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Terapia Intensiva23 junho 2026

A hipotensão no pós-operatório é comum e pode levar a mais admissões em UTI

Estudo mostra que hipotensão pós-operatória é frequente após cirurgia não cardíaca e pode aumentar admissões não planejadas em UTI.

Um dos problemas mais comuns após grandes cirurgias é a hipotensão. Ela pode ocorrer por conta de sangramentos, eventos cardiovasculares ou infecciosos. A taxa de mortalidade em cirurgias é baixa de modo geral, em torno de 2%; e geralmente ocorre nos primeiros 30 dias de pós-operatório. Ela pode ser mais grave quando o paciente está no pós-operatório em enfermarias sem monitoração adequada. 

A hipotensão também pode ser um alarme falso-positivo, por conta de falsas medidas por erro de aferição da pressão (técnica errada, aparelhos de esfigmomanômetro não-calibrados). E também ocorre em pacientes monitorados que têm a tomada de medida da pressão arterial muito frequente e uma pequena porcentagem das medidas de pressão arterial não-invasiva podem estar falsamente aumentadas ou reduzidas. Mas é de suma importância o reconhecimento da hipotensão, que pode ser um sinal de descompensação e agravamento do quadro do paciente operado. 

hipotensão no pós-operatório

Métodos: 

Esse foi um estudo de único centro, observacional e prospectivo entre fevereiro de 2024 e julho de 2025, na universidade de Hamburgo, Alemanha. Houve exclusão de pacientes grávidas ou pacientes com contraindicação à medida de pressão não-invasiva e aqueles pacientes já tinham programação de internação em UTI previamente. Portanto, avaliou-se neste estudo a incidência de hipotensão em cirurgias eletivas que vão para enfermaria. 

Os outros objetivos do estudo foram a proporção de pacientes com pressão arterial média menor que 65 mmHg em pelo menos 1 momento nos primeiros 3 dias de pós-operatório, a duração cumulativa do período que o paciente ficou hipotenso, e secundariamente os pacientes que necessitaram internação não planejada em UTI, complicações em pós-operatório além da hipotensão, como aumento dos níveis de creatinina sérica (indicativo de disfunção renal aguda), tempo de permanência no hospital e mortalidade em 30 dias.  

Resultados: 

O plano foi incluir 1.300 participantes para que tivessem uma amostra final de 1000 pacientes analisados. Os pacientes excluídos foram aqueles que não tinham monitorização adequada disponível, ou que a duração da cirurgia foi curta (menor que 90 minutos), pacientes que já tinham internação em UTI previamente combinada, e outros motivos como gravidez, contraindicação para medida de PA não invasiva e sem consentimento informado. 

A taxa de hipotensão no pós-operatório foi 38% (378 pacientes): eles apresentaram hipotensão no pós-operatório em pelo menos 1 medida, com pressão arterial média menor que 65 mmHg nos três primeiros dias de pós-operatório. A duração cumulativa da hipotensão foi de 3 horas (ou 180 minutos), correspondendo cerca de 7% de todo o tempo de monitoração da PA. A incidência de hipotensão no pós-operatório regrediu progressivamente entre o primeiro e o terceiro dia de pós-operatório, mas a duração e a gravidade da hipotensão se mantiveram equivalentes no mesmo período. Os autores ainda avaliaram outros limites de pressão arterial média como 75 mmHg, dos quais 73% teve algum episódio de hipotensão; e o limiar de 55 mmHg, quando 9% dos pacientes apresentaram hipotensão abaixo desse valor. A taxa de complicações no pós-operatório em 7 dias ocorreu em 28% dos pacientes com hipotensão, ao passo que ocorreu em 27% dos pacientes que não tiveram hipotensão. A insuficiência renal aguda aconteceu em 10% dos doentes hipotensos e 7,4% dos pacientes normotensos. E a taxa de internação na UTI não planejada ocorreu em 4% dos pacientes com a hipotensão e 1,3% dos pacientes que não apresentaram esta complicação (esse foi o único resultado significativo com p valor 0,01). A mortalidade em 30 dias foi semelhante no grupo com e sem hipotensão (1,3% versus 0,6%). O grupo que teve hipotensão ficou em média um dia mais no hospital que o grupo que não teve essa complicação (6 versus 5 dias). 

Não houve a pesquisa de quais foram as causas da hipotensão… Mesmo assim, devido ao grande tamanho amostral, o estudo foi relevante e concluiu que a hipotensão é relativamente frequente em pós-operatórios, mesmo aqueles que são menores e ficam na enfermaria. Mas a taxa de outras complicações, como  insuficiência renal, foram semelhantes em pacientes que fizeram ou não hipotensão. 

A presença de hipotensão por si só leva uma tendência maior de admissão em UTI e também levou a uma mortalidade discretamente maior, mesmo que não tivesse resultado estatisticamente significativo. Outro resultado interessante é que 86% dos participantes teve pelo menos um episódio de erro na medida da pressão arterial não invasiva, acendendo o alerta para a checagem qualificada da medida pelo profissional de saúde. O número médio de medidas não válidas por participante foi de 3 nos primeiros três dias de avaliação. Esse resultado salienta que o erro de medida é relativamente frequente, embora ocorra poucas vezes nos primeiros dias de monitorização do paciente. 

Autoria

Foto de André Japiassú

André Japiassú

Editor médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com residência médica na área de Clínica Médica e Terapia Intensiva na mesma UFRJ (2000). Especialista pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) desde 2000. Mestrado em Clínica Médica pela UFRJ (2003) e Doutorado em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (2009).

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