Em julho deste ano foi publicada a nova definição da Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) no American Journal of Respiratory and Critical Care (AJRCC), em atualização aos critérios de Berlim. O tema foi apresentado durante o congresso 2023 da American Thoracic Society (ATS), em maio, quando foi apresentada a nova proposta para os critérios adotados em 2012. Confira agora tudo o que mudou.
Introdução
A SDRA é uma síndrome clínica caracterizada por insuficiência respiratória hipoxêmica aguda, com infiltrado pulmonar difuso, de origem não cardiogênica e etiologia variada. Desde a primeira descrição da síndrome por Ashbaugh em 1967, duas definições foram propostas: a primeira, pela Conferência de Consenso Americano-Europeu em 1992 e posteriormente em 2012 pela Sociedade Europeia de Medicina Intensiva, em Berlim.
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Uma década após a definição de Berlim, diversos avanços no manejo e estudo de SDRA, destacaram as limitações das definições anteriores. Como resposta a essas questões, em junho de 2021, foi iniciada uma Conferência de Consenso Global, com 32 especialistas em SDRA, com o objetivo de atualizar a definição da SDRA, sendo o resultado desta conferência publicado em julho deste ano na ATS, pelo professor Michael Matthay e colaboradores.
Abaixo apresentamos a nova definição global na Tabela 1 e as principais diferenças da definição de Berlim na Tabela 2.
Tabela 1: Critérios Diagnósticos da Nova Definição Global de SDRA
Critérios que se aplicam a todas as categorias de SDRA | |||
Fatores de risco e origem do edema | Precipitado por um fator de risco como pneumonia, infecção não pulmonar, trauma, transfusão, aspiração, choque. Edema pulmonar não é exclusivo ou primariamente atribuído a choque cardiogênico/sobrecarga volêmica. | ||
Tempo | Início agudo ou piora da insuficiência respiratória hipoxêmica dentro de 1 semana do início estimado do fator de risco predisponente ou novos sintomas respiratórios ou agravamento dos sintomas respiratórios prévios. | ||
Imagem de Tórax | Opacidades bilaterais em radiografia de tórax ou tomografia computadorizadas ou linhas B bilaterais e/ou consolidações na ultrassonografia, não totalmente explicadas por derrame pleural, atelectasias ou nódulos pulmonares. | ||
Critérios que se aplicam a categorias especificas de SDRA | |||
SDRA não intubados | SDRA intubados | Definição Modificada em cenários de recursos limitados | |
Oxigenação | PaO2/FiO2 ≤ 300 ou SpO2/FiO2 ≤ 315
(se SpO2 ≤ 97) com CNAF ≥ 30 L/min ou VNI/CPAP ≥ 5 cmH2O | Leve:
200 ≤ PaO2/FiO2 ≤ 300 ou 235 ≤ SpO2/FiO2 ≤ 315 Moderado: 100 ≤ PaO2/FiO2 ≤ 200 ou 148 ≤ SpO2/FiO2 ≤ 235 Grave: PaO2/FiO2 ≤ 100 ou SpO2/FiO2 ≤ 148
| SpO2/FiO2 ≤ 315
(se SpO2 ≤ 97). PEEP ou fluxo de oxigênio não necessários para o diagnóstico. |
Legenda: CNAF: cateter nasal de alto fluxo; CPAP: Continuous Positive Airway Pressure
Tabela 2: Resumo das principais diferenças entre a nova definição global e a definição pregressa de Berlim.
Definição de Berlim | Justificativa para atualização do critério | Nova Definição Global |
Opacidades bilaterais em radiografia de tórax ou tomografia computadorizada não totalmente explicadas por derrame, atelectasias ou nódulos pulmonares. | Radiografia e tomografia não disponíveis em alguns cenários clínicos. | Ultrassom pode ser utilizado para identificar a perda da aeração pulmonar (linhas B difusas e/ou consolidação) |
Três categorias de gravidade definidas pela relação PaO2/FiO2 | Medidas de oximetria periférica (SpO2/FiO2) são amplamente utilizadas e validadas como alternativa a relação PaO2/FiO2 | SpO2/FiO2 pode ser usado para diagnóstico e avaliação de gravidade se SpO2 ≤ 97%. |
Necessidade de ventilação mecânica invasiva (PEEP ≥ 5 cmH2O) ou não invasiva (CPAP ≥ 5 cmH2O nas formas leves) para diagnóstico e classificação da SDRA | CNAF vem sendo cada vez mais utilizado em pacientes com hipoxemia, que não atenderiam os critérios de SDRA pela definição anterior | Nova categoria de SDRA em paciente não intubados, criada para pacientes em CNAF ≥ 30 L/min que atendem os critérios de SDRA |
Ventilação mecânica invasiva e não invasiva, não disponível em cenários de recursos limitados | Definições de SDRA modificada para cenários de recursos limitados, não sendo necessário PEEP, relação PaO2/FiO2 ou CNAF |
Legenda: CNAF: Cateter nasal de alto fluxo
Benefícios:
- Inclusão de pacientes não intubados, com cateter nasal de alto fluxo (CNAF) ≥ 30 L/min, permitindo o diagnóstico e cuidado precoce dos pacientes com SDRA.
- Não é mais necessário a gasometria arterial, principalmente em cenários de recursos limitados para realizar o diagnostico, utilizando a relação SpO2/FiO2 para o diagnóstico da SDRA.
- Inclusão da ultrassonografia para avaliação da perda de aeração pulmonar, auxilia no diagnóstico a beira leito em cenários de recurso limitados.
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Limitações:
- CNAF é pouco disponível no nosso meio.
- A SpO2 pode sofrer influência da perfusão tecidual e tom da pele do paciente, podendo conduzir a decisões inadequadas.
Mensagem Final
A nova definição global de SDRA apresenta recomendações para atualizar a definição de Berlim em várias áreas chave, fundamentadas em evidências atuais e na prática clínica. Entre as mudanças propostas, destaca-se a inclusão nos critérios, de pacientes não intubados em CNAF, a adoção da relação SpO2/FiO2 como alternativa a relação PaO2/FiO2 para avaliação da oxigenação e a introdução da ultrassonografia pulmonar como ferramenta diagnóstica para detectar a perda de aeração pulmonar, além das definições modificada para cenários de recursos limitados.
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