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Terapia Intensiva13 julho 2026

Bicarbonato de sódio não influencia desfechos no choque com acidose metabólica

Ensaio SODa-BIC mostra que bicarbonato precoce na acidose metabólica do choque não reduz eventos renais graves nem mortalidade.

A acidose metabólica é comum nos pacientes com choque. O tipo de choque que mais se associa à presença de acidose metabólica é o séptico. A acidose pode prejudicar a resposta a aminas vasopressoras e dificultar a contratilidade cardíaca, além de predispor a necessidade de hemodiálise. A grave acidose metabólica também está associada à mortalidade. De forma empírica, seria correto afirmar que o tratamento da acidose pode influenciar na recuperação renal e do choque. Alguns estudos mostraram que a correção da acidose pode reduzir a necessidade de terapia substitutiva renal, mas a influência na mortalidade é incerta. O tratamento da acidose metabólica é realizado comumente com infusão de bicarbonato de sódio, que por sua vez pode levar a efeitos colaterais como acidose respiratória e distúrbios eletrolíticos (disnatremia, hipocalemia). 

A intenção dos autores foi tratar acidose metabólica de maneira precoce no choque em pacientes graves no CTI. E utilizaram para isso, um patamar de pH de 7,30, que é habitualmente um pouco maior do que outros estudos mais antigos, nos quais o limiar era 7,20.  

Métodos: 

O SODa-BIC foi um ensaio clínico duplo-cego e randomizado, que avaliou se a administração de bicarbonato de sódio, em comparação com placebo (glicose a 5%), reduziria o risco de eventos renais adversos graves em adultos internados em UTI que recebiam vasopressores para tratar hipotensão. 

A inclusão do estudo foi feita com pacientes adultos com vasopressores para tratar hipotensão, acidose metabólica com pH menor que 7,30 e excesso de bases até -4 mmol/l e ausência de acidose respiratória. Eles excluíram pacientes que tinham acidose primariamente por outras causas como diabetes, perda de bicarbonato por diarreia ou drenagem gástrica, insuficiência renal crônica não tratada descompensada e algumas situações de risco, como edema cerebral. Era obrigatório também que o tratamento da acidose começasse dentro de duas horas após a inclusão no estudo, a diluição da solução de bicarbonato de sódio foi feita em glicose a 5% a fim de deixar a solução menos hiperosmolar; o placebo foi somente glicose a 5%. A infusão de bicarbonato ou glicose foi realizada de maneira cega para todos os participantes do estudo. Havia coleta de gasometria em 1 e 3 horas depois da infusão, iniciada a 100 ml por hora. O desfecho primário foi evento renal adverso maior foi definido por morte por qualquer causa, necessidade de terapia substitutiva renal ou disfunção renal persistente que era creatinina elevada acima de duas vezes o valor basal no início do quadro. Alguns desfechos secundários também foram anotados com mortalidade em 30 dias, necessidade de hemodiálise, tempo de permanência no hospital.  

Resultados: 

O estudo contou com 55 UTIs em sete países e 500 pacientes incluídos entre abril/2023 e dezembro/2025. A idade média dos participantes foi de 66 anos e quase 60% dos pacientes eram homens. A mediana do escore APACHE II foi 21 pontos e o escore SOFA de 7 pontos. Quase metade dos pacientes incluídos já tinham presença de insuficiência renal aguda. 

A média de líquido infundido foi de 500 ml, seja da solução com bicarbonato ou da solução glicosada. De um modo geral, o estudo transcorreu da maneira planejada, mas 15% dos pacientes no grupo placebo receberam terapia de resgate com bicarbonato. 

Não houve diferença significativa na ocorrência de eventos renais adversos graves dentro de 30 dias: ocorreu em 40,2% (98/244) dos pacientes no grupo do bicarbonato de sódio e em 39,4% (100/254) no grupo do placebo (diferença ajustada de 1,2 pontos percentuais; IC 95%, -7,1 a 9,4; p=0,78). 

Não foram observadas diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto à mortalidade hospitalar em 30 dias (A mortalidade no grupo bicarbonato foi 25% em 30 dias e 24% no grupo placebo), uso de terapia de substituição renal dentro de 30 dias (17% vs 21%), disfunção renal persistente ou dependência de terapia de substituição renal em 30 dias (mesma porcentagem). 

OS efeitos adversos foram pouco comuns em ambos os grupos, embora 4 pacientes (1,6%) no grupo do bicarbonato de sódio tenham apresentado algum efeito adverso, em comparação a nenhum no grupo placebo (p=0,06), um achado por causa de casos de hipocalemia. 

Mensagens para o dia-a-dia: 

  • O uso de bicarbonato de sódio para a correção da acidose metabólica em pacientes graves em uso de vasopressores não resultou em menor risco de eventos renais adversos graves em 30 dias quando comparado ao placebo; 
  • Embora o bicarbonato de sódio tenha acelerado a correção da acidose, isso não se traduziu em benefícios clínicos relevantes. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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