A medicina voluntária nos lembra do porquê escolhemos essa profissão: não apenas para tratar doenças, mas para tocar vidas. E, ao tocar tantas vidas, descobrimos – muitas vezes com surpresa – que a mais transformada é a nossa

Relato de caso
Em meados de 2009 você me encontraria em qualquer lugar do país nas férias. Menos em casa. A possibilidade de estar fazendo medicina e poder viajar e ajudar tanta gente ao redor do Brasil mudou muito o meu jeito de ser médica hoje.
Eram viagens de curta temporada para atender comunidades carentes do nosso país. Ribeirinhos, indígenas, favelas do morro, cidadezinhas de poucos milhares de habitantes, sítios, ocupações. Poucos lugares me causam estranheza depois de tanto viajar e conhecer tanta gente. Outros estudantes e profissionais nos acompanhavam – até para realmente supervisionar o que fazíamos da parte da medicina. Mas eles não sabiam, aliás, nem eu mesma sabia, mas quem mais ganhou em tudo aquilo fui eu mesma.
Foram dias seguidos de outros dias acordando muito cedo, dormindo muito tarde, pensando que não conseguiríamos acordar no dia seguinte. Mas acordávamos. Daí saíamos pra comer nosso pão com mandioca – sim, era comum em um dos lugares que fomos. E um atendimento seguido do outro. Ajustes de medicamentos anti-hipertensivos, diagnósticos raros e a dúvida de onde eles seguiriam em um acompanhamento, uma criança com fenda palatina diagnosticada e encaminhada para cirurgia – sim, recebemos o feedback da cirurgia resolutiva após alguns meses. Uma pausa para o macarrão com frango ensopado – com muito coentro para a felicidade de alguns e entortar de boca de outros. E não, ninguém reclamava e comia o que tinha.
Atendimentos embaixo de árvores, em escolas, igrejas, em casas diversas. Era a história marcada do seu João sofrido e a melhor colheita de mandioca da tarde para retribuir o remédio que tratou a infecção de urina da filha. Era o bolo da dona Maria que comíamos em retribuição à limpeza dentária que ela recebeu no dia anterior – sim, tínhamos uma equipe odontológica com a gente.
E no fim do dia, a reunião dos colegas para discutir os casos, contar os “causos” e cantar. Ah, o que alguns profissionais juntos e alguém que sabia cantar e puxar algumas músicas não fazia. Algumas músicas inventávamos e temos até hoje na memória. Já fazem mais de 15 anos. Mas essas experiências de doação da vida, do tempo, dos melhores anos, do sono, da refeição asseada e nutricionalmente equilibrada em prol da ajuda aos outros realmente moldaram quem sou. São coisas que se estendem para mais do que apenas uma experiência.
A volta pra casa com sensação de dever cumprido. Com a sensação de que a vida de amor vale a pena ser vivida. Que, ao doar, quem mais recebe, na verdade, é você mesmo. Que os incômodos, enjoos, pernilongos, picadas serão todos esquecidos – e as lembranças boas ficam e te moldam. Mesmo hoje, com família grande, trabalho fixo, pouco tempo e sem possibilidade de uma viagem como essas, posso doar um pouco do que tenho ouvindo uma queixa de algum amigo ou parente. Claro que eles também podem vir ao meu consultório; claro que alguns merecem uma consulta completa. Mas algumas pessoas passarão pela nossa vida sem precisar de uma consulta formal, mas precisando de uma conversa, de um olhar amigo e atento para validar o tratamento pelo médico “frio” que fez a consulta anteriormente. Uma orientação breve, uma pergunta de real interesse. Isso é doação.
A medicina não é apenas um sacerdócio. Precisa-se de dinheiro para viver. Mas enquanto a medicina não é apenas um voluntariado, ela é sempre lucrativa. Mas o lucro nem sempre é de dinheiro. O lucro pode vir em forma de orações pelos seus pacientes, por sua família, por carinhos e pela bela percepção de algum mais antigo sobre o seu olhar mais cansado. Uma palavra amiga, um encorajamento para a profissão.
Conclusão
O voluntariado, dentro ou fora da prática clínica formal, tem o poder de enriquecer profundamente a trajetória médica. Ao se doar, o médico amplia sua escuta, refina sua empatia e fortalece sua capacidade de enxergar o outro para além do diagnóstico.
São vivências que não se ensinam nos livros, mas que reverberam no olhar, na postura e nas escolhas diárias ao cuidar de alguém.
Autoria

Ester Ribeiro
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