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Psiquiatria12 dezembro 2025

Risco de suicídio em datas comemorativas e vésperas como Natal e Dia dos Namorados

Pesquisas recentes vêm ressaltando a importância de padrões temporais no risco de suicídio.
Por Tayne Miranda

Considerar que a incidência de suicídio aumenta durante feriados significativos, como o Natal, é um mito comum na saúde mental. Sustenta essa suposição a ideia de que expectativas elevadas de conexão social e apoio durante períodos festivos, quando frustradas, podem gerar importante sofrimento, que por sua vez desencadearia uma reação suicida.  

Pesquisas recentes vêm ressaltando a importância de padrões temporais no risco de suicídio. Identificar janelas de maior risco permite intervenções direcionadas nos momentos de maior vulnerabilidade. Desse modo, é importante saber como os feriados podem alterar rotinas sociais, amplificando ou reduzindo o risco de suicídio a depender do contexto cultural, direcionando a alocação de recursos nos sistemas de saúde.  

Uma revisão sistemática e meta-análise conduzida por Ta-Chuan Yeh e colaboradores investigou a proporção e o risco de mortes por suicídio e tentativas de suicídio em feriados amplamente celebrados em muitos países e regiões (Natal, Véspera de Natal, Ano-Novo e Dia dos Namorados). 

 

Método 

O estudo foi realizado de acordo com as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). 

 Artigos publicados até 22 de julho de 2024 nas seguintes bases de dados (PubMed, Embase, PsycInfo e Cochrane Central Register of Controlled Trials (CENTRAL)) foram utilizados nas pesquisas, sem restrições de linguagem e data de publicação. Os autores também pesquisaram a literatura cinzenta, as listas de referências dos estudos incluídos e revisões sistemáticas relacionadas. 

 

Resultados 

Foram incluídos 28 estudos (totalizando 2.186.094 participantes), sendo 18 referentes a mortes por suicídio e 10 a mortes por suicídio ou comportamentos auto lesivos/suicidas. O período de seguimento dos estudos variou de 1 a 35 anos. O estudo mais antigo é de 1969 e o mais recente de 2019. Houve quatorze estudos da Europa, dez da América do Norte, dois da Ásia, um da América do Sul e um do Pacífico. 

A proporção de suicídios anuais na Véspera de Natal foi de 0,23% [0,17 – 0,28%; número de estudos (k) = 11; I² = 50,8%], 0,24% (0,19 – 0,29%; k = 17; I² = 65,8%) no Dia de Natal e 0,39% (0,31 – 0,48%; k = 16; I2 = 80,7%) no Dia de Ano-Novo, enquanto em dias comuns (isto é, a média diária de suicídios ao longo dos 365 dias do ano) foi de 0,26%. 

Comparado aos dias comuns, o risco foi 17% menor no Dia de Natal (RR = 0,83; 0,72 – 0,96) e 33% maior (RR = 1,33; 1,08 -1,65) no Dia de Ano-Novo. Além disso, a diferença de risco absoluto ou risco atribuível (DR) foi significativamente menor na Véspera de Natal (−0,06%; −0,10 – 0,01%; k = 10; I2 = 0%) e significativamente maior no Dia de Ano-Novo (0,10%; 0,02 – 0,17%; k = 14; I2 = 60,7%), quando comparados a dias comuns. A diferença de proporção entre esses três feriados e dias comuns apresentou achados semelhantes na análise de metarregressão. 

A maioria dos países mostra uma proporção de suicídios igual ou menor da Véspera de Natal para o Dia de Natal, exceto o México; as maiores reduções são observadas na Austrália e nos Países Baixos. Entretanto, na maior parte dos países há aumento na proporção de suicídios após o Dia de Natal, aproximando-se do Dia de Ano-Novo. A proporção anual de suicídios ocorrendo no Dia de Ano-Novo também varia entre os países (p < 0.001) e foi menor em estudos com duração mais longa (p = 0.009).  

A proporção de suicídios anuais que ocorrem no Dia dos Namorados foi de 0,27% (0,24 – 0,30%; k = 5; I² = 0%), e o RR o DR não foram significativos em comparação com o de um dia normal. A metanálise cumulativa não mostrou nenhuma relação temporal. 

Em comparação com dias comuns, o risco de comportamentos auto lesivos/suicidas foi 26% menor na Véspera de Natal (RR = 0.74; 0.57 – 0.96) e 17% maior no Dia de Ano-Novo (RR = 1.17; 1.03 – 1.34). No entanto, o RR de comportamentos auto lesivos/suicidas no Dia dos Namorados não foi significativo em comparação com dias comuns. A diferença absoluta de risco (DR) para comportamentos auto lesivos/suicidas foi semelhante à encontrada para mortes por suicídio. 

 

Discussão 

Alguns feriados estão associados a aumento do comportamento suicida e de comportamentos autolesivos sem intenção suicida, outros a redução, e alguns não mostram diferença significativa em relação a dias comuns. No estudo, a Véspera de Natal e o Dia de Natal foram associados a menor risco de suicídio e comportamentos autolesivos em comparação a dias comuns. Por outro lado, o risco de suicídio e de comportamentos autolesivos aumentou expressivamente no Dia de Ano-Novo, tendência observada em vários países. O país foi uma variável importante do risco de suicídio nesses feriados, com magnitudes diferentes entre as nações. Por fim, não houve diferença estatisticamente significativa no risco de suicídio ou comportamentos autolesivos entre o Dia dos Namorados e dias comuns. 

A meta-análise cumulativa mostrou que estudos mais recentes apresentam estimativas progressivamente maiores de risco de suicídio no Ano-Novo, padrão temporal que pode refletir mudanças sociais mais amplas, como maior pressão econômica, expectativas sociais mais intensas ou aumento do consumo de álcool durante os feriados, que podem aumentar a vulnerabilidade nesse período. 

Nas análises de sensibilidade, quatro estudos contribuíram para a heterogeneidade, todos relatando taxas relativamente mais altas de suicídio. Dois deles abrangiam países da América Latina (México e Colômbia), o que pode refletir questões culturais específicas da região. O Natal, em muitos países latino-americanos, é uma festa familiar com forte influência religiosa. Para pessoas que estão isoladas socialmente, enfrentando dificuldades econômicas ou conflitos familiares, o contraste entre o clima festivo e sua realidade pessoal pode intensificar sentimentos de solidão ou sofrimento. 

Tanto efeitos positivos quanto negativos parecem influenciar a relação entre grandes feriados e risco de suicídio. As taxas mais baixas de suicídio observadas na Véspera e no Dia de Natal podem estar relacionadas às expectativas positivas desse período, como o aumento dos sentimentos de esperança, além da maior conexão e apoio social. Além disso, algumas pessoas com ideação suicida podem postergar seus planos para após o Natal, contribuindo para o pico observado no Ano-Novo. 

Uma vez que apenas cinco estudos analisaram suicídio no Dia dos Namorados, o poder estatístico para detectar efeitos pequenos foi limitado e a ausência de diferença significativa deve ser interpretada com cuidado. Mais pesquisas são necessárias para conclusões definitivas em relação a essa data. 

 

Limitações 

  • A maioria dos estudos incluídos são originários de países desenvolvidos e predominantemente populações cristãs; 
  • Em países onde o cristianismo não é a religião predominante, o risco de suicídio durante o Natal pode ser semelhante ao de dias comuns e outras datas significativas para aquela cultura podem estar associadas a redução do suicídio;  
  • O uso da média anual do número de suicídios para calcular a proporção e o risco de suicídio pode não ter considerado mudanças nas taxas de suicídio ao longo dos anos particularmente em períodos de seguimento muito longos, mas na metarregressão o ano e duração do estudo não foram moderadores importantes; 
  • Os estudos incluídos abrangeram uma ampla faixa de tempo, na qual fatores ambientais e as taxas de mortalidade modificaram. Observou-se que o risco de suicídio no Dia de Ano-Novo aumentou gradualmente, com estudos mais recentes contribuindo para estimativas progressivamente maiores; 
  • Na epidemiologia do suicídio, fatores como idade, gênero, status socioeconômico, uso de substâncias, comportamento suicida prévio e consumo de álcool são importantes, mas poucos estudos tinham essas informações; 
  • Ao calcular os dados dos comportamentos autolesivos sem intenção suicida, não é possível distinguir entre tentativas de suicídio que resultaram em algumas mortes e episódios de autolesão/parassuicídio sem morte, levando a certa heterogeneidade nos resultados; 
  • Encontrou-se efeitos de estudos pequenos no risco de suicídio no Dia de Ano-Novo. 

 

Impactos para a Prática Clínica 

  • A maioria dos países apresenta um risco relativamente menor de suicídio na véspera de Natal e no dia de Natal, mas um risco de suicídio significativamente maior no dia de Ano Novo; 
  • Ainda que não haja dados do Brasil, vale notar que dois países da América Latina (México e Colômbia) apresentaram maior taxa de suicídio no Natal. A explicação sugerida pelos autores – de que, em contextos em que o Natal é uma celebração familiar com forte influência religiosa, o contraste entre o clima festivo e a realidade de quem vive isolamento social, dificuldades econômicas ou conflitos familiares pode intensificar sentimentos de solidão ou sofrimento – pode ser aplicável também ao nosso cenário nacional; 
  • É importante que governos e serviços de saúde fortaleçam os esforços de prevenção ao suicídio durante períodos críticos, capacitando profissionais de saúde para reconhecimento e manejo de sinais de alerta e intensificando as ações de serviços de atendimento a situações de crise.  

 

Autoria

Foto de Tayne Miranda

Tayne Miranda

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com residência médica em Psiquiatria (2022) e mestrado em Psicologia Social (2025) pela Universidade de São Paulo (USP). Além da atuação na Afya, também atende no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e em consultório particular.

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Referências bibliográficas

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