A melatonina é um hormônio endógeno produzido pela glândula pineal, com papel central na regulação do ritmo circadiano e na qualidade do sono. A sua suplementação, contudo, é realizada muitas vezes de forma inadvertida e tem sido identificada como o principal agente envolvido em episódios de ingestão acidental e intoxicação medicamentosa sem supervisão em crianças de 0 a 5 anos nos Estados Unidos (EUA). Embora a maioria dos efeitos adversos sejam leves, desfechos graves podem ocorrer.
Do ponto de vista farmacológico, apresenta meia-vida curta (aproximadamente 40 minutos) e, dependendo da formulação (de liberação imediata ou prolongada), pode reduzir a latência do sono ou favorecer sua manutenção. Em crianças de 2 a 6 anos com transtorno do espectro autista (TEA) e outras condições do neurodesenvolvimento, seu uso pode ser indicado após avaliação clínica criteriosa e falha de intervenções comportamentais, dado que alterações na síntese e função da melatonina são comuns nesse grupo e associadas a dificuldades no início do sono.
Em contraste, para crianças com desenvolvimento típico, diretrizes baseadas em consenso recomendam priorizar estratégias não farmacológicas, como higiene do sono, rotinas consistentes para dormir e redução da exposição a telas no manejo da insônia. Quando necessário, a melatonina pode ser utilizada por curto período, em doses reduzidas e sob supervisão médica. Isso porque, o uso prolongado durante a primeira infância suscita preocupações quanto a possíveis repercussões no desenvolvimento endócrino, especialmente quando o fármaco passa a ser empregado como agente hipnótico de uso contínuo.
Veja mais: Melatonina: quais são os cuidados e riscos na utilização
Apesar do uso crescente em pediatria, a maior parte das evidências concentra-se em crianças mais velhas ou populações específicas, com seguimento limitado, permanecendo lacunas importantes quanto à segurança e efeitos a longo prazo em crianças pequenas.

Desenho do Estudo
Nesse cenário, foi conduzida uma revisão sistemática com a finalidade de analisar os efeitos do uso de melatonina em crianças pequenas, com ênfase na segurança e na eficácia.
A busca foi conduzida em bases de dados internacionais como Ovid MEDLINE, Embase, CINAHL Complete, APA PsycInfo, Web of Science, Cochrane Central e ClinicalTrials.gov, sendo pesquisados estudos publicados até fevereiro de 2025, utilizando palavras-chave relacionados à melatonina e crianças de 0 a 6 anos. Foram incluídos estudos prospectivos, em inglês, que avaliaram o uso de melatonina nessa faixa etária, publicados em periódicos revisados por pares ou literatura cinzenta (como resumos de congressos).
Após análise criteriosa, foram selecionados 12 estudos observacionais, 6 estudos experimentais e 1 protocolo de ensaio clínico.
Resultados e Discussão
No que concerne aos resultados, os estudos observacionais destacaram a ocorrência de superdosagem e o uso prolongado da melatonina, sobretudo entre crianças com comorbidades psiquiátricas.
Ademais, a incidência e a prevalência da prescrição da melatonina aumentaram ao longo do tempo em 5 anos, com alguns estudos relatando aumento de até 500%. Nesse cenário, cabe destacar que durante a pandemia de COVID-19, o uso indiscriminado da melatonina se tornou mais evidente, possivelmente relacionado ao aumento de exposição a telas e alterações no padrão do sono. Entre 2018 e 2022, a exemplo, houve aumento expressivo nos casos de overdose nos EUA, país em que a melatonina é considerada suplemento alimentar, facilitando seu acesso. De acordo com outro estudo americano, 90,2% das intoxicações por melatonina ocorreram por ingestão acidental, provavelmente relacionada ao consumo inadvertido de melatonina destinada a adultos. O aumento do uso em adultos, aliado à popularização das formulações em gomas e às inconsistências entre as concentrações reais e as indicadas nos rótulos, pode potencializar os efeitos adversos em crianças pequenas.
Os ensaios clínicos envolvendo crianças pequenas com condições neurológicas, como o transtorno do espectro autista, por sua vez, demonstraram que a melatonina reduz a latência do sono em pelo menos 30 minutos, com baixa ocorrência de efeitos adversos. Esses achados, corroborados por outras revisões, reforçam que a melatonina pode ser considerada em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento após intervenções comportamentais e avaliação médica criteriosa. Nenhum dos ensaios avaliou a eficácia em crianças com desenvolvimento típico.
Conclusão e Mensagem prática
Em síntese, as evidências disponíveis indicam que a melatonina exógena pode ser eficaz para reduzir a latência do sono em crianças pequenas com transtornos específicos do neurodesenvolvimento, como o TEA. No entanto, os dados sobre seu uso em crianças com desenvolvimento típico são escassos. Além disso, o aumento das prescrições, aliado a relatos de uso prolongado e superdosagem, reforçam a necessidade de uma abordagem cautelosa.
Diante desse cenário, recomenda-se priorizar intervenções não farmacológicas para a promoção de hábitos de sono saudáveis, fortalecer a prescrição baseada em evidências, reduzir a autoprescrição, ampliar a orientação aos pais e cuidadores e garantir o monitoramento clínico das crianças em uso de melatonina.
Autoria

Amanda Neves
Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE
Como você avalia este conteúdo?
Sua opinião ajudará outros médicos a encontrar conteúdos mais relevantes.