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Pediatria11 fevereiro 2026

Sedação e analgesia para procedimentos em emergências pediátricas italianas

Estudo italiano mostra falhas na sedação e analgesia pediátrica em emergências e aponta treinamento, protocolos e acesso a fármacos como principais barreiras.

Ansiedade e dor em crianças são frequentemente subdiagnosticadas e subtratadas, apesar das diretrizes internacionais de longa data para sedação e analgesia para procedimentos (SAP). Inclusive, dor e lesões são responsáveis ​​pela maioria das visitas ao pronto-socorro (PS) pediátrico. Na Itália, a maioria das crianças é atendida em PS para adultos ou de nível secundário, isto é, sem equipe pediátrica, protocolos padronizados, recursos adequados ou treinamento em SAP. Além disso, há disparidades regionais e limitações estruturais que contribuem para a inconsistência no atendimento. 

Um estudo italiano descreveu as práticas atuais de SAP mínima a leve. O objetivo foi identificar as principais barreiras para o atendimento ideal e estratégias para melhorar o manejo da ansiedade e da dor em procedimentos em pacientes pediátricos em todos os níveis de atendimento de PS. O artigo foi publicado no Italian Journal of Pediatrics. 

Saline intravenous (iv) drip in a Children's patient hand

Metodologia 

Langeli e colaboradores conduziram um estudo transversal com a equipe médica dos serviços de Emergência, Pediatria, Anestesia e Reanimação, Cirurgia Pediátrica, Ortopedia e Otorrinolaringologia. A equipe de enfermagem das enfermarias de Pediatria e dos Serviços de Emergência também foi incluída. Esses profissionais eram envolvidos em SAP em ambiente de emergência em hospitais sem PS de quatro hospitais de atendimento secundário na Itália.  

A coleta de dados ocorreu nos anos de 2021-2022 por meio de um questionário, composto por 37 perguntas e estruturado em quatro seções:  

  • Informações demográficas (6 perguntas); 
  • Perspectivas e conhecimentos pessoais (16 perguntas); 
  • Prática atual de SAP no local de trabalho (10 perguntas); 
  • Treinamento relacionado ao SAP (5 perguntas).  

Resultados 

A taxa de resposta foi de 80%, variando de 57% a 100% entre os centros. Foram analisados 346 questionários completos, sendo os respondentes compostos por 182 (52,6%) médicos e 164 (47,4%) enfermeiros.  

De um modo geral, 90,8% da equipe consideraram a dor durante procedimentos pediátricos como um tópico relevante, inclusive, a SAP foi considerada útil para o sucesso do procedimento por 97,4% dos respondentes e para melhorar a experiência de dor/ansiedade das crianças pela quase totalidade da amostra (98,6%). No entanto, quase a metade dos profissionais (47,7%) não estava satisfeita com o manejo da dor/ansiedade durante procedimentos em seus locais de trabalho e 56,9% relataram falta de conhecimento adequado. De fato, somente 22,8% demonstraram conhecimento adequado sobre o tempo de jejum e 39,6% sobre o monitoramento correto do paciente durante a SAP.  

A SAP foi realizada, no geral, por anestesiologistas (65,9%). Além disso, 91,9% dos respondentes realizaram/participaram de menos de quatro SAP por mês. A falta de treinamento representou a maior barreira para a implementação da SAP, segundo 64,3% dos respondentes. 

Considerando o ponto de vista farmacológico: 

  • O midazolam foi o medicamento mais acessível (80,9%) e utilizado (58,7%); 
  • O óxido nitroso e o fentanil intranasal foram menos disponíveis (2,9% e 15,3%, respectivamente) e utilizados (2,6% e 7,2%, respectivamente).  

Conclusão 

Os pesquisadores mostraram que, embora a maioria dos profissionais de saúde reconheça a SAP como essencial para reduzir a dor e a ansiedade em crianças, ela ainda é frequentemente percebida como insegura, principalmente pelos profissionais que não atuam em pediatria.  

As condições que contribuem para uma subutilização da SAP fora dos centros terciários consistiram, nessa amostra, em treinamento limitado, acesso restrito a medicamentos e protocolos padronizados, além de restrições organizacionais. Dessa forma, os achados deste estudo destacam a necessidade de educação continuada e estruturada para estes profissionais, de elaboração de diretrizes institucionais claras e de recursos adequados para integrar a SAP como prática padrão de rotina, e não como exceção, proporcionando um atendimento igualitário para as crianças italianas. 

Comentário 

Considerando o Brasil, observo, na prática, um relato de dificuldade dos profissionais de pediatria com a SAP, exceto em ambientes de cuidados intensivos. Dessa forma, incluir treinamentos direcionados à formação profissional de rotina e promover a responsabilidade institucional são cruciais para transformar a SAP em um componente obrigatório do atendimento pediátrico em todos os níveis do sistema de saúde. 

Autoria

Foto de Roberta Esteves Vieira de Castro

Roberta Esteves Vieira de Castro

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Valença ⦁ Residência médica em Pediatria pelo Hospital Federal Cardoso Fontes ⦁ Residência médica em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro. Mestra em Saúde Materno-Infantil (UFF) ⦁ Doutora em Medicina (UERJ) ⦁ Aperfeiçoamento em neurointensivismo (IDOR) ⦁ Médica da Unidade de Terapia Intensiva Pediátrica (UTIP) do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) da UERJ ⦁ Professora adjunta de pediatria do curso de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques ⦁ Membro da Rede Brasileira de Pesquisa em Pediatria do IDOR no Rio de Janeiro ⦁ Acompanhou as UTI Pediátrica e Cardíaca do Hospital for Sick Children (Sick Kids) em Toronto, Canadá, supervisionada pelo Dr. Peter Cox ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) ⦁ Membro do comitê de sedação, analgesia e delirium da AMIB e da Sociedade Latino-Americana de Cuidados Intensivos Pediátricos (SLACIP) ⦁ Membro da diretoria da American Delirium Society (ADS) ⦁ Coordenadora e cofundadora do Latin American Delirium Special Interest Group (LADIG) ⦁ Membro de apoio da Society for Pediatric Sedation (SPS) ⦁ Consultora de sono infantil e de amamentação ⦁ Instagram: @draroberta_pediatra

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Referências bibliográficas

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