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Pediatria25 junho 2026

ESPGHAN 2026: prevenção da doença de Crohn

Sessão discutiu fase pré-clínica, biomarcadores e estratégias de modulação de risco na doença de Crohn em crianças.
Por Jôbert Neves

Durante a reunião anual da European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition (ESPGHAN 2026), realizada em junho de 2026 em Lille, França, Jean Frédéric Colombel apresentou uma state of the art lecture sobre o futuro da doença de Crohn (DC): a possibilidade de prever e intervir antes mesmo do aparecimento clínico.

A aula partiu de um conceito central que vem ganhando força nos últimos anos: a existência de uma fase pré-clínica da doença inflamatória intestinal, na qual já há alterações imunológicas, microbiológicas e de barreira intestinal, mas ainda sem manifestações clínicas evidentes.

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Como a história natural da doença foi apresentada

O modelo apresentado reforça que o desenvolvimento da DC ocorre em etapas. Inicialmente, há uma predisposição genética, seguida da exposição a fatores ambientais, como dieta, tabagismo, antibióticos e alterações do ambiente microbiano.

A partir disso, ocorre perda de integridade da barreira intestinal, disbiose e perda de tolerância imunológica, evoluindo para inflamação subclínica. Esse processo pode permanecer silencioso por anos até o surgimento da doença clínica.

Esse conceito é fundamental porque abre espaço para intervenções precoces, antes do dano estrutural intestinal.

Estratégias de prevenção primordial ainda têm aplicação limitada

Apesar dos avanços, a prevenção da DC ainda está em estágio inicial. No entanto, Colombel destacou que algumas estratégias já podem ser consideradas, especialmente em indivíduos de alto risco, como filhos de pacientes com doença inflamatória intestinal.

Entre as principais estratégias destacadas estão o controle adequado da doença materna antes e durante a gestação, o uso criterioso de antibióticos, a promoção do aleitamento materno e a introdução alimentar adequada. Também se enfatiza a importância de evitar a exposição precoce a alimentos ultraprocessados, reduzir o contato com poluentes e tabaco e estimular um ambiente com maior diversidade microbiana. Essas medidas se inserem no conceito de prevenção primordial, com foco na modulação de exposições desde fases muito precoces da vida.

Estilo de vida apareceu como possível modificador de risco

Um dos pontos mais interessantes da apresentação foi a integração entre risco genético e fatores de estilo de vida.

Dados de coorte populacional mostraram que indivíduos com alto risco genético podem reduzir significativamente a chance de desenvolver doença inflamatória intestinal quando expostos a um estilo de vida favorável. Esse perfil inclui alimentação equilibrada, prática de atividade física, sono adequado e ausência de tabagismo.

O impacto é relevante, com redução aproximada de até 50% no risco de doença, mesmo em indivíduos com carga genética elevada.

Biomarcadores podem apoiar a identificação precoce

Outro eixo importante discutido foi a identificação de indivíduos na fase pré-clínica.

Já existem modelos que combinam marcadores sorológicos, genéticos e inflamatórios, como calprotectina fecal persistentemente elevada, capazes de identificar indivíduos em risco aumentado antes do diagnóstico.

Saiba mais: Calprotectina fecal: um guia prático para a interpretação do clínico

Esse conceito tem implicação direta na possibilidade de rastreamento dirigido em populações de maior risco, embora ainda não haja recomendação para aplicação ampla na prática clínica.

Intervenção antes dos sintomas ainda está em investigação

Talvez o ponto mais provocativo da aula tenha sido a discussão sobre intervenções farmacológicas na fase pré-clínica.

O estudo HALT Crohn’s disease foi apresentado como exemplo dessa estratégia. Trata-se de um ensaio clínico randomizado que avalia o uso de vedolizumabe em indivíduos com alto risco de desenvolvimento de DC, definidos por perfil sorológico e inflamatório.

O objetivo é interromper ou retardar a progressão da doença antes do aparecimento clínico. Esse tipo de abordagem representa uma mudança de paradigma, aproximando a doença inflamatória intestinal de outras condições em que já se discute prevenção secundária ou interceptação da doença.

O que essa discussão pode mudar na prática atual

Na prática atual, o principal impacto está na orientação de pacientes e famílias de risco, com maior atenção ao histórico familiar de doença inflamatória intestinal, ao estímulo de hábitos saudáveis desde a infância, ao uso criterioso de antibióticos, à adoção de padrões alimentares menos inflamatórios e à promoção do aleitamento materno. Ainda não se fala em prevenção formal da doença, mas já é possível atuar de forma relevante na modulação do risco.

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No Brasil, a identificação estruturada de indivíduos de alto risco ainda é limitada pela ausência de protocolos de rastreamento, mas intervenções baseadas em estilo de vida e educação familiar são plenamente aplicáveis e devem ser incorporadas ao cuidado longitudinal, especialmente em famílias com DII. O reconhecimento de uma fase pré-clínica da doença de Crohn reforça oportunidades de intervenção precoce e sinaliza uma futura mudança de paradigma, mesmo que terapias preventivas ainda não façam parte da prática atual.

Autoria

Foto de Jôbert Neves

Jôbert Neves

Conteudista médico na Afya. Formado em medicina pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Realizou residência em Pediatria e especialização em Gastroenterologia Pediátrica pela Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (ISCMSP). Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e experiência internacional como observer no SickKids, University of Toronto. Atuou ainda como Coordenador Young LASPGHAN do Grupo de Trabalho em Probióticos e Microbiota.

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