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Pediatria29 janeiro 2026

Ingestão de água sanitária por crianças: quando indicar endoscopia?

Veja orientações de quando indicar endoscopia após ingestão de água sanitária em crianças, com sinais clínicos e conduta prática.
Por Jôbert Neves

A ingestão acidental de substâncias cáusticas, como hipoclorito de sódio, popularmente conhecido como água sanitária, é uma emergência pediátrica frequente, especialmente em crianças em idade escolar e lactentes. A decisão sobre a necessidade de endoscopia é crítica para evitar complicações e procedimentos desnecessários. 

O que diz a evidência mais recente? 

 Dados recentes trazem evidências importantes para orientar essa conduta, oriundos de um estudo observacional realizado com uma ampla amostra de crianças italianas que ingeriram substâncias cáusticas. Neste estudo, foram avaliadas correlações entre sintomas clínicos, achados laboratoriais e gravidade das lesões esofágicas além de fatores relacionados ao modo de ingestão e armazenamento do produto, com destaque para os seguintes resultados:  

Sintomas preditores de lesão grave 

  • Hematêmese, vômitos e sialorreia (p < 0,01). 
  • Lesões orofaríngeas ou labiais visíveis (p < 0,01). 

Fatores adicionais 

  • Produto armazenado em recipientes improvisados (copos ou garrafas plásticas) (p < 0,01). 
  • Alterações laboratoriais: leucocitose neutrofílica (75% nos casos graves) e PCR elevada (p = 0,01). 
  • Crianças assintomáticas nas primeiras 6–12 horas após ingestão não apresentaram lesões significativas. 

Recomendação prática: endoscopia indicada sempre que houver vômitos, sialorreia ou hematêmese. Assintomáticos geralmente não necessitam endoscopia, exceto menores de 18 meses ou com déficit neurológico. 

Comentário prático para o pediatra brasileiro 

Avaliação inicial: investigar sintomas-chave e examinar cavidade oral. 

Conduta 

  • Se assintomático após 6–12 horas, considerar observação sem endoscopia. 
  • Indicar endoscopia em casos sintomáticos ou com sinais orais de lesão. 

Prevenção: orientar famílias sobre armazenamento seguro de produtos cáusticos. 

Atenção especial: lactentes e crianças com atraso do desenvolvimento exigem maior vigilância. 

Mensagem prática  

A prevenção continua sendo a estratégia mais eficaz para reduzir os casos de ingestão acidental de produtos cáusticos em crianças. A maioria desses acidentes ocorre porque substâncias como água sanitária são armazenadas em recipientes improvisados, como copos ou garrafas de refrigerante, o que aumenta significativamente o risco de confusão e ingestão. Por isso, é fundamental que pediatras orientem pais e cuidadores sobre medidas simples, mas essenciais: nunca utilizar recipientes improvisados e manter esses produtos fora do alcance das crianças, sempre em suas embalagens originais. 

Quando o acidente acontece, é importante lembrar que nem toda ingestão de água sanitária é uma tragédia anunciada. Com uma avaliação clínica criteriosa, comunicação clara com a família e medidas preventivas bem estabelecidas, é possível evitar procedimentos desnecessários e concentrar esforços nos casos que realmente exigem intervenção. Essa abordagem baseada em evidências não apenas melhora a segurança do paciente, mas também reduz a ansiedade dos cuidadores e otimiza recursos nos serviços de saúde. 

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Médico do Departamento de Pediatria e Puericultura da Irmandade da Santa Casa  de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP), Pediatria e Gastroenterologia Pediátrica pela ISCMSP, Título de Especialista em Gastroenterologia Pediátrica pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).  Médico formado pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Coordenador Young LASPGHAN do grupo de trabalho de probióticos e microbiota da Sociedade Latino-Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (LASPGHAN).

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Referências bibliográficas

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