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Pediatria9 fevereiro 2026

Revisão sistemática analisa eficácia da melatonina em crianças pequenas

Uso de melatonina em crianças: eficácia, riscos, intoxicação acidental e quando indicar. Veja o que dizem as evidências e os cuidados na pediatria.
Por Amanda Neves

A melatonina é um hormônio endógeno produzido pela glândula pineal, com papel central na regulação do ritmo circadiano e na qualidade do sono. A sua suplementação, contudo, é realizada muitas vezes de forma inadvertida e tem sido identificada como o principal agente envolvido em episódios de ingestão acidental e intoxicação medicamentosa sem supervisão em crianças de 0 a 5 anos nos Estados Unidos (EUA). Embora a maioria dos efeitos adversos sejam leves, desfechos graves podem ocorrer.  

Do ponto de vista farmacológico, apresenta meia-vida curta (aproximadamente 40 minutos) e, dependendo da formulação (de liberação imediata ou prolongada), pode reduzir a latência do sono ou favorecer sua manutenção. Em crianças de 2 a 6 anos com transtorno do espectro autista (TEA) e outras condições do neurodesenvolvimento, seu uso pode ser indicado após avaliação clínica criteriosa e falha de intervenções comportamentais, dado que alterações na síntese e função da melatonina são comuns nesse grupo e associadas a dificuldades no início do sono. 

Em contraste, para crianças com desenvolvimento típico, diretrizes baseadas em consenso recomendam priorizar estratégias não farmacológicas, como higiene do sono, rotinas consistentes para dormir e redução da exposição a telas no manejo da insônia. Quando necessário, a melatonina pode ser utilizada por curto período, em doses reduzidas e sob supervisão médica. Isso porque, o uso prolongado durante a primeira infância suscita preocupações quanto a possíveis repercussões no desenvolvimento endócrino, especialmente quando o fármaco passa a ser empregado como agente hipnótico de uso contínuo. 

Veja mais: Melatonina: quais são os cuidados e riscos na utilização

Apesar do uso crescente em pediatria, a maior parte das evidências concentra-se em crianças mais velhas ou populações específicas, com seguimento limitado, permanecendo lacunas importantes quanto à segurança e efeitos a longo prazo em crianças pequenas. 

Desenho do Estudo 

Nesse cenário, foi conduzida uma revisão sistemática com a finalidade de analisar os efeitos do uso de melatonina em crianças pequenas, com ênfase na segurança e na eficácia.  

A busca foi conduzida em bases de dados internacionais como Ovid MEDLINE, Embase, CINAHL Complete, APA PsycInfo, Web of Science, Cochrane Central e ClinicalTrials.gov, sendo pesquisados estudos publicados até fevereiro de 2025, utilizando palavras-chave relacionados à melatonina e crianças de 0 a 6 anos. Foram incluídos estudos prospectivos, em inglês, que avaliaram o uso de melatonina nessa faixa etária, publicados em periódicos revisados por pares ou literatura cinzenta (como resumos de congressos).  

Após análise criteriosa, foram selecionados 12 estudos observacionais, 6 estudos experimentais e 1 protocolo de ensaio clínico.  

Resultados e Discussão 

No que concerne aos resultados, os estudos observacionais destacaram a ocorrência de superdosagem e o uso prolongado da melatonina, sobretudo entre crianças com comorbidades psiquiátricas. 

Ademais, a incidência e a prevalência da prescrição da melatonina aumentaram ao longo do tempo em 5 anos, com alguns estudos relatando aumento de até 500%. Nesse cenário, cabe destacar que durante a pandemia de COVID-19, o uso indiscriminado da melatonina se tornou mais evidente, possivelmente relacionado ao aumento de exposição a telas e alterações no padrão do sono. Entre 2018 e 2022, a exemplo, houve aumento expressivo nos casos de overdose nos EUA, país em que a melatonina é considerada suplemento alimentar, facilitando seu acesso. De acordo com outro estudo americano, 90,2% das intoxicações por melatonina ocorreram por ingestão acidental, provavelmente relacionada ao consumo inadvertido de melatonina destinada a adultos. O aumento do uso em adultos, aliado à popularização das formulações em gomas e às inconsistências entre as concentrações reais e as indicadas nos rótulos, pode potencializar os efeitos adversos em crianças pequenas. 

Os ensaios clínicos envolvendo crianças pequenas com condições neurológicas, como o transtorno do espectro autista, por sua vez, demonstraram que a melatonina reduz a latência do sono em pelo menos 30 minutos, com baixa ocorrência de efeitos adversos. Esses achados, corroborados por outras revisões, reforçam que a melatonina pode ser considerada em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento após intervenções comportamentais e avaliação médica criteriosa. Nenhum dos ensaios avaliou a eficácia em crianças com desenvolvimento típico. 

Conclusão e Mensagem prática 

Em síntese, as evidências disponíveis indicam que a melatonina exógena pode ser eficaz para reduzir a latência do sono em crianças pequenas com transtornos específicos do neurodesenvolvimento, como o TEA. No entanto, os dados sobre seu uso em crianças com desenvolvimento típico são escassos. Além disso, o aumento das prescrições, aliado a relatos de uso prolongado e superdosagem, reforçam a necessidade de uma abordagem cautelosa. 

Diante desse cenário, recomenda-se priorizar intervenções não farmacológicas para a promoção de hábitos de sono saudáveis, fortalecer a prescrição baseada em evidências, reduzir a autoprescrição, ampliar a orientação aos pais e cuidadores e garantir o monitoramento clínico das crianças em uso de melatonina. 

Autoria

Foto de Amanda Neves

Amanda Neves

Editora médica assistente da Afya ⦁ Residência de Pediatria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) ⦁ Graduação em Medicina pela UFPE

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