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Terapia Intensiva12 maio 2026

ARSA fetal isolada: avaliação hemodinâmica por Doppler

Estudo demonstra ausência de repercussão hemodinâmica significativa em fetos com ARSA isolada avaliada por Doppler.
Por Hiago Bastos

  A artéria subclávia direita aberrante (ARSA), também denominada arteria lusoria, constitui uma das anomalias congênitas mais frequentes do arco aórtico, com prevalência estimada entre 0,5% e 4,4% na população geral e entre 0,4% e 1,5% em fetos cromossomicamente normais. Embriologicamente, resulta da regressão anômala da aorta dorsal direita, originando-se diretamente do arco aórtico distalmente à artéria subclávia esquerda. Diferentemente da anatomia habitual — em que o arco aórtico emite três ramos principais (tronco braquiocefálico, carótida comum esquerda e subclávia esquerda) —, na presença de ARSA observa-se a emergência de quatro vasos independentes: carótida comum direita, carótida comum esquerda, subclávia esquerda e subclávia direita aberrante. Em geral, o trajeto da ARSA ocorre posteriormente ao esôfago e anteriormente à coluna vertebral, podendo, em raros casos, provocar compressão traqueoesofágica e sintomas como disfagia, dispneia ou tosse. 

       Embora frequentemente assintomática, a ARSA tem relevância clínica sobretudo por sua associação com anomalias cromossômicas, especialmente a trissomia 21 (síndrome de Down), com prevalência relatada entre 6,8% e 37,5% nos fetos acometidos. Também há descrições de associação com microdeleção 22q11.2 (síndrome de DiGeorge). Entretanto, quando isolada — isto é, na ausência de alterações cardíacas, extracardíacas ou genéticas —, tende a comportar-se como variante anatômica benigna, sem repercussões clínicas significativas no período pré ou pós-natal. 

       O estudo em análise foi delineado como caso-controle prospectivo, conduzido entre janeiro e dezembro de 2023 em centro terciário de referência em medicina fetal. Foram avaliados 93 fetos entre 20 e 24 semanas de gestação, sendo 40 diagnosticados com ARSA isolada e 53 controles sem anomalias estruturais. Casos com malformações associadas foram criteriosamente excluídos. A avaliação Doppler foi realizada com equipamento Voluson E8 (GE Healthcare), por único perinatologista experiente, garantindo padronização técnica. Foram mensurados parâmetros hemodinâmicos no segmento proximal da artéria, logo após sua origem no arco aórtico, com ângulo de insonação inferior a 30°, incluindo: velocidade sistólica de pico (PS), índice de pulsatilidade (PI), índice de resistência (RI), velocidade máxima média temporal (TAMAX) e frequência cardíaca fetal (FC). 

       A análise estatística, realizada no SPSS 27, empregou testes paramétricos e não paramétricos conforme a distribuição dos dados (teste t de Student, Mann-Whitney e correlação de Spearman). Os resultados demonstraram ausência de diferenças estatisticamente significativas entre os grupos quanto a todos os parâmetros Doppler avaliados (PS, PI, RI, TAMAX e FC; p > 0,05). Ademais, não houve correlação significativa entre idade gestacional, peso fetal estimado e parâmetros hemodinâmicos em nenhum dos grupos. 

      No grupo ARSA, nenhum feto apresentou confirmação de anomalia cromossômica. Parte das pacientes realizou teste pré-natal não invasivo (NIPT) antes ou após o diagnóstico, algumas optaram por amniocentese e outras recusaram investigação genética adicional por motivos pessoais ou financeiros. Ainda assim, todos os casos incluídos foram considerados isolados do ponto de vista estrutural e clínico. A discussão reforça que, apesar da hipótese teórica de que o trajeto aberrante e a origem anatômica distinta pudessem alterar a dinâmica de fluxo arterial, tal alteração não se confirmou na prática. O fato de a ARSA suprir o membro superior direito sem evidência de alteração hemodinâmica sugere que não há comprometimento funcional relevante no período fetal. Além disso, o peso fetal — parâmetro essencial de vitalidade intrauterina — não diferiu entre os grupos, corroborando a ausência de impacto no crescimento. 

       Os autores destacam que, embora a ARSA possa estar associada a anomalias complexas — como nos casos acompanhados de divertículo de Kommerell —, tais situações não se aplicam ao contexto de ARSA isolada. Assim, o estudo contribui de forma inédita ao demonstrar, por meio de avaliação Doppler sistematizada, que a ARSA isolada não promove alterações hemodinâmicas mensuráveis durante a vida fetal. 

       Conclui-se, portanto, que a ARSA isolada deve ser considerada variante anatômica benigna, sem repercussão hemodinâmica significativa ou impacto no crescimento fetal. Esse achado possui implicação direta no aconselhamento pré-natal, permitindo tranquilizar as famílias quanto à ausência de comprometimento funcional do membro superior direito ou do desenvolvimento cardiovascular fetal.

Autoria

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Hiago Bastos

Graduação em Medicina pela Universidade Ceuma (2016), como bolsista integral do PROUNI ⦁  Especialista em Terapia Intensiva no Programa de Especialização em Medicina Intensiva (PEMI/AMIB 2020) no Hospital São Domingos ⦁  Fellowship in Intensive Care at the Erasme Hospital (Bruxelles, Belgium) ⦁  Especialista em ECMO pela ELSO ⦁ Médico plantonista na UTI II do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2016, na UTI do Hospital São Domingos desde 2018 e Coordenador da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes do Hospital Municipal Djalma Marques desde 2017 ⦁  Fundador e ex-presidente da Liga Acadêmica de Medicina de Urgência e Emergências do Maranhão (LAMURGEM-MA) ⦁  Experiência na área de Emergências e Terapia intensiva.

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