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Pediatria31 agosto 2026

Ômega-3 no TDAH: quem pode se beneficiar da suplementação?

Status basal de ômega-3 pode influenciar a resposta à suplementação em crianças e adolescentes com TDAH. Entenda os achados.
Por Jôbert Neves

O uso de ômega-3 no tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) permanece um tema frequente na prática pediátrica. Embora diversas metanálises tenham demonstrado benefícios modestos da suplementação, a magnitude dos efeitos é pequena e a resposta clínica é bastante variável entre os pacientes.

Uma nova revisão sistemática com metanálise publicada em 2026 procurou responder a uma questão particularmente relevante para a medicina de precisão: o estado nutricional basal de ômega-3 poderia explicar parte da heterogeneidade observada nos estudos?

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Ômega-3 no TDAH: quem pode se beneficiar da suplementação?

O que a nova metanálise avaliou?

Os autores realizaram uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados em crianças e adolescentes com TDAH que receberam suplementação de EPA e/ou DHA. O diferencial desta análise foi incluir apenas estudos que avaliaram biomarcadores basais de ômega-3, como concentrações eritrocitárias ou plasmáticas de EPA e DHA, permitindo estratificar os resultados conforme o status nutricional inicial. Foram incluídos sete estudos randomizados, totalizando dez estimativas analíticas independentes.

Saiba mais: ABRAN atualiza consenso sobre consumo e suplementação de DHA na infância e adolescência

O efeito global da suplementação foi pequeno

Quando todos os estudos foram analisados em conjunto, independentemente do estado nutricional basal, a suplementação apresentou um efeito estatisticamente significativo, mas modesto, sobre desfechos relacionados ao TDAH.

O tamanho do efeito agrupado foi de SMD 0,21 (IC95% 0,04 a 0,38; p = 0,017), com heterogeneidade moderada (I² = 38,7%). Esse resultado é bastante semelhante ao observado em metanálises anteriores, que geralmente demonstram ganhos discretos com a suplementação.

O status basal de ômega-3 pode influenciar a resposta

O principal achado do estudo surgiu quando os pacientes foram estratificados pelo estado nutricional basal. Nas crianças classificadas como portadoras de baixo status de ômega-3 pelos critérios de cada estudo, a suplementação apresentou um efeito significativamente maior, com SMD de 0,52 (IC95% 0,28 a 0,76; p < 0,001). Além disso, a heterogeneidade foi ausente (I² = 0%).

Por outro lado, nos pacientes com níveis normais ou sem estratificação específica, não foi observado benefício significativo, com SMD de 0,03 (IC95% −0,15 a 0,21; p = 0,77).

A diferença entre os subgrupos foi estatisticamente significativa (χ² = 10,44; p = 0,0012).

O que os achados significam para a prática?

A principal contribuição do estudo é trazer uma perspectiva mais individualizada para o uso do ômega-3.

Os resultados sugerem que parte da inconsistência observada nos estudos anteriores pode ser explicada pelo fato de que os pacientes não partem da mesma condição nutricional. Em outras palavras, a suplementação pode não ser igualmente útil para todos os pacientes com TDAH.

No entanto, ainda não existe evidência suficiente para recomendar avaliação rotineira de biomarcadores de EPA ou DHA nem para indicar suplementação baseada nesses resultados. Antes disso, serão necessários estudos prospectivos utilizando definições padronizadas de deficiência e protocolos de suplementação mais homogêneos.

Como interpretar a suplementação de ômega-3 no TDAH?

Atualmente, os dados reforçam que o ômega-3 pode ser considerado um tratamento adjuvante de baixo risco, mas não substitui terapias com eficácia comprovada, como intervenções comportamentais e tratamento farmacológico quando indicado.

O principal valor deste estudo está em indicar que o futuro da suplementação nutricional no TDAH pode estar menos na recomendação universal e mais na identificação de pacientes com perfis biológicos específicos.

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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