Racional:
Os 4 autores selecionaram os estudos de ultrassonografia à beira-leito (POCUS) mais influentes de 2025 e final de 2024. Cada um revisou e escolheu 3 para resumir, sob aprovação dos outros colegas. Os trabalhos foram escolhidos de maneira subjetiva e representam a prática em medicina intensiva e de emergência.
Vignon P et al. Intensive Care Med 2025
A disfunção diastólica do ventrículo esquerdo é comum em pacientes com choque séptico, mas não está associada à mortalidade. A disfunção ventricular diastólica esquerda é comum nos pacientes com choque séptico. A taxa é de 76% nos três primeiros dias, e reduz para 56% no dia da alta da UTI e finalmente 44% na saída do hospital. Os fatores associados à disfunção diastólica são cardiopatia isquêmica prévia, ventilação mecânica invasiva e níveis maiores de pressão arterial. O balanço hídrico cumulativo em três dias não foi diferente entre pacientes que tinham ou não tinham disfunção diastólica.
Joseph A et al. Intensive Care Med 2024
A análise do estudo HEMOPRED confirmou que índices dinâmicos mantêm a capacidade de predizer a responsividade a fluidos em pacientes com SDRA, reforçando que a variação da pressão de pulso (PPV) deve ser usada mais como monitoramento do que como guia isolado de fluidos. Houve uma correlação entre a chance de morte e a variação de pressão de pulso. Foi realizada manobra de elevação das pernas para mimetizar a expansão volêmica. A responsabilidade a fluidos era estava presente se houvesse incremento da integral velocidade-tempo (VTi) maior que 10%. Existe possibilidade que a variação da pressão de pulso tenha acontecido também por injúria do ventrículo direito, que é relativamente comum nos pacientes com SARA e aumento agudo da pressão arterial pulmonar (seja por hipóxia ou elevação da PEEP).
Edmiston T et al. Resuscitation 2024
A ecocardiografia transesofágica foi consolidada como uma técnica de alto rendimento para paradas cardíacas: as imagens são de maior qualidade, além de identificar causas reversíveis da parada, distinguir atividade elétrica sem pulso e otimização em tempo real das compressões torácicas.
Hernandez G et al. JAMA 2025
O ensaio ANDROMEDA-SHOCK-2 demonstrou que a ressuscitação personalizada focada no tempo de enchimento capilar, apoiada por ecocardiografia seletiva, é superior ao tratamento convencional. A estratégia personalizada para guiar o tempo de enchimento capilar promoveu melhora do desfecho composto de mortalidade, tempo de internação e duração de suporte orgânico (ventilação, vasopressores). Em 35% dos casos, a ecocardiografia foi necessária para normalizar o tempo de enchimento capilar, reforçando a sua importância para completar a reanimação volêmica do choque.
Mongodi S et al. Intensive Care Med 2025
Foi publicado um consenso internacional sobre LUS quantitativo para padronizar a avaliação de aeração em pacientes com insuficiência respiratória. A Sociedade Europeia de terapia intensiva realizou um consenso para estabelecer o exame do ultrassom pulmonar, estabelecendo o escore de aeração e a dinâmica do exame semiológico no tórax. A comparação entre radiografia e tomografia do tórax foi realizada em relação ao ultrassom. Os autores concluíram que o exame do tórax com ultrassonografia é necessária como rotina do paciente na UTI em ventilação mecânica e pode ser útil para identificar o paciente que está indo bem no desmame de ventilação, pacientes com SARA que respondem à posição prona e a avaliação da presença de pneumonia.
Roy C et al. Indian J Crit Care Med 2025
Outro estudo validou a LUS como ferramenta eficaz para o diagnóstico e monitoramento da pneumonia associada à ventilação mecânica. Nesse estudo, os autores realizaram uma série de exames ultrassonográficos para identificar pneumonia associada à ventilação mecânica, num total de 206 pacientes dos quais 76 desenvolveram pneumonia. A sensibilidade foi de 92% e a especificidade 88%. Os autores também verificaram que o padrão de reação sugeria uma melhora do quadro após início do tratamento antibiótico.
Filippini D et al. Crit Care Sci 2025
Mostrou correlação limitada entre escores de aeração da LUS e variáveis fisiológicas (como complacência e espaço morto) em pacientes ventilados. Houve comparação entre exames de imagem como radiografia e ultrassonografia, com medidas de troca gasosa, espaço morto, complacência respiratória e driving pressure num total de 364 pacientes dos quais 127 tinham SARA. Houve uma correlação fraca das medidas fisiológicas e de imagens entre pacientes que tinham um SARA ou não. Não houve correlação entre os escores de aeração entre radiografia e ultrassonografia. As medidas de shunt e espaço morto não foram bem avaliadas pelos exames de imagem, o que denota que são medidas de variáveis de fisiologia.
Klompmaker P et al. J Crit Care 2025
O sistema VEXUS demonstrou ser um método reprodutível e com valor prognóstico para eventos renais adversos em pacientes críticos. A prevalência de congestão venosa avaliada em vasos abdominais se associou a eventos renais adversos em 30 dias em população de 138 pacientes de UTI. A pontuação versus maior igual a dois pontos foi observada em apenas 12% dos pacientes mais frequentemente nos primeiros três dias de UTI. O método VEXUS ajuda a identificar pacientes que não são mais tolerantes à reposição de fluídos e guiar a de-ressuscitação e evitar prejuízo da administração de líquidos.
Basmaji J et al. Crit Care Med 2024
A meta-análise revelou que a ressuscitação do choque séptico guiada por POCUS está associada a uma provável redução na mortalidade em 28 dias.
Sepulveda P et al. Brit J Anaesth 2025
Destacou o papel da ultrassonografia na identificação dinâmica de causas reversíveis de falha no desmame da ventilação. A revisão sistemática de 89 estudos envolvendo mais de 6.800 pacientes revelou que a ultrassonografia se associou com o sucesso do desmame de ventilação mecânica. A falha do desmame ocorreu em 28% dos pacientes com visualização de disfunção cardíaca ventricular esquerda, disfunção do diafragma, perda da aeração pulmonar ou edema pulmonar, assim como derrame pleural e edema laringe pós-extubação. É sugerido que o ultrassom seja incorporado na rotina do desmame de ventilação, mas também se reconhece que existe heterogeneidade e falta de protocolos de rotina para este exame.
Autoria

André Japiassú
Doutor em Ciências pela Fiocruz. Mestre em Clínica Médica pela UFRJ. Especialista em Medicina Intensiva pela AMIB. Residência Médica em Medicina Intensiva pela UFRJ. Médico graduado pela UFRJ.
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