A relação entre doenças reumatológicas e neoplasias malignas é complexa e vem sendo estudada em diversos aspectos.1 Pacientes com diagnósticos de doenças reumáticas inflamatórias podem apresentar risco aumentado de desenvolver câncer, quando comparados à população geral.1 Algumas medicações utilizadas no tratamento dessas doenças podem ter relação com esse aumento de risco.2 Do outro lado, muitas doenças oncológicas atualmente têm as imunoterapias no seu escopo de possibilidades terapêuticas, cujos efeitos colaterais mais preocupantes estão relacionados a complicações autoimunes.3
O risco de câncer relacionado às doenças reumáticas inflamatórias varia em tipos e em magnitude de acordo com a doença subjacente, seu estágio evolutivo e expressividade clínica.1 Tal risco pode ser atribuído à doença em si ou ao seu tratamento.4 Estudos têm demonstrado aumento de risco de câncer relacionado às doenças reumáticas inflamatórias, como por exemplo linfoma durante a Artrite Reumatoide, Lúpus Eritematoso Sistêmico ou Síndrome de Sjogren.4 Quanto aos tumores sólidos, Esclerodermia, Dermatomiosite e Polimiosite são associadas a um risco aumentado de câncer de pulmão.4
Uma recente metanálise mostrou a relação entre Síndrome de Sjogren e o aumento de risco de desenvolvimento de neoplasias malignas, com destaque para Linfoma de Hodgkin, Mieloma Múltiplo, além de cânceres de pulmão, tireoide, rim, fígado e próstata, com uma razão de risco de 2,17.5 Alguns estudos sugerem que pacientes portadores de lúpus podem ter risco aumento de desenvolvimento de câncer de vulva, pulmão, tireoide, além de neoplasias hematológicas, especialmente linfoma de Hodgkin.2
No entanto, esta relação precisa ainda ser mais estudada para ser melhor estabelecida.6 Há fatores de risco modificáveis relacionados ao desenvolvimento dessas neoplasias, que atuam como viés de confusão neste cenário, como por exemplo o tabagismo em pacientes portadores de lúpus e sua relação com o aumento da incidência de câncer de pulmão.6
Os possíveis elementos que estabelecem essa ligação são dinâmicos e complexos,2 mas o fator central que parece justificar tal relação passa pelos mecanismos imunológicos.7 Envolve inflamação crônica e danos causados pela doença reumática, imunossupressão prolongada pelas terapias biológicas e incapacidade de eliminar infecções potencialmente oncogênicas,7 como os vírus Epstein-Barr e Papilomavírus Humano. Essas características inerentes à doença reumatológica têm como consequência uma desregulação imune, que pode facilitar o avanço da carcinogênese.2
A imunogenicidade do câncer é uma área de conhecimento em crescente ascensão nas últimas décadas, sendo a potencial inativação das células imunes uma das características primordiais das células malignas, que lhes permite escapar dos mecanismos imunológicos e sobreviver no organismo, garantindo a invasão tecidual.8 A alteração dos mecanismos imunológicos, portanto, tem papel fundamental na carcinogênese.8 Modelos sugerem que a autoimunidade possa induzir o desenvolvimento de câncer através de autoantígenos mutados que, uma vez não reconhecidos pelo sistema imunológico, desencadeiam mutações celulares e respostas imunes humorais de reação cruzada.9 Dessa forma, é de racional compreensão que doenças reumáticas inflamatórias, uma vez que inseridas no contexto de ativação imunológica e inflamação crônica, confiram um risco de apresentar maior propensão ao desenvolvimento de neoplasias.1
Na outra via, uma destacável característica do tumor é a inflamação do microambiente tumoral, que leva ao aumento de citocinas inflamatórias e linfócitos.2 Além disso, os tratamentos oncológicos, como quimioterapia, radioterapia e imunoterapia podem contribuir para a ocorrência de doença reumática secundária à malignidade.2
Diante desse conhecimento sobre imunogenicidade tumoral, a imunoterapia tem sido um avanço significativo no tratamento de vários tipos de câncer. Existem diversos tipos de imunoterapias aplicadas à oncologia, como os inibidores de checkpoints (anti-PD1, anti-PDL1 e anti-CTLA4), os anticorpos monoclonais e a terapia com células CAR-T.10 Tais estratégias vêm demonstrando relevantes benefícios no tratamento dos pacientes com neoplasias sólidas e hematológicas, em diversos estágios das doenças, e estão cada vez mais inseridas na prática clínica oncológica.3 No entanto, por seu papel modulador do sistema imune, em geral elevando a maior ativação desse sistema, têm como potencial consequência um aumento do risco de desencadear o surgimento de doenças autoimunes ou a agudização e descompensação daquelas previamente existentes.3
Na reumatologia, a imunoterapia também tem papel fundamental, com o uso de biológicos e anticorpos monoclonais, por exemplo.2 Por se basearem muitas vezes nessa atividade imunogênica, as doenças reumáticas inflamatórias têm como base de seu tratamento medicações que vão agir alterando tais mecanismos, como os imunossupressores.7 Como consequência, podem apresentar efeitos adversos relacionados ao aumento potencial do risco de desenvolvimento de câncer.7 Alguns medicamentos antirreumáticos modificadores do curso da doença (MMCDs) têm potencial carcinogênico, no entanto isto não se aplica a todos os MMCDs.2
Aumento de risco de malignidade é bem documentado em pacientes tratados com ciclofosfamida, especialmente para leucemia e câncer de pele.7 Há relatos de associação entre metrotexato e câncer de pele não melanoma na Artrite Reumatoide, Psoríase e Artrite psoriásica.7 Um estudo de uso de metotrexato em baixa dose para prevenção de doenças cardiovasculares mostrou um risco aumentado de câncer de pele não melanoma no grupo metotrexato em comparação com placebo.11 No entanto, essa relação não é consensual na literatura, com estudos conflitantes, sendo que se trata de uma droga também usada como antineoplásica.2 Micofenolato e azatioprina também são MMCDs que parecem ser seguros quanto ao risco de desenvolvimento de malignidade, bem como Anti-inflamatórios não esteroidais (AINES) e Glicocorticóides.2
Drogas inibidoras do fator de necrose tumoral (TNFi) historicamente se relacionam a uma preocupação aumentada do risco de câncer, pela complexa relação entre o tumor e o fator de necrose tumoral, uma citocina multifuncional, utilizada pelo sistema imunológico para agir contra as células malignas.2 Apesar de tais terapias poderem ser associadas a maior rico de neoplasias, estudos sugerem que o risco geral de câncer com esses medicamentos pode ser semelhante ao da população geral, quando controlados os demais fatores.1
Por ser a segunda principal causa de morte no mundo e sabendo que seu diagnóstico precoce aumenta exponencialmente suas chances de melhores desfechos, há indicações bem estabelecidas para rastreamento de algumas neoplasias de maior incidência na população geral.12 Apesar dessa potencial relação entre as doenças reumáticas inflamatórias e o desenvolvimento de câncer, até o momento, não há recomendação específica para o rastreamento do câncer em pacientes com doenças reumáticas inflamatórias crônicas.4 Não existe, portanto, indicação de realização de exames específicos ou mesmo sugestão de alteração nas recomendações habituais de rastreamento, devendo-se seguir às mesmas indicações de rastreamento da população geral.4
Alguns cuidados, no entanto, devem ser reforçados com esses pacientes: uma triagem adequada e atenção às apresentações clínicas de neoplasias em fases iniciais são fundamentais nesses pacientes, objetivando a identificação precoce dessas doenças.13 Além disso, orientar sobre os fatores de risco em comum.13
Doentes tratados com metotrexato, inibidores de TNF, azatioprina e micofenolato devem ter cautelas à exposição solar, como uso de roupas com cobertura UVA/UVB, bem como devem ser orientados a comunicar imediatamente quaisquer novas lesões cutâneas persistentes ou mudança na aparência de lesões cutâneas existentes.7
Questões relacionadas às doenças reumáticas e oncológicas são comuns na prática clínica, como a ocorrência de tumor em pacientes com doenças reumáticas, o receio do risco relacionado ao uso de algumas medicações imunossupressoras, assim como as angústias que envolvem a descompensação de doenças reumatológicas prévias ou o surgimento de seus quadros relacionados a tratamento oncológico.2 Por isso se faz necessário que reumatologistas e oncologistas tenham conhecimentos vinculados e se engajem em discussão multidisciplinares para definição da melhor proposta de cuidados a esses pacientes. Além disso, é fundamental avaliar conhecimentos, preferências e valores dos pacientes e envolvê-los na tomada de decisão compartilhada.
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