Depois de anos de baixa circulação, o sarampo voltou ao radar da saúde pública brasileira. Em 2026, o país já confirmou mais de 25 casos da doença, sendo a maior parte dos registros em São Paulo. Esse número preocupa em um contexto regional já frágil. Em novembro de 2025, as Américas perderam o status de área livre de sarampo, com surtos ativos em países como Estados Unidos, Canadá e México.
Para boa parte dos médicos mais jovens, que nunca viram um caso de sarampo na prática clínica, o momento pede atenção redobrada. Segundo a Dra. Raíssa Perlingeiro, infectologista e editora do Portal Afya, o principal desafio atual é fazer com que os médicos considerem o sarampo entre as hipóteses diagnósticas.
“O principal é pensar no diagnóstico de sarampo para que as medidas de bloqueio da transmissão do vírus sejam tomadas o mais rápido possível.”, explicou a especialista.
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Casos de sarampo no Brasil se concentram em São Paulo
Em 2025, o Brasil confirmou 38 casos de sarampo, a maioria em um surto no Tocantins associado à chegada de uma família vinda da Bolívia. Destes casos, 84% ocorreram em uma comunidade tradicional sem nenhum registro vacinal. Em 2026, o país soma mais de 25 casos confirmados, 23 deles no estado de São Paulo, distribuídos entre a capital, São Bernardo do Campo e Guarulhos.
Diante da concentração de casos, o Ministério da Saúde iniciou uma campanha de vacinação de bloqueio ampliada nesses três municípios paulistas, válida de 3 de agosto a 1º de setembro, para todas as pessoas de 6 meses a 59 anos, independente do histórico vacinal.
Fatores que influenciam no crescimento dos casos de sarampo
Três fatores ajudam a explicar o momento, a queda na cobertura vacinal, o cenário internacional marcado por surto nas Américas e o fluxo de viajantes vindos da Copa do Mundo.
Em 2025, a cobertura da 1ª dose da tríplice viral ficou em 92,68% e a da 2ª dose em apenas 78,04%, número abaixo da meta de 95% recomendada para manter a imunidade de rebanho.
Perlingeiro explica que a queda da cobertura vacinal tem um impacto importante pois o sarampo é muito contagioso. “Uma pessoa pode transmitir para até 18-20 pessoas não vacinadas. Além disso, o aumento das viagens internacionais após grandes eventos e férias facilitou a entrada do vírus no país e a chegada do vírus a grandes centros urbanos (como São Paulo) facilitando a cadeia de transmissão”.
A Copa do Mundo de Futebol de 2026, sediada por EUA, Canadá e México, também acendeu um alerta por conta do surto da doença nas Américas. O Ministério da Saúde emitiu nota técnica alertando para o risco iminente de reintrodução do vírus por viajantes brasileiros ou estrangeiros infectados.
Reconhecer os sinais clínicos do sarampo exige atenção
O sarampo é uma das doenças mais transmissíveis no mundo, um único caso pode infectar, em média, 15 pessoas suscetíveis. A transmissão ocorre por via respiratória e começa antes do aparecimento das manchas na pele, o que dificulta o controle.
A infectologista alerta para os sintomas que o médico deve se atentar na atenção primária. “O paciente costuma iniciar o quadro com febre, tosse seca, mal-estar e conjuntivite. Entre o terceiro e o quinto dia surgem as manchas, que aparecem primeiro no rosto e atrás das orelhas antes de se espalharem pelo restante do corpo. Já as manchas de Koplik são praticamente exclusivas do sarampo, embora estejam presentes em apenas 50% a 60% dos pacientes”.
Pontos de atenção para a suspeita clínica
- Febre alta + tosse seca + coriza + conjuntivite, seguidas de exantema maculopapular que se inicia na face e progride de forma cefalocaudal.
- Manchas de Koplik (pontos brancos na mucosa oral) são um sinal precoce e altamente sugestivo, mas nem sempre são identificadas.
- Histórico de viagem recente (sobretudo para Bolívia, EUA, Canadá ou México) ou contato com viajantes deve elevar o índice de suspeição.
- Verificar sempre a situação vacinal do paciente; Lactentes entre 6 e 12 meses não vacinados são um grupo de atenção redobrada.
Conduta
Diante de qualquer suspeita, a notificação à vigilância epidemiológica deve ser imediata. O sarampo é uma doença de notificação compulsória, com prazo de até 24 horas. O paciente deve permanecer em isolamento respiratório enquanto são coletadas amostras para confirmação laboratorial, por sorologia ou, quando possível, biologia molecular.
A vigilância também deve ser acionada para iniciar o bloqueio vacinal dos contactantes. Diante da suspeita, deve-se ofertar máscara cirúrgica para o paciente e isolá-lo.
Para os lactentes com suspeita clínica, a prioridade é impedir a transmissão e reduzir o risco de complicações. “Esses pacientes devem ser isolados imediatamente. Não se recomenda vacinação durante a suspeita da doença. Também é necessária a notificação compulsória, tratamento de suporte, uso de vitamina A para reduzir complicações neurológicas e oftalmológicas e vacinação de bloqueio dos contactantes”, alerta a especialista.
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Brasil mantém certificação apesar do aumento de casos de sarampo
O Brasil eliminou a circulação do sarampo em 2016, mas perdeu essa certificação em 2019, após um surto que somou cerca de 18 mil casos. O status de país livre da doença foi reconquistado em 2024.
Apesar do aumento dos casos, a infectologista Raíssa Perlingeiro ressalta que ainda não há risco iminente de o Brasil perder novamente a certificação de país livre do sarampo.
“Esse certificado só é retirado se houver comprovação de transmissão sustentada da mesma cadeia do vírus por pelo menos um ano ininterrupto. Casos isolados ou surtos controlados rapidamente não retiram o título de imediato, mas exigem uma resposta rigorosa, principalmente com a vacinação de bloqueio.”, concluiu.
Além disso, é também papel do médico conscientizar o paciente sobre a importância da vacinação. Adotar a comunicação baseada em empatia, combater a desinformação no consultório e utilizar as ferramentas digitais para ocupar os espaços onde as notícias falsas se espalham são medidas imprescindíveis.
Este conteúdo foi elaborado com auxílio de inteligência artificial com supervisão e revisão da Equipe Afya.
Autoria
Gabriela Costa
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