Logotipo Afya
Anúncio
Pediatria27 junho 2026

Transtorno do uso de álcool na gestação: diretrizes revisadas

Revisão analisa diretrizes internacionais sobre rastreamento, manejo e lacunas no cuidado do TUA na gestação.

O consumo de álcool durante a gestação é um dos desafios mais complexos da saúde pública global, com prevalência mundial estimada em 9,8%. Embora os riscos da exposição pré-natal sejam amplamente divulgados, o manejo clínico de mulheres com transtorno do uso de álcool (TUA) grave ainda é cercado de incertezas e lacunas assistenciais. 

As consequências da exposição fetal ao álcool são graves e bem documentadas, incluindo o transtorno do espectro alcoólico fetal (TEAF), restrição de crescimento e morbidade materna grave. No entanto, enquanto outras condições, como o transtorno do uso de opioides, possuem protocolos de tratamento claros, o TUA na gravidez permanece em uma zona cinzenta de evidências científicas e práticas. 

O estudo publicado em 2026 na revista Alcohol: Clinical and Experimental Research, liderado por pesquisadores dos Estados Unidos em colaboração internacional, incluindo o Brasil, teve por objetivo revisar sistematicamente as diretrizes de prática clínica internacionais para examinar como é abordada a cascata completa de cuidados do TUA na gravidez, desde o diagnóstico até o tratamento 

Saiba mais: Síndrome alcoólica fetal: Um dilema obstétrico ou do obstetra? 

Gestante em consulta pré-natal

Como a revisão avaliou as diretrizes internacionais 

O estudo utilizou a estrutura PICAR para definir a elegibilidade das diretrizes, focando em organizações médicas de países de língua inglesa e na Organização Mundial da Saúde (OMS) a partir de 2014. A busca abrangeu mais de 40 bancos de dados de diretrizes e literatura cinzenta, identificando inicialmente 1.045 registros, dos quais 18 diretrizes finais foram analisadas. 

A qualidade e o risco de viés das diretrizes foram avaliados de forma independente por dois revisores, utilizando a ferramenta AGREE-REX. Os pesquisadores classificaram as recomendações com base no foco primário, como rastreamento, intervenção breve, medicamentos ou abordagem psicossocial, e sintetizaram os dados de forma narrativa, organizando-os conforme a cascata de cuidado do TUA. 

Saiba mais: Exposição pré-natal ao álcool e efeitos adversos nos filhos 

Rastreamento é frequente, mas tratamento ativo aparece pouco 

Os resultados revelaram uma desconexão crítica: enquanto 94% das diretrizes mencionam os riscos do álcool e 89% recomendam o aconselhamento para cessação, a orientação para o tratamento ativo é escassa. Apenas 44% das diretrizes mencionam o uso de medicamentos para TUA (MAUD), e somente uma delas oferece suporte cauteloso ao uso de naltrexona, baseado em dados de segurança. 

Em contrapartida, 61% das diretrizes encerram suas recomendações no encaminhamento para especialistas, e metade limita suas orientações apenas ao manejo da síndrome de abstinência aguda. Intervenções psicossociais específicas foram mencionadas em apenas 17% dos documentos analisados. Regionalmente, as diretrizes canadenses mostraram-se mais abrangentes em estratégias de redução de danos em comparação às dos EUA e da Austrália. 

Saiba mais: Transtorno por uso de álcool: um apanhado da farmacoterapia 

Lacunas de evidência e impacto na continuidade do cuidado 

A discussão enfatiza que a falta de recomendações de tratamento não reflete má qualidade das diretrizes, mas sim escassez de evidências robustas na literatura. Esse “vácuo” de informação resulta em taxas de descontinuação de medicamentos superiores a 90% quando a paciente inicia tratamento anteriormente e depois descobre a gravidez, muitas vezes sem uma análise de risco-benefício adequada que considere os danos do álcool não tratado. 

Uma limitação importante do estudo foi a restrição a diretrizes em língua inglesa, o que excluiu protocolos de países da Europa, Ásia e América Latina. Contudo, a inclusão das diretrizes da OMS mitiga parcialmente essa lacuna, visto que muitos países, como o Brasil, utilizam-nas como base para suas políticas nacionais. 

Mensagem prática para o cuidado de gestantes com TUA 

O rastreamento universal, reiterado por 72% das diretrizes, é apenas o primeiro passo. Na ausência de protocolos farmacológicos definitivos, deve-se priorizar uma abordagem de decisão compartilhada, pesando o risco incerto da medicação contra o risco certo e grave do consumo continuado de álcool. O foco deve migrar de uma postura meramente referenciadora para uma gestão integrada, utilizando suporte psicossocial e redução de danos sempre que o tratamento padrão for inacessível. 

Autoria

Foto de Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Roberta Furtado Stivanin Rachid Novais

Conteudista médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade Souza Marques, com residência médica em Medicina de Família pela Universidade Federal Fluminense e especialização em Ginecologia e Obstetrícia pela SOGIMA-RJ, Mestre em Saúde Materno Infantil pela UFF e Doutoranda em Ciências Médicas pela UFF. Além da atuação na Afya, é professora de Obstetrícia na UFF.

Como você avalia este conteúdo?

Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.

Compartilhar artigo

Referências bibliográficas

Newsletter

Aproveite o benefício de manter-se atualizado sem esforço.

Anúncio

Leia também em Pediatria