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Psiquiatria19 julho 2024

Caso clínico: O transtorno apresentado por este paciente é mesmo ansiedade?

Paciente masculino, 34 anos, solteiro, desempregado, encaminhado ao atendimento com a psiquiatria por queixa de “ansiedade”.   

O paciente refere nervosismo, tensão e episódios de preocupação persistente com múltiplos fatores, já há alguns anos, mas com piora importante após ter ficado desempregado há cerca de 6 meses.   

Tem a sensação de que algo ruim pode lhe acontecer e descreve-se como ansioso há muito tempo. Refere também insônia inicial e intermediária associada a pensamento ruminativo sobre os problemas, mas compensando eventualmente com cochilos ao longo do dia. Queixa-se também de irritabilidade e dificuldade para relaxar.   

Na história pregressa, faz menção a um episódio depressivo não tratado quando tinha cerca de 22 anos. Foi iniciado tratamento com um inibidor seletivo da recaptação da serotonina (ISRS), Fluoxetina, encaminhado para a psicoterapia e retorno previsto para um mês.  

No retorno, o paciente diz se sentir melhor em alguns aspectos, com aumento da disposição e da energia, mas ainda se sentindo ansioso em outros pontos.

Refere que há cerca de 20 dias (10 dias após o início da medicação) começou a sentir-se como se a sua mente estivesse “acelerada”, se ocupando de vários pensamentos. Também começou alguns projetos, mas não conseguiu concluir nenhum. Afirma estar mais irritado, o que atribui a um nervosismo, e brigando mais com familiares e de forma especial com a namorada, com quem se relaciona há anos. Esta, por sua vez, tem reclamado da dificuldade em conviver com o paciente nos últimos dias, segundo seu relato.   

Também admite estar mais impaciente e vem dormindo menos, embora não se sinta cansado e não faça mais cochilos ao longo do dia. Queixa-se de inquietação, saindo para andar e fazer caminhadas nos dias em que não comparece às entrevistas de emprego para gastar sua energia e tentar diminuir o que chama de ansiedade.

Por vezes, anda também dentro de casa, especialmente quando se levanta mais cedo de manhã. O sentimento de que algo ruim pode acontecer diminuiu de frequência e intensidade, mas ainda está presente.   

Apresenta pela primeira vez relato de possuir maior dificuldade para se concentrar. Sobre isso, refere que a dificuldade de concentração existe desde sua adolescência (quando tinha entre 14 e 15 anos), embora conseguisse passar de ano por nota, fazer cursos e ter e manter um emprego por maior tempo. Admite que há períodos de piora (sobretudo em momentos de “estresse”), como naquele momento.

Questiona sobre a possibilidade de ter TDAH e acredita que se tomar uma medicação para a memória, isso pode ajudá-lo a conseguir um novo emprego mais rapidamente. Nega alucinações visuais ou auditivas, bem como pensamentos de cunho persecutório.  

A Fluoxetina foi suspensa e foram solicitados exames de sangue.  

Na consulta seguinte, em dez dias, o paciente mantém queixas e volta a abordar sua dificuldade de atenção, a possibilidade de ter TDAH e o desejo de usar a medicação para o transtorno. Não havia alterações em seu hemograma, função tireoidiana, função hepática ou renal.  

O principal diagnóstico para este paciente é: 

ATranstorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)

BTranstorno Ansioso não especificado, parcialmente tratado e com sintomas residuais

CTranstorno de Pânico

DTranstorno Afetivo Bipolar e Transtorno Ansioso

Autoria

Foto de Paula Benevenuto Hartmann

Paula Benevenuto Hartmann

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com residência médica em Psiquiatria na mesma instituição (2018) e Área de Atuação em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela mesma instituição (2024). Mestrado em Psiquiatria e Saúde Mental pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP, Portugal). Além da atuação na Afya, também atende em consultório particular.

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