A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, aprovou a leucovorina (ácido folínico) como primeiro tratamento indicado para pacientes com deficiência de transporte de folato cerebral (CFTD, na sigla em inglês), uma doença genética rara associada a alterações neurológicas e atraso no desenvolvimento.
A decisão marca um avanço terapêutico para uma condição que, até então, não possuía tratamento específico aprovado por agências regulatórias. De acordo com a FDA, a leucovorina atua restaurando níveis adequados de folato no sistema nervoso central, contribuindo para melhorar ou estabilizar manifestações neurológicas associadas à doença.
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Deficiência cerebral de folato
A deficiência de transporte de folato cerebral está relacionada a mutações no gene FOLR1, responsável pela produção do receptor alfa de folato. Essa proteína desempenha papel fundamental no transporte da vitamina B9 através da barreira hematoencefálica. Quando esse mecanismo é comprometido, ocorre redução significativa dos níveis de 5-metiltetrahidrofolato no líquido cefalorraquidiano, mesmo quando os níveis séricos de folato permanecem dentro da normalidade.
Clinicamente, a condição costuma se manifestar na primeira infância. Entre os sinais mais frequentes estão atraso no desenvolvimento motor e cognitivo, convulsões, distúrbios de movimento e regressão neurológica. Alguns pacientes também podem apresentar alterações comportamentais, hipotonia e dificuldades de linguagem.
Segundo a FDA, o tratamento com leucovorina fornece uma forma ativa de folato capaz de alcançar o sistema nervoso central, contornando a deficiência no transporte da vitamina associada à doença. A estratégia terapêutica busca restabelecer níveis adequados de folato no cérebro, favorecendo o funcionamento de vias metabólicas essenciais para o desenvolvimento neurológico.
A aprovação foi baseada em evidências clínicas que demonstraram aumento dos níveis de folato no líquido cefalorraquidiano após o tratamento, além de melhora em parâmetros neurológicos em pacientes com diagnóstico confirmado da doença. Os dados indicam que o benefício terapêutico tende a ser mais significativo quando o tratamento é iniciado precocemente.
Autoridades da FDA destacaram que o desenvolvimento de terapias voltadas para doenças raras permanece como uma prioridade regulatória. Segundo a agência, a aprovação oferece uma nova possibilidade terapêutica para pacientes com uma condição genética que pode resultar em comprometimento neurológico progressivo.
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Ácido folínico na prática clínica
A leucovorina, também conhecida como ácido folínico, é uma forma biologicamente ativa da vitamina B9. Diferentemente do ácido fólico convencional, ela não depende de etapas metabólicas adicionais para se tornar ativa, podendo participar diretamente de processos celulares essenciais.
O folato exerce papel importante em funções como síntese de DNA, metilação celular e produção de neurotransmissores, processos fundamentais para o desenvolvimento e funcionamento do sistema nervoso central.
No Brasil, a leucovorina já é utilizada na prática clínica, principalmente em oncologia. O medicamento é empregado como terapia de resgate após o uso de metotrexato em altas doses, além de integrar esquemas quimioterápicos, como no tratamento do câncer colorretal. A substância também pode ser utilizada em situações específicas de deficiência de folato associadas a distúrbios metabólicos.
Especialistas apontam que a aprovação da FDA reforça o interesse científico em terapias baseadas em formas ativas de folato para doenças neurológicas raras, área que tem recebido crescente atenção em pesquisas voltadas ao metabolismo cerebral.
*Este artigo foi revisado pela equipe médica do Portal Afya.
Autoria
Raphael Martins Lisboa
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