A internação em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) expõe crianças e suas famílias a um estresse físico e psicológico significativo. Infelizmente, as consequências em longo prazo são potenciais e incluem ansiedade, distúrbios do sono e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Não somente o paciente, mas também os pais são afetados, com o sofrimento intensificado pela incerteza, complexidade dos cuidados, comunicação limitada e participação restrita nos cuidados. Essas questões podem influenciar negativamente a recuperação da criança.
Os diários de Unidades de Terapia Intensiva (UTI), amplamente utilizados em cuidados intensivos de adultos, permanecem pouco explorados em UTIP. As evidências existentes sugerem que eles podem melhorar a comunicação, a reconstrução da memória e o bem-estar psicológico, mas os dados em UTIP são limitados e predominantemente qualitativos. Um estudo publicado no jornal Intensive Critical Care Nursing avaliou se os diários de UTIP podem melhorar a qualidade do sono e os desfechos relacionados ao estresse em crianças, ao mesmo tempo que reduzem a ansiedade e a depressão nos pais.

Metodologia
Conduzido na China, o estudo consistiu em um ensaio clínico randomizado (ECR), controlado e simples-cego. Foram incluídos pacientes pediátricos com idades entre 3 e 14 anos internados em uma UTIP com previsão de permanência superior a dois dias e sem histórico de transtornos psiquiátricos ou cognitivos. Os pais eram elegíveis se tivessem mais de 18 anos e fossem os cuidadores primários biológicos, sem comprometimentos psiquiátricos/cognitivos, além de fornecer consentimento por escrito.
Os critérios de exclusão foram:
- Para os pacientes:
- Ausência de um cuidador primário;
- Deficiências de desenvolvimento/intelectuais;
- Deficiências sensoriais graves;
- Internação relacionada a abuso/negligência;
- Observação pós-operatória sem necessidade de cuidados intensivos;
- Participação simultânea em estudos intervencionistas conflitantes.
- Para os pais:
- Analfabetismo;
- Déficits sensoriais significativos;
- Envolvimento em estudos intervencionistas concorrentes;
- Luto familiar recente (≤ 2 meses).
O grupo controle (GC) recebeu o atendimento padrão; o grupo experimental (GE) recebeu adicionalmente uma intervenção com o diário. Foram comparadas a qualidade do sono e os distúrbios de estresse das crianças, bem como a ansiedade, a depressão e os distúrbios de estresse dos pais em diferentes momentos, entre os grupos.
As seguintes escalas foram aplicadas:
- Escala de Distúrbios do Sono para Crianças (Sleep Disturbance Scale for Children – SDSC): aplicada na admissão na UTIP, 1 mês após a alta e 3 meses após a alta;
- Versão chinesa da Lista de Verificação de Transtorno de Estresse Infantil (Child Stress Disorder Checklist – CSDC): aplicada em múltiplos momentos. As respostas ao estresse agudo foram avaliadas utilizando a subescala de reação aguda na admissão e na alta da UTIP; as respostas ao estresse pós-traumático foram avaliadas utilizando a subescala de reação recente nos acompanhamentos de 1 e 3 meses após a alta.
Resultados
Foram incluídas 94 díades, sendo 47 em cada grupo, mas houve uma taxa de perda de seguimento de 11,7%. Dessa forma, foram analisadas 83 díades.
Durante a internação, o GE apresentou tempo total de despertar significativamente menor em cada episódio de sono e duração média de cada despertar por sessão de sono significativamente menor do que o GC (P = 0,006; P = 0,032). Os escores da CSDC das crianças do GE foram significativamente menores do que os do GC 1 e 3 meses após a alta (P = 0,003; P = 0,006).
No GE, os pais relataram escores de ansiedade significativamente menores na alta da UTIP e 1 mês depois (P < 0,001; P = 0,015). Na alta, os escores de depressão foram significativamente menores no GE. Essa diferença permaneceu significativa em 1 e 3 meses após a alta (P < 0,001; P < 0,05). Na alta da UTIP, as pontuações dos pais foram significativamente menores no GE do que no GC (P < 0,001).
Conclusão
Esse ECR concluiu que a intervenção com o diário na UTIP avaliada foi associada à melhora da qualidade do sono e à redução dos sintomas relacionados ao estresse em crianças durante o período de internação e também no acompanhamento de três meses. Além disso, os diários reduziram os impactos psicológicos negativos nos pais. Os resultados destacam o diário como uma intervenção útil e humanizada que minimiza o fardo psicológico da doença crítica para pacientes e seus familiares, apesar de não ter sido observada uma ansiedade parental significativa aos três meses. No entanto, os pesquisadores destacaram que sua implementação eficaz no dia a dia de uma UTIP exige a inclusão do registro no diário à rotina da equipe de enfermagem e também a nomeação de um profissional responsável para iniciar e manter a intervenção, garantindo seu uso contínuo.
Comentário
Já vivenciei a oportunidade do uso do diário em um lactente em UTIP e houve, de fato, uma melhor compreensão e redução da ansiedade da família durante o período de internação. Os diários acabam sendo uma intervenção simples e de baixo custo que humaniza os cuidados intensivos, melhora a comunicação e apoia a recuperação psicológica tanto das crianças quanto de suas famílias (mesmo quando a criança ainda é pequena e com pouca capacidade de entendimento, as famílias se sentem amparadas). Conforme o ECR mencionado acima, os dados já existentes na literatura e essa vivência única que tive, mas crucial, observo que, quando integrados à rotina de cuidados e apoiados por um profissional responsável designado, os diários fortalecem o cuidado centrado na família e abordam uma dimensão frequentemente negligenciada: o bem-estar emocional em longo prazo.
Autoria

Roberta Esteves Vieira de Castro
Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.