciente não identificou o dano no momento da exposição ao calor, o que permitiu a progressão da lesão até o aparecimento de eritema e bolhas. Posteriormente, foi necessário tratamento com desbridamento cirúrgico e curativos específicos, com cicatrização por segunda intenção após aproximadamente 30 dias.
Alterações sensoriais após abdominoplastia e risco térmico
Do ponto de vista fisiopatológico, o artigo destaca que a abdominoplastia envolve descolamento do retalho abdominal e manipulação extensa dos tecidos, o que pode comprometer a inervação cutânea, especialmente dos nervos intercostais, ilio-hipogástrico e ilioinguinal.
A lesão nervosa pode ocorrer por mecanismos diretos, como secção durante a incisão cirúrgica, ou indiretos, como compressão e fibrose cicatricial.
Como consequência, pode haver redução ou perda da sensibilidade térmica, tátil e dolorosa, sobretudo na região infraumbilical, tornando essa área particularmente vulnerável a lesões térmicas.
Bolsas de água quente e mecanismos de lesão térmica
O estudo também aborda os mecanismos de lesão térmica, ressaltando que dispositivos aparentemente inofensivos, como bolsas de água quente, podem atingir temperaturas superiores a 50 °C por períodos prolongados, suficientes para causar queimaduras de primeiro e segundo graus em poucos minutos.
Em condições normais, a integridade do sistema nervoso cutâneo permite a percepção precoce do calor excessivo. Entretanto, em pacientes com hipoestesia pós-operatória, essa resposta protetora encontra-se prejudicada, favorecendo a ocorrência de lesões inadvertidas.
Recuperação sensorial pode ser incompleta
O artigo revisa a literatura sobre recuperação sensorial após abdominoplastia, demonstrando que, embora exista tendência à recuperação parcial ao longo de 6 a 12 meses, a restituição completa da sensibilidade não é garantida.
A recuperação segue um padrão progressivo, com retorno inicial da sensibilidade dolorosa, seguida da tátil e, por último, da térmica — justamente a mais relevante na prevenção de queimaduras.
Dessa forma, áreas com hipoestesia persistente permanecem suscetíveis a danos térmicos mesmo em fases tardias do pós-operatório.
Educação do paciente como estratégia de prevenção
A discussão enfatiza que casos semelhantes já foram descritos na literatura, embora ainda sejam pouco frequentes, o que sugere subnotificação ou baixa percepção clínica do problema.
Esses relatos reforçam a necessidade de orientação adequada dos pacientes quanto aos riscos associados ao uso de fontes de calor, especialmente no período pós-operatório.
A educação do paciente emerge, portanto, como elemento central na prevenção de queimaduras após abdominoplastia e de outras complicações relacionadas à perda de sensibilidade cutânea.
Mensagens para a prática clínica
A abdominoplastia, embora eficaz e amplamente realizada, pode acarretar alterações sensoriais com implicações clínicas importantes.
A prevenção de queimaduras em áreas dessensibilizadas depende diretamente da conscientização do paciente e do acompanhamento médico adequado.
A orientação pré e pós-operatória deve incluir recomendações específicas quanto à evitação de fontes térmicas e à adaptação de hábitos cotidianos, visando reduzir o risco de lesões potencialmente graves e melhorar os desfechos clínicos.
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Autoria

Hiago Bastos
Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI. Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos. Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium). Especialista em ECMO pela ELSO. Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017. Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA). Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.
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