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Psiquiatria12 dezembro 2025

Padrões de uso e iniciação de substâncias entre jovens LGBTQIAPN+ no Brasil

Adolescentes LGBTQIAPN+, especialmente os designados como mulheres ao nascer, possuem risco aumentado para uso precoce e elevado de substâncias.
Por Tayne Miranda

A adolescência é um período sensível para o início e progressão do uso de substâncias psicoativas, graças a alterações no neurodesenvolvimento que afetam a sensibilidade à recompensa e funções executivas. Nesse contexto, certos subgrupos de adolescentes apresentam maior vulnerabilidade ao uso de substâncias, como é o caso dos adolescentes pertencentes a minorias sexuais e de gênero – incluindo lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, queer, intersexuais, assexuais, pansexuais, não-binários e outras identidades (LGBTQIAPN+). Essa maior vulnerabilidade tem sido atribuída ao estigma e à discriminação que essa população sofre, o que é conhecido como estresse de minorias. Desse modo, estressores estruturais e interpessoais – incluindo preconceito, rejeição e apoio social limitado – podem contribuir para o sofrimento psicológico e aumentar o envolvimento em comportamentos de risco à saúde. Essa maior vulnerabilidade entre adolescentes LGBTQIAPN+ se reflete em taxas de prevalência consistentemente elevadas de uso de substâncias em diversos contextos socioculturais. 

Pesquisas demonstraram que jovens LGBTQIAPN+ apresentam padrões de uso de substâncias diferentes dos jovens cisgêneros heterossexuais, mas poucos estudos investigaram como esses padrões diferem com base no sexo de nascimento e em países de baixa e medida renda. Nesse sentido, Caio Petrus e colaboradores compararam a prevalência e a idade de início do uso de substâncias entre participantes LGBTQIAPN+ e participantes cisgêneros heterossexuais a partir dos dados de uma coorte brasileira de base comunitária.  

 

Método 

Os dados do estudo foram obtidos do Brazilian High-Risk Cohort Study for Mental Health Conditions (BHRCS), um estudo longitudinal prospectivo, de base comunitária, que investiga o surgimento de problemas de saúde mental desde a infância até a adolescência e o início da vida adulta. O recrutamento de crianças de 6 a 14 anos de 57 escolas públicas de São Paulo e Porto Alegre ocorreu entre 2010 e 2011. 2.511 participantes foram incluídos. A amostra foi dividida em uma subamostra comunitária selecionada aleatoriamente (38%) e uma subamostra ampliada de alto risco (62%), identificada por meio de triagem para psicopatologia precoce e histórico familiar, estratégia que visou aumentar o poder estatístico em questões de neurodesenvolvimento. Os participantes foram reavaliados em duas ondas subsequentes de coleta de dados (2013-2014 e 2017-2018), com retenção de 80 e 75%, respectivamente.  

A identidade de gênero e orientação sexual, bem como o uso de substâncias ao longo da vida foram avaliados de forma confidencial, com materiais autoaplicáveis.  

Resultado 

2.511 participantes foram avaliados inicialmente, com 2.109 reavaliados na onda 1 (faixa etária de 9 a 18 anos) e 1.905 na onda 2 (faixa etária de 12 a 21 anos) – uma taxa de retenção de 75,9% ao longo de 6 anos. Apenas 1.492 participantes completaram todas as questões sobre identidade de gênero e orientação sexual. Entre eles, 247 (16,6%) eram LGBTQIAPN+ e 1.245 (83,4%) cisgênero heterossexuais. A idade média na onda 2 foi semelhante entre os grupos. Mais participantes do grupo LGBTQIAPN+ foram designadas mulher ao nascimento em comparação ao grupo cisgênero heterossexual (66% vs. 44%; p < 0,001). Não houve diferenças significativas entre os grupos em relação ao estrato amostral, cor da pele autorreferida ou status socioeconômico. 

Entre os participantes LGBTQIAPAPN+, a orientação sexual mais frequentemente relatada foi bissexual (68,3%), seguida por gay (14,0%) e lésbica (13,1%). Outras orientações incluíram assexual (8,1%) e pansexual (1,8%). Quanto à identidade de gênero, 4,1% se identificaram como transgênero, enquanto proporções menores se identificaram como agênero (0,5%), não binário (0,9%) ou queer (0,5%).  

O consumo de álcool ao longo da vida foi relatado por 83,7% dos participantes cisgêneros heterossexuais e por 85,9% dos participantes não cisgêneros heterossexuais, sem diferença estatisticamente significante entre os grupos (OR = 1,08; IC 95%: 0,71–1,70; p = 0,719). Entre indivíduos designados homens ao nascimento, as taxas de prevalência foram semelhantes entre adolescentes cisgênero heterossexuais e LGBTQIAPN+ (82,2% vs. 80,8%; OR = 0,77; IC 95%: 0,41–1,53; p = 0,441). Entre os designados mulheres ao nascimento, a prevalência foi ligeiramente maior no grupo LGBTQIAPN+ em comparação às cisgênero heterossexuais (88,6% vs. 85,6%), mas significância estatística (OR = 1,37; IC 95%: 0,78–2,53; p = 0,291). 

Para tabaco, o uso ao longo da vida foi relatado por 48,0% dos participantes LGBTQIAPN+, em comparação a 36,8% dos participantes cisgênero heterossexuais (OR = 1,66; IC 95%: 1,22–2,26; p < 0,001), diferença decorrente majoritariamente dos participantes designados mulheres ao nascimento (49,0% vs. 34,2%; OR = 1,97; IC 95%: 1,33–2,91; p < 0,001). Entre os designados homens ao nascimento, as taxas não diferiram significativamente (46,1% vs. 38,9%; OR = 1,24; IC 95%: 0,74–2,05; p = 0,408). 

O uso de cannabis ao longo da vida foi mais relatado por participantes LGBTQIAPN+ do que por cisgênero heterossexuais (40,4% vs. 27,0%; OR = 1,94; IC 95%: 1,42–2,64; p < 0,001). Entre as designadas mulheres ao nascimento, a prevalência foi de 44,3% no grupo LGBTQIAPN+ e de 23,3% no grupo cisgênero heterossexual (OR = 2,77; IC 95%: 1,86–4,12; p < 0,001). Entre os designados homens ao nascimento, não houve diferença significativa (33,3% vs. 30,0%; OR = 1,09; IC 95%: 0,64–1,80; p = 0,751). 

7,4% dos participantes LGBTQIAPN+ relataram uso de cocaína ao longo da vida, comparados a 3,6% dos cisgênero heterossexuais (OR = 2,28; IC 95%: 1,21–4,13; p = 0.008). Entre as designadas mulheres ao nascimento, a prevalência foi maior no grupo LGBTQIAPN+ (7,4% vs. 2,4%; OR = 3,25; IC 95%: 1,436–7,73; p = 0.007). Entre os designados homens ao nascimento, a diferença não foi estatisticamente significativa (7,5% vs. 4,6%; OR = 1,56; IC 95%: 0,56–3,72; p = 0,372). 

Não foram observadas diferenças estatisticamente significantes entre participantes designados homens ao nascimento. Por outro lado, mulheres bissexuais apresentaram prevalência consistentemente mais alta de uso de todas as substâncias quando comparadas a mulheres heterossexuais e lésbicas. O uso de álcool foi relatado por 77,9% das bissexuais, 66,1% das heterossexuais e 57,7% das lésbicas (p = 0,035). O uso de tabaco foi relatado por 26,3% das bissexuais, 12,9% das heterossexuais e 16,0% das lésbicas (p = 0,004). Para cannabis, 56,0% das bissexuais relataram uso ao longo da vida, em comparação a 23,9% das heterossexuais e 15,4% das lésbicas (p < 0,001). Por fim, o uso de cocaína foi relatado por 9,2% das bissexuais, 2,4% das heterossexuais e 7,4% das lésbicas (p = 0,003). 

A prevalência ao longo da vida de uso de álcool, tabaco, cannabis e cocaína aumentou progressivamente com a idade em ambos os grupos, com participantes LGBTQIAPN+ relatando início mais precoce: 8,7% já haviam usado álcool aos 10 anos, em comparação a apenas 1,9% dos participantes cisgênero heterossexuais. 

O uso de tabaco apresentou padrão semelhante, com baixa prevalência antes dos 13 anos e aumento gradual durante a adolescência. Aos 21 anos, 47,4% dos participantes LGBTQIAPN+ e 25,3% dos cisgênero heterossexuais relataram uso ao longo da vida.  

O uso de cannabis foi quase inexistente até os 13 anos, aumentando rapidamente entre os LGBTQIAPN+. Aos 15 anos, 26,5% LGBTQIPAN+ relataram uso, em comparação a 7,5% no grupo cisgênero heterossexual. 

O uso de cocaína foi relativamente incomum nas idades mais jovens, mas aumentou substancialmente no grupo LGBTQIAPN+ em idades mais avançadas. Aos 22 anos, 22,2%  dos jovens LGBTQIAPN+ relataram uso, em comparação a 11,1% dos cisgênero heterossexuais. 

Entre os participantes designados como do sexo feminino ao nascer, os participantes LGBTQIAPN+ mostram início significativamente mais precoce ao consumo de álcool, tabaco e cannabis (p = 0,001).  

 

Discussão 

Jovens LGBTQIAPN+ na amostra estudada apresentaram quase o dobro de chances de relatar uso de cannabis ao longo da vida (OR = 1,94) e uso de cocaína (OR = 2,28). Em modelos ajustados por idade, restritos a participantes designadas mulheres ao nascimento, indivíduos bissexuais mostraram chances significativamente maiores de uso de álcool, tabaco, cannabis e cocaína ao longo da vida em comparação a mulheres heterossexuais, enquanto lésbicas e outros subgrupos não apresentaram diferenças significativas. Os pesquisadores pontuam como uma possível explicação para o fenômeno o fato de que, no Brasil, é comum que paire uma dúvida sobre a legitimidade da bissexualidade, levando a exclusão tanto de comunidades heterossexuais quanto lésbicas. As disparidades no uso de cannabis e tabaco começaram a surgir por volta dos 15 anos e se tornaram mais pronunciadas até os 22 anos.  

Os dados são relevantes, uma vez que o início precoce do uso de substâncias aumenta o risco de dependência, comorbidades psiquiátricas e desfechos adversos ao longo da vida. No Brasil, pessoas LGBTQIAPN+ enfrentam discriminação e estigma generalizados, bem como são expostos a um acesso limitado a serviços de saúde mental e de tratamento de substâncias culturalmente competentes. 

Os autores sugerem algumas estratégias para mitigar os riscos identificados no estudo, como associar programas de prevenção ao uso de substâncias às iniciativas escolares de saúde e educação já existentes; utilizar centros comunitários LGBTQIAPN+ para oferecer um ambiente de apoio que abordem tanto o estigma quanto os riscos à saúde; lançar mão de intervenções digitais — amplamente utilizadas por jovens brasileiros.  

 

Limitações 

  • O estudo não teve como objetivo fornecer estimativas de prevalência do uso de substâncias entre adolescentes brasileiros que sejam representativas em nível nacional; 
  • O estudo foi conduzido em dois grandes centros urbanos (São Paulo e Porto Alegre), o que pode limitar a generalização para regiões rurais e com menos recursos; 
  • O desalinhamento temporal entre a avaliação da identidade de gênero e orientação sexual (medida pela primeira vez na onda 2) e o uso de substâncias ao longo da vida (relatado retrospectivamente na onda 2 e parcialmente na onda 1) pode levar a classificação temporal incorreta; 
  • Não havia informações disponíveis sobre a idade de início do uso de cocaína. 

 

Impactos para a Prática Clínica 

  • Adolescentes LGBTQIAPN+, especialmente aqueles designados como mulheres ao nascer, possuem risco aumentado para uso precoce e elevado de substâncias, incluindo cannabis, tabaco e cocaína. Essas disparidades emergem no início da adolescência e persistem até a idade adulta jovem, evidenciando a necessidade de estratégias de prevenção culturalmente adaptadas.  

 

Autoria

Foto de Tayne Miranda

Tayne Miranda

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), com residência médica em Psiquiatria (2022) e mestrado em Psicologia Social (2025) pela Universidade de São Paulo (USP). Além da atuação na Afya, também atende no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) e em consultório particular.

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Referências bibliográficas

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