A gestação no lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma situação com alto risco para desfechos desfavoráveis e, por esse motivo, deve ser acompanhada por equipes com expertise no assunto. No passado, a orientação geral era que pacientes com LES não deveriam engravidar, mas esse conceito mudou nas últimas décadas. Atualmente, recomenda-se que, para que esse risco seja minimizado, é importante que as pacientes engravidem sem atividade de doença por, no mínimo, 6-12 meses.
Recentemente, foi publicado um estudo sueco que avaliou as tendências temporais das complicações gestacionais e dos tratamentos farmacológicos em mulheres com LES entre 2003 e 2022.
Métodos
Trata-se de um estudo de registro sueco (Swedish National Patient Register – NPR), que identificou 1.417 gravidezes de mulheres com LES prevalente (CID-9 710A, CID-10 M32, excluindo LES induzido por drogas), que foram comparadas a 14.133 gravidezes de mulheres sem LES (grupo de controle – 1:10), emparelhadas por idade materna, ano do parto e paridade.
Foram coletados dados sobre desfechos gestacionais, tratamentos para o LES, anticorpos antifosfolípides e nefrite lúpica.
Resultados
A idade média ao parto foi de 32,2 anos, e 43,8% eram nulíparas.
Embora os riscos permaneçam significativamente mais elevados do que na população geral, houve uma redução notável nos desfechos adversos para mulheres com LES ao longo das duas décadas:
- Taxa de partos: o número anual de partos por 1.000 mulheres com LES aumentou de 21 em 2003 para 36 em 2022, enquanto na população geral permaneceu estável em cerca de 51;
- Pré-eclâmpsia: caiu de 14,1% (2003–2004) para 9,6% (2021–2022), representando uma redução média anual de 0,11%;
- Parto prematuro: reduziu de 25,9% para 11,2% (redução de 0,63% por ano). Esta queda foi impulsionada principalmente pela redução de partos prematuros iatrogênicos (0,49% por ano) em comparação aos espontâneos (0,14% por ano);
- Pequeno para a idade gestacional (PIG): diminuiu de 10,6% para 7,0% (redução de 0,22% por ano);
- Parto cesáreo: reduziu de 34,1% para 27,3% (redução de 0,34% por ano), enquanto na população geral essa taxa aumentou no mesmo período;
- Qualquer evento adverso gestacional (composto): a proporção geral de qualquer desfecho adverso em gravidezes com LES foi de 25,0% (contra 11,2% no grupo sem LES).
Fevereiro Roxo: o que temos de novidades em lúpus eritematoso sistêmico (LES)?
Análise por Subgrupos
- Paridade: as reduções nos desfechos adversos foram muito mais acentuadas em nulíparas (ex: redução de 1,12% por ano no parto prematuro e 0,59% por ano em PIG) do que em mulheres que já haviam tido filhos, nas quais os índices flutuaram sem uma tendência clara;
- LES com síndrome antifosfolípide (SAF): estes casos apresentaram riscos maiores (pré-eclâmpsia 11,7%; parto prematuro 19,2%) em comparação ao LES sem SAF (pré-eclâmpsia 7,4%; parto prematuro 11,6%). Embora tenham ocorrido melhorias modestas, as tendências não foram estatisticamente significativas;
- Nefrite lúpica: desfechos como pré-eclâmpsia e parto prematuro foram mais prevalentes neste grupo, mas também apresentaram tendências de queda ao longo do tempo;
Tendências em Tratamentos
A melhoria nos desfechos parece refletir mudanças nas estratégias terapêuticas e maior adesão às diretrizes clínicas:
- Antimaláricos (principalmente hidroxicloroquina): o uso durante a gravidez aumentou de 23,9% (2007–2008) para 76,5% (2021–2022), um aumento de 3,3% por ano;
- Aspirina em baixa dose: o uso durante a gestação saltou de 39,8% para 85,6% (aumento de 3,7%ano). O uso antes da gravidez também subiu de 9,1% para 16,0%;
- Glicocorticoides: houve uma leve queda no uso durante a gravidez, de 43,2% para 40,1% (redução de 0,7% por ano). No entanto, o estudo observa que cerca de 40% a 50% das gestações ainda utilizam esse tratamento, o que é considerado alto pelas diretrizes atuais;
- Outros: o uso de heparina de baixo peso molecular (HBPM) e azatioprina também apresentou aumentos modestos.

Comentários: lúpus na gravidez
Os dados revelam uma redução significativa em desfechos negativos, como partos prematuros e bebês com baixo peso, especialmente entre mulheres em sua primeira gravidez. Paralelamente a essa melhoria clínica, observou-se um aumento expressivo no uso de antimaláricos e aspirina em baixa dose, refletindo a adoção de diretrizes médicas mais atualizadas. Embora os riscos permaneçam mais elevados do que na população geral, o cenário atual indica maior segurança para gestantes com lúpus eritematoso sistêmico (LES). Destaca-se também um crescimento no número de partos nessas pacientes, sugerindo maior confiança no manejo da doença durante a maternidade.
Autoria

Gustavo Balbi
Editor-chefe de Clínica Médica da Afya • Residência em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Reumatologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro • Doutorando pela USP • Professor de Reumatologia da Universidade Federal de Juiz de Fora • Chefe do serviço de Clínica Médica do Hospital Universitário da Universidade Federal de Juiz de Fora • Membro da Comissão de Síndrome Antifosfolípide e da Comissão de Vasculites da Sociedade Brasileira de Reumatologia
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