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Pediatria18 junho 2026

Sedação em crianças críticas e função neurocognitiva em longo prazo

Coorte avalia sedação em crianças críticas, exposição a benzodiazepínicos e QI anos após ventilação mecânica.

Em pediatria, existem preocupações de que medicamentos sedativos, frequentemente usados em pacientes em Unidades de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP), possam comprometer o cérebro em desenvolvimento, principalmente os benzodiazepínicos. De fato, estudos realizados em modelos animais mostraram neurotoxicidade dependente da dose e da duração da exposição. Por outro lado, a dexmedetomidina parece ter efeitos protetores. No entanto, as evidências sobre sedação prolongada em crianças graves ainda são limitadas, embora estudos sobre exposição única à anestesia na infância não tenham demonstrado danos cognitivos claros. 

Diante dessa lacuna em medicina intensiva pediátrica, um estudo conduzido nos Estados Unidos analisou uma grande coorte de crianças em ventilação mecânica (VM) para determinar se a escolha do sedativo, especialmente a exposição a benzodiazepínicos versus dexmedetomidina, estava associada a desfechos neurocognitivos em longo prazo. O artigo “Sedative Choice and Neurocognitive Outcomes After Critical Illness in Early Childhood”, de Curley e colaboradores, foi publicado no periódico JAMA Network Open. 

Saiba mais: CBMI 2023: Recomendações atuais para sedação e analgesia em UTI pediátrica 

Como a coorte avaliou cognição anos após a UTIP 

O estudo conduzido foi uma coorte prospectiva que avaliou os desfechos neurocognitivos em longo prazo em pacientes pediátricos de até oito anos que participaram do ensaio clínico previamente publicado denominado RESTORE. Esses pacientes haviam apresentado insuficiência respiratória aguda com necessidade de internação em UTIP. 

As crianças incluídas no estudo foram submetidas a testes neurocognitivos padronizados de três a oito anos após a hospitalização, com avaliadores cegos e avaliação do quociente de inteligência (QI) como desfecho primário. O objetivo foi avaliar a associação entre doença crítica, exposição a sedativos e função neurocognitiva posterior, considerando as características basais e a gravidade da doença. 

Saiba maisRevisão sistemática avalia a eficácia da analgesia com dexmedetomidina em UTIP 

Focus on intravenous drip with sick kid lying in hospital bed on background. Teen boy patient with cancer resting in bed having medication in dropper

O que os resultados sugerem sobre QI no longo prazo 

Duzentos e cinquenta e seis pacientes pediátricos foram submetidos a testes neurocognitivos, com mediana de idade de 6,6 anos (intervalo interquartílico [IIQ] 5,4-9,0 anos), sendo que 243 tiveram dados disponíveis. Dessas 243 crianças, a maioria (228 = 93,8%) apresentou, no momento do teste, avaliação global da função cognitiva adequada à idade (Categoria de Desempenho Cognitivo Pediátrico = 1). 

Os pacientes foram expostos a uma mediana de 8 dias de sedação contínua (IIQ 5-14), com idade mediana de 1 ano (IIQ 0,2-3,2) no momento da internação na UTIP, e a média do QI foi de 100,3 pontos (desvio-padrão [DP] 13,2), valor semelhante à média populacional padronizada no teste. 

Considerando o acompanhamento no longo prazo, o QI médio estimado foi: 

  • Nos pacientes que receberam opioides e benzodiazepínicos: 98,3; 
  • Nos pacientes que receberam múltiplas classes de sedativos, com exceção da dexmedetomidina: 100,6; 
  • Nos pacientes que receberam múltiplas classes de sedativos, incluindo dexmedetomidina: 101,9. 

Os resultados também mostraram que a diferença média ajustada no QI estimado entre os grupos que receberam opioides e benzodiazepínicos versus dexmedetomidina foi de -4,1, após ajustes para nível socioeconômico, gravidade da doença na admissão na UTIP e duração da VM. 

Como interpretar os achados na prática intensiva pediátrica 

O estudo concluiu que a escolha da sedação durante doenças críticas na primeira infância foi associada à função neurocognitiva no longo prazo, sendo que uma estratégia que envolvia a administração de opioides e benzodiazepínicos foi associada a um QI estimado mais baixo. 

A temática deste estudo é extremamente pertinente nos dias atuais. A primeira autora do artigo, Martha Curley, é enfermeira dedicada à pesquisa em sedação em UTIP, e o artigo reforça a importância de considerar que a escolha da sedação em pacientes pediátricos críticos pode estar associada ao desenvolvimento neurocognitivo anos após a internação. No estudo, o uso de esquemas que incluíram dexmedetomidina foi associado a QI estimado mais alto do que o observado no grupo exposto a opioides e benzodiazepínicos. 

Saiba mais: WFPICCS 2024: PICU Liberation – D) Delirium 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Editora médica na Afya. Formada em medicina pela Faculdade de Medicina de Valença, com residência em pediatria e medicina intensiva pediátrica. Mestrado (UFF). Doutorado (UERJ). Além da atuação na Afya, atua como professora de pediatria (UERJ), rotina da enfermaria de pediatria (UERJ) e consultório particular.

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